quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Em 19 de novembro de 2013

CADA UM TEM SEU DIA DE ALUNO DA ESCOLINHA DO PROFESSOR RAIMUNDO...

Não sei qual era o personagem, nem qual o ator que o fazia[1]. Mas me lembro da existência de um dos alunos da famosa escolinha que, de repente, ouvia de um outro colega alguma informação, mais do que sabida por todos, e fazia de sua ignorância em relação ao assunto motivo de graça, ao se surpreender, por desconhecer o assunto:
- “Napoleão Bonaparte, antes de morrer, viveu na Ilha de Elba” – dizia o colega.
E o tal aluno respondia, espantadíssimo, mal deixando o outro terminar de falar:
- “Napoleão morreu????????????”
Seu ar de surpresa era tão intenso que a turma vinha abaixo em gargalhadas, a cada semana repetindo-se situação semelhante, como sói acontecer neste tipo de humor que era e ainda é feito em nossas TVs.
Foi do que eu me lembrei na semana passada, quando vivi situação tão ou mais grave quanto essa da possibilidade da morte de Napoleão ainda espantar alguém. Ao visitar minha grande amiga Regina, lá pelas tantas, ainda à mesa, após um delicioso almoço de típicos pratos árabes, nem sei ao menos em função de qual motivação, ah, sei, sim, falávamos do Budismo, a minha amiga se sai com esta:
- “Dizem os budistas que naqueles tempos em que Jesus sumiu, dos 12 aos 30 anos, ele esteve na Índia, pois que ele era um Buda...”
Aí, foi a minha vez de me assustar, tal qual o moço da TV:
-  “...E Jesus sumiu por todo este tempo?”.
Regina, apavorada, retruca:
- “É o que isso, Carmen Lucia, vc foi aluna do Auxiliadora e não sabe que Jesus ficou sumido não sei quantos anos?”
“NÃO, Regina!” – praticamente gritei, com os olhos arregalados.
Era a primeira vez que ouvia falar em tal fato. Jesus sumido? Por tanto tempo? E eu nunca soube disso? Meu Deus! O que fazia nas aulas de Religião lá no colégio? Escrevia meus diários?
Claro que a discussão mudou de rumo, saiu do Budismo e veio toda em direção à minha desmemória. Nunca ninguém se acostuma. Pairam dúvidas sempre, tamanhos os absurdos de que já me esqueci em minha vida.
Pois, desta vez, até eu me assustei. Cheguei em casa e fui logo à cata das informações sobre a vida de Jesus. E o que foi pior: tudo que li a respeito do tal sumiço era totalmente novo para mim. Eu nunca soube disso ou simplesmente me esqueci?
Pra me defender, fico aqui pensando que Regina deve ter aprendido isso com Dona Hélia, as freiras estavam mais preocupadas com outras coisas do que com a vida de Jesus...








[1] Ao ler esta croniquinha, um amigo me trouxe à memória tanto o nome do personagem como do ator: Rolando Lero, interpretado pelo inesquecível Rogério Cardoso. 
Em 22 de novembro


UMA RELAÇÃO SEM NOME, UMA DOR SEM TAMANHO

Sol? Nem lá fora nem nas entranhas. Dia de saudade.  Coração indócil. Uma certa amargura afligindo o peito. Recorro às palavras. Começo a dedilhar e me deixo tomar pela emoção que cruza fronteiras e escorre pelas mãos. Sempre é a mesma maneira de lidar com a dor. É escrevendo que aciono as válvulas internas dos sentimentos e vou conseguindo purgar as dores que me fazem chorar, como aqui, agora.

Há amigos, muitos, que estranham eu ser tão alegre e fazer tanta graça com as coisas, as mais singelas, do cotidiano. Uma das amigas, de uma certa forma, até me repreendeu, ao me ver tão crítica em relação a mim mesma, mais especificamente quanto falo de minhas práticas marfianas, como se eu estivesse me desmerecendo demais,  anunciando-me como uma idiota que não distingue uma garrafa pet de uma outra de desinfetante[i], esse tipo de coisa... Com suavidade, retruquei: “Qual seria a graça de falar daquilo que sei? O que faz rir são as derrotas...”

Pois eu vivo de gostar de extrair o melhor humor dos fatos do dia-a-dia, sem que eu mesma perceba ou me determine a tal fim. A vida vai sendo vivida e a minha natureza dela vai extraindo o seu aspecto lúdico, como que a entender o humor como uma arma que me protege contra a crueza do conjunto da obra que é viver.

