segunda-feira, 28 de março de 2011

Conhecer-se a si, conhecer a mídia

Escrito originalmente em 2009 (*)

As empresas jornalísticas têm se empenhado de maneira especial para formar novos leitores, seja rejuvenescendo seus próprios veículos, criando seções e suplementos, seja desenvolvendo ações – de cunho mais nitidamente comercial ou não – para atrair o jovem leitor, levando jornais para escolas de suas regiões. São dezenas de empresas, associadas à Associação Nacional de Jornais (ANJ), que hoje mantêm os chamados programas de Jornal e Educação. É bem verdade que ultimamente tem havido um certo refluxo nesse processo, seja pela crise mais recente, seja pela invasão progressiva e avassaladora da leitura por meios digitais, que têm levado muitos desses projetos a se repensarem, realizando revisões de rota e estratégias, de modo a se abrirem para a interatividade e para a ampliação dos suportes que trazem a notícia, para além do jornal de papel.

Não pretendo aqui discutir – e haveria muita coisa a dizer, mas fica para uma próxima vez – a problemática da leitura de jornais por meios digitais quando reduzem ou excluem o jornal tradicionalmente formatado em paginas impressas, estes que permitem releituras e que, quando lidos criticamente, podem aproximar o leitor que se inicia da leitura em seu potencial mais amplo. Sem dúvida, o jornal impresso é facilitador de uma leitura mais aprofundada, necessária para que o leitor, principalmente aquele que ainda está se fazendo capaz de ler “para além da aparência”, se assenhore da informação que a imprensa transforma, a seu jeito, em notícia. Mas, como disse, isso é assunto para um outro momento.

O que pretendo enfatizar aqui, nas poucas linhas deste artigo, é o quanto o jornal, de papel ou não, e com todos os seus defeitos – e até mesmo, ou principalmente, em função deles – precisa estar na escola para ser lido pelos alunos, sob a orientação de professores que lhes auxiliem a destrinchar as informações. É na escola que os alunos podem embrenhar-se pelos caminhos da reflexão, tentando construir um novo conhecimento e avaliando o quanto a sua própria forma de ser sofre influência daquela maneira de contar a História que a imprensa produz e que tanto vai tracejando rotas que poderiam ser diferentes se a narrativa fosse outra e se a força da mídia não fosse tão eficaz perante nosso modo de pensar e agir. Coisa que ela, indubitavelmente, é.

Meu propósito, então, neste momento, é aproveitar e reafirmar as sábias palavras de nosso compositor Billy Blanco em seu CHORO CHORADO, quando diz que “o que dá para rir, dá para chorar”. É que estou convencida de que, se do ponto de vista empresarial é uma necessidade a criação de alternativas para levar jornais – seja em que suporte for - para as escolas, também do ponto de vista de uma educação que visa a humanização é urgente a imprensa ser lida sistematicamente por alunos e professores.

Aluno educado, principalmente nestes nossos dias, é aluno que avalia seus limites e possibilidades frente ao seu contexto, para pensar e agir em prol de um mundo diferente do que aí está. Quando o aluno começa a analisar e perceber a influência que sofre da mídia, ele vai conhecendo a si próprio, percebendo a gênese de seu modo de ser e as suas próprias condições de intervenção. Assim, quem sabe, não pode fazer escolhas melhores pela vida afora, pois que vai tenho maior clareza quanto aos seus limites e possibilidades? Não só em relação à leitura, mas em relação a tudo o mais. Sim, porque, se ele não entende a influência da mídia, ele desconhece a si próprio. Ou pode supervalorizar a sua autonomia frente ao quadro social ou pode tender ao contrário, e sentir a sociedade como extremamente determinada e sem chances de mudar.

