segunda-feira, 11 de julho de 2016

ANOTAÇÃOZINHA SOBRE A COMUNICAÇÃO VIRTUAL

(Escrito em 8/7/2015)

Tanto ao mar e tanto à terra
Uma e outra coisa

Tem gente de que eu gosto muito que tem uma certa aversão a esta nossa forma atual de comunicação virtual, como se, ao estarmos nos servindo dela, usando e abusando das redes sociais, houvéssemos perdido nossa autonomia e sucumbido ao sistemão que tanto nos oprime. Eu não consigo concordar com essa maneira unidirecional de olhar as coisas.  Para mim, isso é um pedaço, um ângulo,  uma nesga da verdade... vai na lógica de quem reparte o mundo em duas fatias que não se misturam. Ou você é bom, ou é mau; ou é opressor, ou oprimido... ou ou ou...

Quando a gente intenta ver o mundo e a nós mesmos, vamos dizer assim, em nossas misturas, por mais  cômoda que pudesse ser essa imaginada matematização da vida, onde pudéssemos segmentar as coisas, ela não dá conta do que sucede no âmbito do real concreto. Informações como as que aqui circulam, ainda mais nestes tempos em que a imprensa está pra lá de tendenciosa,  tão ricas, tão amplas, tão ensinantes, custariam muito mais a ser disseminadas não fossem nossas trocas virtuais. Aqui eu me submeto crescendo, ou melhor, aqui eu cresço ampliando as maneiras de refletir e agir para deixar de me submeter. É o que me parece.

domingo, 10 de julho de 2016

PORTAS SEM TRANCAS

(Escrito no dia 10 de julho de 2015)


“Não deixe portas entreabertas
Escancare-as
Ou bata-as de vez.
Pelos vãos, brechas e fendas
Passam apenas semiventos,
Meias verdades
E muita insensatez.

Flora Figueiredo


Ao ler esta fala poética, logo tratei de incorporá-la ao meu íntimo para me inspirar em meu início de dia. Abrir portas, devo dizer, já é tentativa antiga, que insisto em não me esquecer a cada dia, sempre buscando viver, o que para mim é meio sinônimo de tentar exaustivamente estar aberta ao novo. Não é simples, mas é tarefa de quem não quer morrer em vida. Portas abertas: tudo bem! Quanto ao trancar de vez, ao evitar o lusco-fusco da incerteza, do trancar de vez todas as portas, encerrar todos os assuntos, concluir os antigos percursos, aí eu me penitencio. Nem sempre tenho êxito nesse intento. Uma coisa é racionalmente pretender esse encerramento, essa finalização, esse ponto final em coisas lá de trás. Mas, em se tratando de sentimentos, há portas que não consigo cerrá-las por completo. Não sei se é devido à qualidade da madeira, à teimosia trazida pelo vento nordeste que as empurra vez por outra, ao modo como foram construídas pelo artesão, há portas teimosas, ameaçadoras até, em seu caráter renitente e portador de luzes que deveriam há muito estar de um outro lado, sem acesso ao íntimo de minha casa de afetos.

De todo modo, foi muito bom e proveitoso ler a poesia. Se a poeta diz e ensina, é porque eu devo continuar tentando...



quinta-feira, 7 de julho de 2016


TRISTEZA COMBINA COM HUMOR – POR QUE NÃO ACREDITAM?

(Escrito em algum dia de junho de 2016)


Foi de hoje, agorinha, a decisão. Radical. Radical de ir às raízes mesmo. Falar de minhas dores só no divã. Ali não tem piada. O choro corre solto e só o meu lado lacrimoso, carregado de mágoas vem à tona e não dá margem à dúvida. É aquilo mesmo e pronto. É analisar, juntar peças, entre muitos soluços (claro!), associações, sonhos, frases soltas, até silêncios, e partir para o desatamento de nós, o carmeamento de pinos soltos e de bainhas com fiapos à vista ou ainda por se exibirem. Ali, comigo mesma, com a mediação da psicanalista, sou apenas a entrega ao entendimento profundo das marcas, das ausências, das circunstâncias emocionais, no agora ou no que vem de longe.
Agora, com as amigas, com elas mesmas, as do meu amor, da minha afeição, falo mais nada, não. Bico calado! Acabou! Perda de tempo! É jogo com anúncio de empate, desde o primeiro segundo, sem nenhum lance, nem gol contra, nada. Total perda de tempo. Vale a pena, não. As criaturas, como me conhecem o bom humor, a banda piadista, que me marcam e as fazem rir, desconsideram meus lamentos e nem me permitem seguir com nenhuma lamúria, por mais doída que seja.

Numa de nossas festas, as amigas-irmãs. que não me dão ouvidos.
Eu, em plena palhaçada no aniversário de Dorinha, fazendo com que não acreditem que sou um ser que também sofre.