Feliz ninguém é. No máximo, nesta sociedade perversamente estruturada, cada um tem lapsos de alegrias ou momentos de distanciamento ou alienação, até mesmo para sobreviver em meio ao caos. Como uma capa protetora para se fazer viver no momento seguinte, a pessoa se deixa levar por uma alegria aqui, outra ali, mas viver mesmo, num mínimo nível de profundidade, não deixa ninguém ser feliz em paz.

Por isso, sou alegre. Melhor dizendo: porque sou triste, sou alegre. Porque me deixo abater pelo que vai me acometendo pela vida afora, faço-me bem humorada para não sucumbir. Porque choro, eu rio. Porque sinto saudades, eu escrevo.

Nada nunca foi programado. Nunca me dispus a fazer graça para me proteger.  Não sou e nem consigo ser racional e programar-me previamente para o que virá. Veio vindo a mim o refúgio das palavras e nelas eu cada vez me apoiei, delas cada vez me servi e me sirvo, acalmando meu coração tomado por perdas e pelo meu viver pouco convencional e sempre sonhador, repleto de dúvidas e incertezas...

Tudo isso para dizer que hoje estou mooooooooorta de saudades de meu enteado. Viver sem ele por perto é doloroso e extraiu de mim uma parte que se desenvolvia com harmonia e onde reencontrei a maternidade.  E maternidade com tempo de ser mãe, já numa altura da vida em que a riqueza de um amor filial podia ser vivida mais a fundo e sem hora marcada para ser mãe.

Com qualquer pessoa, mesmo que as relações se rompam, o que está em torno pode ser preservado. Mas, quando envolve o fim de um casamento onde o adolescente que fica tem pai e mãe, é perda quase que total. Se não se é mais a mãedastra, o que você é em relação ao filho querido da véspera? Quem sou hoje para o meu ex-enteado?  Aliás, existe ex-enteado? Inda mais quando se mora longe.

Por amor às palavras, sempre gosto de começar a falar das coisas, nomeando-as, analisando seus nomes, dialogando com seus significados. Pois a minha relação com meu querido filhote não tem nome que a defina. Só tem mesmo o meu amor e a minha saudade, que hoje me põe a nocaute.  É chorar, chorar e chorar... Não imagino o motivo, mas há dias em que fico assim, inconsolável. Hoje é um desses dias terríveis.

Ah, Vitor!, como sinto sua falta! Como lamento não ter você por perto. Te amo demais. E sinto muita falta de você, do seu cheiro, da sua voz, da sua conversa, do seu silêncio, da nossa cumplicidade.

Um beijo bem grande, meu amor.





27 de novembro

QUAL JEITO, SE NÃO RIR? E ESCREVER?

Depois vocês não querem que eu ria e que saia por aí contando as minhas derrotas e tudo o que não sei ou não sou capaz de fazer. É dia e noite, não tem hora, a verdade é que não paro de constatar o que vai sucedendo à minha volta e que faz brotar os sentimentos mais palpitantes e contraditórios diante da vida. Parece mentira, mas não é. Olhe para onde olhar, fale com quem falar, há sempre algo a me inspirar a pensar e a escrever, óbvio; e, como sabem bem, não raras vezes, a rir. 

Ontem de manhã, indo para a terapia de carona com meu filho, chovendo direto, o motorista do carro do lado avisa que o nosso pneu estava baixo. Faço o quê? Chorar? Nananinanão! Pego o guarda-chuva grandão que já mora no carro, fico protegendo o filho na sua dura tarefa de providenciar a troca, bem no horário de intenso tráfego, recebo sei lá quantos banhos de água suja vinda dos carros que passavam apressados pelas incontáveis poças d’água, inclusive um da PM (esse me aporrinhou um pontinho acima), mas, romântica incorrigível, alegro-me em seguida com a solidariedade de um jovem senhor que, a pé e sem nenhuma proteção, foi o único a perguntar “... e, aí, amigo, alguma ajuda?”. Logo, logo, sigo, até que me menos tempo do que supunha, para o meu compromisso comigo mesma de tratar das angústias que insistem em seguir a par e passo com a minha capacidade de me indignar, de me alegrar, de simplesmente ir vivendo, com certa atenção, algumas boas surpresas e muitos riscos.

