segunda-feira, 21 de agosto de 2017



TOC
20/08/2017
Quem conhece minha mania por simetrias (nem que sejam assimetrias que gerem um mínimo de simetria - e isso tem a ver até com decoração de interiores e de disposição de quadros numa parede) saberá do que estou falando. Fui a um médico que, pelo que me informou a sua recepcionista, marca hora de 7 em 7 minutos. Minha primeira reação foi me espantar com tempo tão exíguo para um atendimento em saúde. Se bem que hoje em dia quem dá o diagnóstico propriamente dito são as imagens. O médico apenas concorda ou caminha um pouco mais adiante ou aquém do que elas demonstram. Mas, passado o primeiro impacto diante dos 7 minutos (número ímpar e primo, ainda por cima!!!), confesso aqui, o que me desnorteou mesmo foi o fato dele não marcar ou de 5 em 5 ou de 10 em 10 minutos. Sete é um despropósito. Não combina com nada. No relógio, então, é tormento puro ir de 7 em 7 minutos! Nunca coincide com os quatro quartos da hora!
Não bastasse o trânsito da roça até o centro da cidade, o preço exorbitante do estacionamento, a demora do elevador pois, dos 4, só dois funcionam, ainda tenho que gastar meu raciocínio com esta operação matemática sem a menor necessidade!?!?!?!
Que moço mais sem nexo, sem juízo, sem regras! Vou começar a desconfiar de seu diagnóstico!
ESCOLHAS HÁ EM TUDO
21/08/2017


Quando respondo “tudo bem” à amiga que indaga como ando passando tem escolha minha. Interna, saída do que sinto. Um sentir não propriamente pensado, mas vindo à tona por conta de alguma ligação já feita qualquer hora destas... Não planejo respostas nem quaisquer palavras que me vêm à boca, mas, sem dúvida elas são tecidas na alma e quando espanto surgem, como se fossem impensadas e frouxas. Não creio nisso! Por dentro, no âmago, a experiência de hoje, com o sonho de ontem, com a ponderação de agora, com a reflexão de um dia destes, mais um tantão de coisas, é que gera o espontâneo “tudo bem” recém pronunciado. O ontem, o futuro e a agoridade mais efêmera são os sais que, misturados, saem ao ar e nos dizem ao outro.
Poderia dizer “como sempre, “mais ou menos” ou “do jeito que dá para ir”. Ou até “vou mal” ou “do jeito que Deus quer”... Mas, não: a resposta é pronta, sem charminho, sem treino: “tudo bem”. Não juro que sempre seja essa, mas que me lembre é bem comum que seja.
Posta porta afora, posso analisar a palavra e tentar dissecá-la em sua intenção, gênese e conteúdo, agora refletivo. O meu “tudo bem” não é uniforme, apenas lado bom da vida, uma coisa só, pérolas, por assim dizer. O “tudo bem” inclui diversidade e tensão. Extirpa monotonia e inclui momentos de dor e alegria, de indiferença e aflição, de ir, esperar, dar a vez ou seguir com uma certa celeridade.
Estar “tudo em” comigo é estar em dia com as forças e manhas de seguir firme sabendo que a vida é árdua e maravilhosa, absorve perdas e ganhos. E me faz sorrir só em olhar a chuva que cai enchendo minhas narinas de cheiro de terra molhada. O sol? Há de brilhar mais uma vez. Mais tarde!


domingo, 20 de agosto de 2017

MÁ DISTRIBUIÇÃO DE APETITES
Ontem falava ao telefone com uma grandíssima amiga, apreciadora de bons pratos, como eu, sobre uma outra, também adorável, mas a quem "odiamos" por seu eterno equilíbrio diante de um saboroso prato, seja ele qual for. Nada a tira do sério e há anos é sempre vítima de nossa permanente reclamação sobre sua capacidade de lidar com seu apetite. A "inimiga comum" é tão disciplinada que irrita qualquer um. Em seu dia-a-dia, é comum sair da mesa ainda com um grau de insatisfação, tamanho o seu comedimento frente a qualquer das delícias que possam nela se apresentar. E ela, sempre que pode, anuncia isso com um certo sorriso nos lábios (à Mona Lisa), impiedosa, sabendo que provoca nossa ira e inveja no mais alto grau.
Na semana passada, a "madame-disciplina-alimentar" fez uma pequena cirurgia, coisa simples, passa bem, felizmente, mas está precisando fazer uma pequena dieta nestes primeiros dias. Hoje ligo para saber notícias e, juro a vocês, se estou viva aqui a contar o fato é por milagre. É que ela quase me provocou um enfarte agudo do miocárdio com o que me anunciou, com sua costumeira voz suave, sem nenhuma intenção de me ofender, absolutamente!
Sabem o que fui obrigada a ouvir? Eu que a imaginava talvez um pouco ansiosa para comer alguma coisinha diferente neste seu pós-operatório, simplesmente, tive que aturar a sua doce afirmação de que "está até gostando de só beber líquidos por uns dias..."
Refeita do golpe mortal, só me resta telefonar para a amiga de ontem para desabafar e contar com seu apoio irrestrito à minha revolta. Justa, sã, irrefutável.
Quanta humilhação! Diversidade tem limites!!!!