Se alguém está apressadamente aí do outro lado, enquanto me lê, já imaginando que é zanga ou coisa parecida, que nada!  A mulherada é do meu mais profundo afeto, são poucas, mas certeiras. Amor vai e vem, na medida exata ou até extravasada de bem querer da melhor qualidade.  Nunca me falham. Nosso amor é da mais sólida entrega e dedicação. Mas, quem disse que posso delas, de qualquer uma, fazer minha confidente? É só eu começar a falar de meu penar, de meu amor não correspondido, de minha angústia, que dão de rir, não há meio de encararem com seriedade o anúncio que eu possa fazer de meu estado d’alma, quando este está lamuriento. É só eu abrir a boca e falar: “Meninas, estou num sofrimento só...”, que nem me esperam concluir, uma começa e as outras fazem coro, rindo, sem o menor respeito pela dor alheia: “Para com isso, criatura...”
E sabem do pior? Eu me ponho a rir também e nada segue de concreto sobre qualquer sentimento que esteja banhado em qualquer tipo de faltas, carências e coisas tais.
Desisto!


Pato




(Escrito no dia 7/7/2016
Isto tem um ano. Os cachorros começaram a latir desesperadamente. Corri até a janela maginando o de sempre: um gambá, um porco-espinho... Mas, nada! Um lindo pato veio voando nos visitar e se banhava, glorioso, na piscina. Surpresa total! De imediato, a vontade foi de que ele fizesse aqui uma espécie de segundo lar, que viesse sempre, que a nossa fosse também um pouco a sua casa.

Qual nada! Chegou, agradou, criou expectativas e foi embora. Assim mesmo, esperei que ele voltasse. Quem sabe não havia gostado do ambiente e de nossos olhares de admiração e alegria? Mas o sedutor se mostrou um ilusionista. Não é que voltou no dia seguinte?  E mais uma vez, suas voltas e mergulhos foram cercados do maior sentimento de acolhida e esperança de que a conquista amorosa estivesse em curso. Daquele flerte haveria de advir um namoro sério, destes que frequentam a casa, amiúde. Pois o conquistador alado fez das suas, agradou mais uma vez a quem o viu por aqui e quando se deu por satisfeito, voou pra longe. Nunca mais deu as caras e deixou saudades em que o viu em todo o seu reboliço. Um egoísta de primeira! Ou eu uma... vamos dizer assim, uma pata de quinta categoria?
Azul e Rosa

(Escrito em 7/7/2015)



Foto tirada por mim: o amanhecer  na Serra da Tiririca, vista da  minha janela




O dia entra pela janela

a luz vindo em ondas

lá de trás do morro.


Cá de dentro de mim


vida em sendo vivida


como há de ser...

quarta-feira, 6 de julho de 2016

ATENÇÃO! TEXTO DE OUTRO AUTOR
MENSAGEM DO DIA

Meus filhos comigo no Parque da Cidade, em Niterói


Ele é o nó no meu cabelo,
O esmalte descascado na minha unha,
As olheiras no meu rosto.
Ele é o carrinho na minha gaveta de roupas,
O amassado nas páginas do meu livro,
O rasgado no meu caderno de anotações.
Ele é o melado no controle remoto, 
O canal da televisão, 
O filme no dvd.
Ele é o farelo no sofá, 
As tesouras no alto, 
A baba no celular.
Ele é o backup no computador, 
O mouse escondido,
As cadeiras longe da janela.
Ele é a marca de mão nos móveis, 
O embaçado nos vidros
O desfiado nos tecidos.
Ele é o ventilador desligado, 
A porta do banheiro fechada
A gaveta da cômoda aberta.
Ele é o cóque na minha cabeça,
As frutas fora da fruteira,
Os panos de prato amarrando os armários.
Ele é o meu shampoo cheio de água,
A espuma no chão do banheiro,
O brinquedo dentro da privada.
Ele é o interruptor, as tomadas
Os imãs da geladeira, os riscos nos cds. 
Ele é o avião que voa por cima da casa,
O trem que apita de longe,
Todo cachorro que late, todo carro que passa.
Ele é o peixe do aquário, 
A árvore de Natal,
Os “pisca-pisca” de todas as casas.
Ele é o círculo, o susto, as goiabas...
A primeira visão da lua no começo da noite...
O valor do trabalho, a vontade de aprender,
A minha força
A minha fraqueza.
Ele é o aperto no meu peito diante de uma escada,
A ausência do meu sono diante de uma febre,
Os meus olhos fechados diante de uma vacina.
Ele é o meu impulso, o meu reflexo, a minha velocidade.
Ele é as formigas na minha cama,
O cheirinho no meu travesseiro
Os cantinhos, 
O barulho,
A metade,
O azul. 
Ele é o vazio triste no silêncio de dormir 
O meu sono leve durante a noite
A checada nas cobertas de madrugada.
Ele é o meu ouvido aguçado enquanto durmo
A minha pressa de levantar da cama,
A minha espera do bom dia.
Ele é o arrepio quando me chama,
A paz quando me abraça,
A emoção quando me olha.
Ele é o meu cuidado, a minha fé, 
O meu interesse pela vida
A minha admiração pelas crianças, 
O meu respeito pelas pessoas
O meu amor por Deus.
É o meu ontem, 
O meu hoje 
O meu amanhã
Ele é o motivo, 
A inspiração
A poesia.
A lição, o dever
O remédio, a terapia.
Ele é a presença, a surpresa
A saudade...
A esperança
A minha dedicação.
A minha oração.
A minha gratidão.
(Autora: Nádia Maria, para o filho Zion.
Publicado originalmente em http://www.nadiamaria.com/zion).