Mas isso foi só o começo da manhã. Faltava o resto do dia todo. Pelo Face, vejo que Rosinha Baldan, amiga de toda hora, me convida para tricotar. Daí, conforme prometi, ligo para ela. Ela já me atende em plena atividade, falando com alguém ao lado e me pede um tempinho. Estava a dar instruções a um técnico para trocar a maçanetas da casa. E já vai me explicando, cheia de “sabença”, termo tão costumeiramente usado por meu inesquecível Geraldão: “É que as maçanetas daqui são redondas. Mamãe ficou presa uma vez no banheiro, eu tenho que me prevenir, as mãos escorregam, a pessoa não consegue abrir... Vai que acontece comigo...”

Maçanetas redondas? Risco???

Tenho ou não tenho que pocar de rir? Meu Deus, como são as maçanetas das portas daqui de casa? Nunca reparei ao certo. Estarei correndo risco? Fico eu ouvindo música, reparando no jeito das pessoas, nas intenções dos olhares, na notícia tendenciosa, revirando coisas vividas, e tudo que está ao meu lado, diante de meus olhos, pode estar pondo em risco minha vida e eu nem estou aí para nada? Santa ignorância! Mais uma coisa que eu não sei!!!!

Com o telefone sem fio colado ao ouvido, saio caminhando pela casa analisando as maçanetas, uma após outra. Todas iguais, pelo menos aqui em cima. São de metal, não são redondas, são ovais, pergunto a Rosinha se corro risco: “Serão potencialmente assassinas como as de João Neiva?”

Rosinha me orienta e, pelo menos “a nível de” maçanetas, estou a salvo. UFA!

Dia que segue... faltava ainda uma boa parte das 24 horas a ser vivida. Mais algum aprendizado viria por aí?

Claro! Enquanto há vida há esperança. E novos aprendizados, com certeza.

Lá pelo meio da tarde foi a vez do telefonema de Dorinha, amiga especialíssima, com quem divido ótimos papos e conjecturas – algumas políticas e outras nem tanto. De onde Dorinha me liga? Das barcas, descendo na Praça XV, a caminho do Flamengo, onde iria buscar Babu, a neta com cheiro de amor, para levá-la à natação, aguardar e depois levar à aula de piano. E sem carro, hoje, mais uma vez na oficina. 

- “Para, Dorinha! Só de você me anunciar seu percurso eu já estou com dor na batata da perna!” (E falo sabendo que não é impossível que à noite ela tenha um lançamento de livro ou alguma homenagem a um antigo amigo para ir lá pelas bandas do Leblon...)

Pois, essa é minha vida, essa é minha sina – amigas dispostas, repletas de tarefas do mundo prático para dar conta; amigas bordadeiras, de todas as prendas; amigas que caminham, depois ainda vão ao pilates; amigas que prestam atenção em tudo, enquanto eu fico dando voltas em busca do que está subjacente; amigas que tomam dez taças de vinho e não se embebedam, enquanto eu preciso me hidratar desmedidamente para atenuar o efeito da deliciosa bebida, caso contrário, já na terceira taça estou precisando não só retocar o batom como lavar o rosto com água fria. Se estiver casada, então, aí é que o sono vem célere. Nota de rodapé em pleno miolo do texto: Casamento sempre me deu um sono danado...

Desisto ou sigo adiante, conformando-me em saber apenas aquele rol de meia dúzia de coisinhas rasas que sei e continuar sendo açoitada pelos saberes – inúmeros, inesperados e de tipos tão variados com que me cercam as mulheres de minha vida? Hein?


Sobre as festas de dezembro, com pingos do que ficou e gotas do que virá


É quase dia de Natal. Mais dois ou três dias e um novo 24 de dezembro fará parte de nossas vidas. Mas não tem escapatória. É chegar dezembro e, desde o primeiro enfeite com que me deparo anunciando as festas, tropeço em alguma pedra esquecida numa esquina qualquer de minha vida, deixo-me tomar por alguma brasa pronta para virar fogo novamente e caio pra dentro de mim mesma, numa quase insuportável melancolia, se é que é esse o nome. Sem contar a minha história pessoal e a agonia que a agudização da desigualdade social ganha nestes tempos de festa, há ainda a sanha das compras, à qual nunca me adaptei e diante da qual me sinto um peixe fora d’água, ano após ano. Seja em que época for, só vou ao comércio por necessidades específicas e pontuais. Fora as de Buenos Aires, vitrines nunca me atraem. Aliás, lá naquele Porto, todo o comércio me seduz, das farmácias aos supermercados. Ali, sim, deixo-me levar por tal contradição, sem a ela oferecer a menor resistência, a tal ponto de só ir por aquelas bandas quando posso gastar sem remorso.