Para tanto, para que tais conquistas se façam presentes, cada vez mais os professores precisam ser valorizados e contarem com espaços em suas próprias escolas para que debatam suas práticas. É nesse processo de trabalho coletivo que um conhecimento mais aprofundado sobre o sentido de uma leitura crítica pode ser desenvolvido. Afinal de contas, a presença do jornal na escola só tem sentido se for para que uma leitura crítica seja feita de suas notícias. É necessário, no entanto, reiterar: leitura crítica não pode ser confundida com uma simples opinião. A opinião não tem compromisso com a verdade, com a ciência. Podemos ter opiniões as mais diversas sobre quaisquer assuntos. Mas se nos dispomos a tentar entender uma determinada questão, não é mais uma simples opinião, surgida da vontade ou do gosto de cada um, que vai trazer esclarecimento. Indícios mais científicos precisam ser buscados. A opinião pode ser até uma questão de gosto. Pensamento crítico é outra coisa. Exige trabalho, estudo e, no caso da escola, exige gente reunida para conversar e aprender junto.


(*) Já publicado no Blog do Galeno.

Sobre perguntas e respostas

Escrito originalmente em março de 2002

Ouvir e fazer perguntas não significa negar o passado e suas respostas. Significa, sim, saber que esse passado é sempre relativo e está sempre diante de novas perguntas. São tais perguntas que condicionam a forma como vamos recortá-lo para entender as perguntas que incessantemente não param de surgir...

Tomar por referência a prática – e suas perguntas – não significa – nem poderia significar – cada um de nós se esvaziar de experiências e ideias anteriores para olhar a vida e viver cada um de seus momentos. Pelo contrário, toda a nossa história interfere na nossa maneira de observar e compreender a vida. O que não devemos – e até devemos insistir em lutar contra isto dentro de nós mesmos – é buscar modelos (estes, sim, ideais) para comparar com os fatos que se apresentam, no nosso dia-a-dia (vistos como imperfeitos, incompletos, equivocados se não corresponderem ao modelo ideal). Lidar com o que está posto concretamente é até mais sábio do que “dar murro em ponta de faca”, querendo mudar o que existe, sem levar em conta as circunstâncias.

Acreditamos que, para quem quer melhorar o mundo, para quem é teimoso e insiste em querer contribuir para a construção de um mundo mais humanizado e justo, diferente do que está aí, esta necessidade de tomar a prática como referência é até mais premente. Quando olhamos com mais atenção para o jeito  de ser das coisas é que podemos perceber com maior clareza suas fragilidades e pontos de maior resistência, quem é aliado, quem não é, quais as características mais e menos aparentes de cada situação, como cada fato se liga com o seu contexto, estas coisas... Se ficarmos presos ao modelo ideal de sociedade e quisermos moldar o cotidiano a ele, a tendência é o fracasso.

A forma idealizada de perceber o mundo, não raras vezes, faz com que cada um de nós se sinta desanimado de tentar mudar as coisas diante da forma como elas se apresentam. Sem sabermos olhar bem como as coisas funcionam, sem compreendermos bem o porquê da relação dos homens e mulheres entre si e deles com a natureza ser como é, tentamos mudar e, não raras vezes, fracassamos. Ora aumentamos desmedidamente as nossas possibilidades como sujeitos da História (imaginamos que tudo podemos e, como não podemos, de fato, desistimos e tornamo-nos pessimistas e desesperançados). Outras vezes, nem tentamos nada ou quase nada porque julgamos que somos vítimas de um contexto perverso, e nada ou quase nada podemos contra os poderosos e contra as forças constituídas.

Pois bem: nem vítimas nem sujeitos –  idealizados e a qualquer custo – da História! Seremos sujeitos da História, de verdade, se olharmos bem com esta História se desenrola, suas forças, seus personagens, seu movimento, suas tendências, suas versões, seus discursos, sua multiplicidade... Aí, sim, com base nos nossos sonhos, poderemos – e sempre coletivamente – ir transformando o status quo, estruturando uma nova forma de viver, melhor para cada um e para todos.