sábado, 19 de agosto de 2017

DE IMAGENS

Nunca me esqueço de uma vez em que estava na sala de Nilda, Alves Nilda, então diretora da Faculdade, quando umas alunas, um grupinho delas, entra e indaga: “Lozza(*), sabe de “Fulana”? Ela não passou por aqui? Aquela que se parece com Costinha...?”. Paro de separar a documentação a ser levada para Angra e respondo, espantada:“Coooooostiiiiiiiinha??? Quem, criatura?”. Elas explicam e eu me controlo para não rir e dar asas à minha perversidade. Aluno tem mesmo olhos de lince. Costinha tinha mesmo, de um determinado ponto de vista, uma sósia na Faculdade de Educação. “Vocês, hein? São terríveis... Eu bem queria que me dissessem se fosse eu a estar sendo localizada, quais seriam os adjetivos e detalhes que iriam utilizar para facilitar a minha identificação... Realmente, aluno é bicho danado.... Andem, falem, não me escondam.. Qual a minha síntese?” (E lá foram elas, pelo corredor, aos risinhos, suponho eu, por força de ‘algum detalhe’ a meu respeito que não queriam revelar, assim, de graça...)

Mas, não é? Como as pessoas se referem a nós? O que nos identifica aos olhos dos outros? Não propriamente pela aparência, mas por qualquer aspecto... O que nos resume ao olhar alheio?

Ontem foi um amigo que me fez retomar esta temática comigo mesma, a de quem somos, cada um de nós, perante o olhar alheio. O rapaz, melhor dizendo, o senhor, pois já passa dos sessenta, me confidencia que está numa dúvida atroz em sua vida amorosa: referindo-se ao seu dilema do momento, não sabe se fica com “a de 35” ou com “a de 49”. Duas mulheres resumidas pela idade que já cumpriram.

Meu ouvido não recebeu bem aquele contar. O raciocínio, menos ainda. Fiel à matematização da vida que costuma nos envolver, eu poderia ter ouvido: “a de 1,67m ou a de 1,58?” . Ou, quem sabe: “a de 65 kg ou a de 72?” Tudo esquisito por demais... E pior: ouvi a síntese feita pelo critério idade e logo me imaginei como alvo de uma fala semelhante e não me agradou nem um pouco: “escolho a de 72 ou a de 57?”

Mas, mesmo sem entrar nesta de me autoproteger, por que o critério ser o da idade, meu pai? Por que não: a de olhos tristes ou a de sorriso aberto? A mais tímida ou a mais falante? A que eu adorei beijar ou a que outra, com quem gostei demais de conversar????  Na verdade, se o critério for o de idade, já saio perdendo na comparação. 72 não tem o menor charme! Até provar que libido não tem idade, já fui descartada sem dó nem piedade. Aí dou de pensar em qual seria a mínima expressão que me resume.

Oh, céus! Por que não vou pegar sol ao invés de ficar pensando asnice? Coisa mesmo de “gente de idade”?!?!?!
(*) Lozza, para quem não sabe, era eu mesma, Carmen Lozza.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

COSTURA
18/8/2017


Resultado de imagem para LINHA E AGULHA

Quando leio, vindo de uma postagem de autor desconhecido, que coração rasgado pela dor deve ser remendado com as linhas do recomeço, treinada que sou em cerziduras, entendo, feliz da vida em ter mãos hábeis e garantidoras de carmear nós e outras tramas, que sempre é de bom alvitre deixar nos tecidos refeitos algumas frestas para entrar luz e ar. Se mais adiante novas linhas virão a ser necessárias, é assunto pra depois, na hora que outros rasgos tumultuarem a experiência do viver. Voilà!
CONFISSÃO
18/8/2017
Gosto que me enrosco de escrever, como sei e como sabem. Se for registro de meus tradicionais equívocos quanto às coisas do mundo prático, melhor. É que insuquiram em minha cabeça que sou engraçadinha e que colocar os outros para rir é como se fosse uma missão para aliviar os males da alma de uns e outros, colocando os amigos para rir de mais uma de minhas inconveniências ou inadequações. Não sei se é crença sem pé nem cabeça, mas a cumpro como um dos mandamentos de meu bom viver. Moisés, por certo, não foi quem me deu tal ordem e quem foi, cá entre nós, também não tem a mais mínima importância, Mais ainda (e é o que importa): eu cumpro minha sina, feliz da vida, e vou adiante. O resto vira esterco.
Mas, há um nó nessa questão e quanto a ela tenho andado preocupada além da conta. Ando descumprindo minha tarefa, até há pouco sempre exercida com tanto prazer e compromisso. É que, nestes últimos tempos poucas vezes tenho me pego contando meus fracassos no exercício de meu cotidiano (tipo, jogar o anel no lixo e tentar colocar o papel da paçoquita no dedo, sugerir deixar a porta da geladeira passar a noite entreaberta já que o panelão de recheio de carne não cabe dentro...). Quase sempre são as amarguras do dia-a-dia que tem ocupado meus dedos dedilhantes. É política e só.
Cadê as minhas graças?
Aí vem o problema travestido de aflição: terei deixado de viver coisas sem nexo ou ando esquecendo delas todas (o que já seria meio triste, meio engraçado?????). Socorro, mamãe! As amarguras no Brasil tomaram proporções alarmantes? Consumiram a minha gaiatice todinha sem dó nem piedade?