LIÇÕES PRECIOSAS E NÃO TARDIAS

(Escrito em julho de 1/8/2013)

Assim como falei há um par de dias sobre a dor pela morte das crianças da Índia, hoje sou impelida a falar das lições de grandeza que tive ontem, quase que aqui na esquina de casa. De Itaipu fui a Pendotiba em menos de 15 minutos para ganhar lições que perdurarão para sempre dentro de cada um dos resíduos de mim mesma que o mar de Atafona ainda há de tragar (se é que eu posso ter controle sobre esse meu futuro – mais ou menos – próximo).


O simples aniversário de uma amiga, um almoço junto a seus familiares, em sua casa, me trouxe sabores emocionais e afetivos incalculáveis. Primeiro, por rever cada um dos daquela família que foi tão próxima da minha lá atrás, ainda em Campos. Por rever cada rosto, abraçar e beijar cada face, sentir a parecença de cada qual com os dali mesmo e com os distantes, ainda por aqui ou já partidos. Beijoqueira e amante do toque direto nos que amo como sou, fui vencida pelos dali – pelo tanto com que fui acarinhada todo o tempo. E não só pelas palavras (o que também foi muito bom – “Ah, que bom! Su estava feliz demais em saber que você viria!”) mas na carne mesmo, beijo no beijo, abraço no abraço, afago no afago. Ou seja: a minha presença, eu que só recentemente vejo um pouco menos nebulosamente que sou querida, desde antes de chegar já era anunciada como algo bom. Que sensação deliciosa! Realmente, antes de minha morte, eu precisava aprender a ver e a sentir o que antes, por minhas próprias incertezas e marcas, ficavam invisíveis à minha própria percepção.
Mas isso foi apenas o começo. Muito mais havia por vir. Não que tenha sido menor ou maior o que veio em seguida. Não! Não há quantificações. São sentimentos e observações incomparáveis, apenas sentidas e que me põem a registrar, a pôr pra fora, sempre por intermédio delas – das palavras –, tamanha a força com que se movem dentro de minha alma.
Eu me refiro à chegada dos pais da minha amiga, quando eu já tinha tomado a primeira dose de whisky, tão especialmente a mim servida por um dos primos, em cuja fisionomia reconheci a irmã, que não vejo há tanto tempo...  Cara de gente boa, que dá vontade de (re)conhecer melhor. Mas isso é pra depois, como já me ensinou há muitos e muitos anos, Scarlett O’Hara em “E o vento levou”.
O momento é de falar dos pais, o lindo casal de velhinhos que chegou para fazer vibrar a minha alma teimosamente romântica. Sei que vale pouco dizer que chorei, já que minhas lágrimas são inteiramente desprestigiadas, meio como arroz de festa em minha face. São tão banais que não comovem mais ninguém. Creio ser eu mesma a única a acreditar na força e veracidade com que afloram e não se deixam esconder. Pois o fato é que os dois amorosos seres fizeram com que lágrimas encharcassem a minha face envelhecida. Cada qual com seus 90 anos, ela já bastante ausente pela doença, o carinho do marido pela mulher, tentando trazê-la todo o tempo de volta ao seu redor, eram o meu sonho de amor posto visível, palpável, à prova, ali na minha frente. Era olhar e ver. E as filhas, todas, em relação ao casal? Ora um docinho na boca, ora um passar de mão pela testa, ora o cuidado em ajeitar a almofada por baixo dos pés da linda senhora. Cada qual a seu tempo, cada qual à sua maneira, cada qual em sua forma de amar... e ele, o marido, encantador, bebendo o seu abacaxi com sei lá qual tipo de álcool, sem se esquecer de, todo o tempo estar inteiro, ao lado da mulher.
E tem mais, pois o que não faltou ali foi amor demonstrado em gestos e atitudes. Falo agora do caso da menininha, uma das integrantes da novíssima geração, a dos filhos dos filhos dos filhos. Vivendo uma situação de alergia alimentar, mereceu por parte da dona da casa a busca por um produto que imitasse, de algum modo, o chocolate – pela pequena tão apreciado –, mas, por agora, proibido de ser ingerido. O produto, de que não me recordo o nome, foi adquirido pela aniversariante numa loja especializada – ou seja, foi alvo de trabalho, em nome do amor ao próximo (no caso, de uma proximinha de volumosos e sedosos cabelos cacheados), procurado pelo comércio, vindo a ser o ingrediente do bolo em torno do qual cantamos o “Parabéns pra você”.
E eu que achava que sabia amar! No meu íntimo, o que sinto mesmo é que, no mínimo, preciso registrar essas pequenas historietas para fazer chegar a meus filhos as lições que não pude lhes passar enquanto dava aulas no Henrique Lage ou que redigia panfletos e ia às ruas em torno da última campanha política para mudar o mundo.

Que bom que ainda deu tempo!