Sou daquelas pessoas que não sabe encontrar as tais boas oportunidades e fazer comprinhas que sirvam para presentear uns e outros, na hora oportuna. Comprar, só o necessário, e na hora da necessidade. Os filhos insistem em querer comprar coisas para mim e eu simplesmente me recuso. Não preciso de nada. Shoppings me dão falta de ar. Caminhar por dentro deles é sempre um martírio. Já não gosto de andar, ainda mais apreciando lojas... Em tempos em que se avolumam os compradores pelas lojas da cidade, como é o caso do tempo das “compras de Natal”, aí é que passo ao largo. Sinto-me estranha, sem dúvida, mas é como a coisa acontece. Todos às compras, e eu mais ainda em meu canto, onde faça ou não escuro para que eu, solitariamente, cante.


Neste dezembro de 2013, mais uma vez, me defronto com um tempo que me anuvia os olhos. Quem olhar nos meus olhos me vê. É o Natal se aproximar e eu me embotar, desfazendo-me em choros e amofinamentos. Nem as escrevinhações me aliviam. Ler tampouco. O desconforto vem e fica, insistente e tocante. Faltam pessoas e sobram saudades. Já é repetitivo e até sem graça: a cada dezembro, resta para mim, pela vida afora, vazios e estranhamentos, diante da intensa vontade de ficar quieta num canto. Só mesmo os amigos, teimosos a não mais poder, para romperem o bloqueio e me recolocarem de pé.


É isto mesmo: salvam-me as amizades. E é a elas que quero agradecer, nestes tempos de renovação de intenções e votos. No fundo de minha esquisitice natalina, tiro leite e outros tantos líquidos das pedras para voltar à superfície e só o consigo pela força dos amigos, à frente os dois filhos, desde que existem em minha vida. É quando penso em como as amizades me confortam, me acrescentam, me alegram, só aí, é que me brota um sorriso iluminando a minha face.


Que 2014 chegue com os bons amigos, uns juntos aos outros, cada um dando de si ao bem estar do outro, pela troca de afetos e pela entrega recíproca de boas intenções e gestos.


Vendo reduzida a utopia libertária imaginada para um futuro para todos, cassado pelo pragmatismo da política de hoje em dia, só me resta contar com cada amigo e cada amiga para dar sentido aos cruzamentos e paralelas que se avizinham, unindo-se num caminhar compartilhado.

Daí meu apelo: estejamos quanto mais pudermos juntos - compartilhando nossa diversidade, intensificando nosso companheirismo, recriando nossas aprendizagens! Quem sabe, assim, não  possamos até reaprender formas de tecer caminhos onde a dignidade se espalhe de maneira mais universal? E sem nos bastarmos com a facilidade do contato virtual. Queiramo-nos, cada vez mais, uns juntos dos outros. De pertinho mesmo, fazendo cruzar nossos olhares, tocando-nos com nossas mãos, repartindo o nosso pão do afeto.

A gente merece!  E como dizia Carlito Maia: sem deixar que as coisas aconteçam por acidente, mas fazendo tudo de propósito.

Boas festas! Com amigos por perto!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

"FIDIQUEM"?






Carmen e de quem era filha, João Pessanha
Esta era a pergunta mortal. Não há quem, nascido em Campos, lá pelos meados do século passado (Será assim ainda hoje?), não se lembre dela. Era só haver um novo amigo ou namorado a ser apresentado à família, que o indefectível fidiquem vinha certeiro, como incontestável instrumento separador de joios e trigos. Sim, porque se não se soubesse de quem era filho o candidato a entrar naquele novo terreno, toda a gama de preconceitos e temores era posta em ação contra o intruso que se pretendia digno de entrar naquela “nova morada”. Fosse filho de alguém conhecido, ótimo!, estava dada a senha para que a aceitação viesse pronta, assim como um simbólico cartão magnético capaz de abrir qualquer agência da instituição bancária da qual é correntista (Não deve ser à toa que o exemplo que me surge tem a ver com finanças...). Mas se o coitado não fosse filho de alguém conhecido, aí só o tempo diria se teria como adquirir o passaporte seguro para sua pretensão de ter direito a se chegar ao mundo dos que sabiam de antemão o poder de quem eram filhos. Na verdade, mais do que uma simples expressão típica do linguajar local, o fidiquem indicava um jeito extremamente conservador e segregacionista, indicado para manter “cada qual em seu lugar”, reduzindo as chances de uma interessante e democrática diversidade.