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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

DETALHES SÃO REVELADORES
16/08/2017
Certa vez, a caminho de uma escola pública em Vila Isabel para uma de minha atividades com professores, e lá se vão pelo menos uns dez, doze anos, pelas redondezas da 28 de setembro, o trânsito estava totalmente engarrafado, com desvios e total lerdeza. Carros buzinando, pessoas a reclamar e ninguém sabia bem o que estava acontecendo. Tempo perdido, fila de carros encompridando e nada da gente saber o que justificava a demora. Mais perto, o alvoroço de crianças uniformizadas começou a delinear o motivo da retenção. O motorista, tão curioso quanto eu, consegue a preciosa informação: desfile escolar, com banda e tudo, pelotões e mais pelotões de estudantes, das escolas do bairro, a desfilar pela avenida, sob os olhares de quem passava. Olhares dos populares, ali aglomerados – e este era o detalhe mais impressionante de tudo – entre surpresos e indagadores – totalmente alheios e curiosos sem saber que comemoração era aquela, em plena dia de semana, sem ser feriado nem dia da independência. Nada. Só quando cheguei à escola Francisco Manuel – lembro-me bem do seu nome e dos seus professores – é que fiquei sabendo que naquele dia, com o tal desfile, comemorava-se o 7 de setembro, já passado de há muito, mas que, sei lá por qual motivo, as autoridades transferiram para aquela manhã de sol. Ou seja: uma comemoração que não comemorava coisa alguma. Ou não são as pessoas e suas almas em festa diante de alguma data especial que saem às ruas para dar mostras do sentimento que lhe vai na alma? Se ninguém sabe do que se trata e apenas olha aparvalhado para crianças uniformizadas em fila, qual o significado do acontecimento? Só atrapalhar o cotidiano de quem vai pela cidade e que, sem ciência e sem sentimento, reclama dos atrapalhos, totalmente injustificáveis. O nada ocupando o lugar do conteúdo. A irresponsabilidade quanto ao sentido das coisas.
Pois é dessa situação que me lembro quando a minha amiga Angela Siqueira postou aqui um dia destes a sua estupefação ao constatar que as medalhas ganhas pelos vencedores de uma determinada competição de natação, esporte em que é exímia e premiada atleta, não vinham com nenhuma inscrição, apenas medalhas anônimas e sem qualquer significado. Para o atleta que ganha uma medalha sem inscrição, o que levará para sua vida quanto ao prêmio recebido? Quantos metros nadou? Em qual modalidade? Onde? Quando? Um conjunto de ausências e silêncios a lhe mostrar a insensibilidade, indicando o prêmio “vale qualquer coisa” ou “entenda e recorde-se como quiser”... Pra quê o faz de conta?
Um faz de conta me lembrou outro faz de conta. A Vila Isabel daquele dia lá atrás, que não comemorava nada e só aporrinhava comerciantes e transeuntes com uma parada sem data cívica, e a premiação inominada de uns dias atrás, numa premiação que carecia de qualquer significado, são momentos geminados de uma mesma falta de sentido. Ou bem se desfila e todos da comunidade sabem do que se trata e agitam bandeiras e cumprem o ritual daquele louvor específico ou bem cada qual fica em seus afazeres sem fazer de conta, um faz de conta abundante de falta de nexo e de valor. E o mesmo em relação ao prêmio: ou estou entregando uma medalha para que o ganhador tenha um registro de seu mérito num dado acontecimento esportivo, ou ... por que e para que mesmo a medalhinha apócrifa? Vale nada, não! Um dia, por total inutilidade, seu destino será a lata de lixo...
Ou bem se é ou bem se tenta ser. Fazer de conta não leva a lugar nenhum, apenas nos objetifica. Ensinamento equivocado sobre o sentido das coisas, da vida e dos seus valores.
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