Em nome do prazer, eu e eu mesma contra mim

Em nome do prazer, eu e eu mesma contra mim

Escrito originalmente em 2008

Cedo, muito cedo ainda, acordava e, como de hábito, mesmo antes do delicioso café da Dinha, ia até a porta, buscava o jornal e coria de volta para a cama, para sorvê-lo, com o dia ainda por acabar de chegar pela janela, com as brumas ainda pairando, nítidas, sobre a Serra da Tiririca, que me espreitava, logo ali, deslumbrante.  Afinal de contas, era em suas páginas que encontraria a segunda leitura (a terceira, a quarta, por que não?) daquilo que vira na véspera à noite na TV. E no papel, o que não é pouco, pois a torna mais densa, leitura que, a partir de então, estaria aqui comigo, dentro, tomando meus pensamentos e minha humana necessidade de maior compreensão da vida e de seus tortuosos caminhos e atalhos. Nele leria, por cima e por dentro do que li, parando e pensando, junto com outros fragmentos de vida que já estavam lá dentro, habitando minha alma coletora de fatos e estudos, de vida mesmo, rememoraria pedaços de experiências que selecionei e que colorem meu espaço interior, e siguiria em frente – ou me deixaria paralisar por instantes, mais triste ou mais cheia de esperança, mais criativa ou mais cansada, diante do último absurdo da política ou da última expressão da violência urbana transformada em notícia.


Este foi um jeito de viver, uma prática que se repetiu por décadas, ano após ano, dia após dia, fazendo-me portadora de uma prática que necessitava do contato do olho com o papel, da mão com a tinta, para trazer as notícias sobre o mundo até dentro de casa, a informação para dentro de mim, as imagens de uma leitura para a minha própria leitura, fazendo-me caminhar mais um pouco ao encontro de mim mesma em minha vontade e compromisso de saber melhor do mundo, para nele interferir, como fosse possível, junto aos meus companheiros de caminhada, no trabalho de ajudar o outro, ainda jovem, a ler, enquanto eu mesma crescia na leitura do outro...


No contato com este papel recheado de imagens e palavras, atravessava o dia, sabendo que no dia seguinte lá estaria ele, novamente em minha porta, à espera de minha sede incessante da leitura do que ele me contaria, dando prosseguimento à história que vinha compondo para que eu destrinchasse, junto a outros leitores e outras leituras. Ler jornal no papel para mim era isto: começar naquela hora híbrida - meio madrugada, meio manhã -, tendo a ver com o barulho do entregador (naquele momento, meu maior e insuperável amigo) que o joga, para atravessar o jardim (a ser molhado por mim, é claro, um pouco mais tarde, pois que o vício original era outro, o da leitura, as plantas que aguentassem a sua sede um pouco mais...).

                    Tempo.


Assim foi e, devo confessar, por muitos e muitos anos. Até mesmo hoje, quando conheço bem mais e faço do estudo dos meandros da imprensa uma prioridade, até hoje há vestígios do antigo "vício". Daí, a angústia. E me perguntava sempre: o que devo dizer a mim mesma, com todo este prazer tão arraigado ao meu jeito de ser e viver, quando sei que, ali, diante daquele jornal diário, sou objeto de leituras escolhidas por outros, quando sei que a manchete poderia ser outra, quando sei que talvez o fato mais importante e decisivo da véspera poderia não estar no jornal que lia? Como amainar a fúria de minha razão solene e sábia diante do meu prazer encabulado, viciado num instrumento feito para contar a história mas que acaba por tecê-la? Como juntar, costurar, remendar, a minha porção racional que sabe, conhece, avalia, desconfia, busca, critica, à outra, já feita uma segunda natureza que corre em busca desse mentiroso, dia após dia?

Mais um tempo: não sei se para o bem ou para o mal, mas a razão esclarecedora anda submetendo a minha porção "Maria Antonieta" e dei de esquecer, até por mais de um dia, jogado, sob sol ou sob chuva, lá na porta de casa, o jornal, antes tão ansiosamente aguardado, quase como o meu despertador diário, a me sacudir para ingressar no mundo da informação. As fontes para o bem saber e bem viver são outras. Informação relevante advém de outras fontes. O jornal chega agora como elemento secundário, até groseiro, diante do que de fato vai pelo mundo... E, então, a mim mesma indago: quando será a hora de suspender a assinatura?