Lembranças da infância

O BAILADO DAS BALAS

Na esquina lá de casa com a Rua da Baronesa tinha uma venda onde eram vendidas balas de goiaba, umas balas duras como nenhuma outra e tão deliciosas a ponto de provocar esta viva rememoração. Sua cor era de goiaba mesmo, eram meio brilhosas, quadradinhas, esquisitas, diriam os argentinos...

Mas neste texto que brota sei lá de que rincão de minha história, a bala de goiaba entra mesmo só para anunciar o que virá, tal qual uma hipotética participação dos nossos Paralamas abrindo um show dos Rolling Stones, antes dos ingleses cantaram, para delírio geral, a sua histórica Satisfaction



Pois os Rolling Stones a que quero me referir aqui são o bailado que as habilidosas mãos do balconista da venda da esquina faziam para embrulhar as balas compradas pelas crianças da vizinhança.

O papel era acinzentado, rústico, meio manchado, até lembrando os reciclados de hoje em dia, e era puxado de um tipo de bobina serrilhada, grandona, postada atrás do balcão, de onde o artista puxava e cortava o pedaço que queria, maior ou menor, de acordo com a quantidade de balas a embrulhar.

Postas as balas no centro do papel[i], dava-se início ao bailado. Com ambas as mãos, como se fosse uma daquelas donas de casa argentinas processando suas rechonchudas empanadas, ele vinha dobrando as abas do papel, uma após outra, como uma empanada mesmo, até chegar ao último ato: era quando o moço, artista anônimo de minha esquina, de quem não me lembro a face, apenas o gesto, lançava o pequeno embrulho em volta dele mesmo, numa volta inteira pelo ar, firmando-o pelas últimas dobras já feitas, uma em cada mão. O resultado era um perfeito pacotinho de balas, com os dois “chifrinhos” enroscados, milagrosamente surgidos como seu derradeiro fecho. Era coisa de Terceiro Ato mesmo. Só que, para mim, ali o cisne sempre revivia, como se contássemos, como fundo musical, com o som da mais cristalina execução do eterno Tchaikovsky. Pura expressão de uma Arte singela, hoje viva apenas em minha memória.

A paixão que passei a ter pelo que são capazes de fazer as mãos humanas, com certeza, surge em grande medida daquele gesto – para o moço, tão corriqueiro –, e faz dele uma de suas mais nobres inspirações.





[i] Comentário de Rosinha – “E não eram só balas, também açúcar, farinha... eram embrulhados assim. Eu me lembro de abrir o pacote do açúcar e da farinha e ir misturando uma e outra, na própria mão, saboreando a mistura até chegar lá em casa.”

sábado, 9 de abril de 2011

E agora?


Escrito em 9 de abril de 2011.


                                                                                                                      
                                                                              “Enquanto não conseguirmos suprimir qualquer das
causas do desespero humano, não teremos o direito 
                                                                                    de tentar a supressão dos meios pelos quais o
 
homem tenta se livrar do desespero.” 

                                                                                    (Antonin Artaud, citado por Arthur Dapieve, 
                                                                               em 18/11/05, no Segundo Caderno, O GLOBO)


De nada adianta me lembrar do meu aluno que, há décadas atrás, fui visitar na prisão, junto com minha amiga, também professora, quando soube que ele havia sido preso por tráfico de drogas. Tampouco me alivia a lembrança da família dele, com a qual fomos estar em seguida, num subúrbio de Niterói, dando apoio e tentando ver do que precisavam naquela hora tão surpreendente em suas vidas... Havíamos saído do Conselho de Classe da escola em que trabalhávamos e o diretor havia se pronunciado, solenemente, sobre o drama da escola (não do menino), com a descoberta de seu envolvimento com drogas. Mas, ao contrário de nós, estupefatas diante de circunstância tão inusitada, ele, o diretor, estava tranquilo, o flagrante não fora dentro da escola, assim sendo, a instituição estava liberada de culpa.  Céus! Até hoje me causa náusea, mas era isso mesmo: o temor do “cidadão” era diante de algum respingo vir a macular a imagem da escola e ele, indicado para o cargo pelo político da ocasião, vir a perder os seus caramimguás, exígua gratificação a que tinha direito a cada final de mês.  

Presunçosa, me senti “a” educadora, diante daquele sujeito egoísta e pouco sensível. Mas, hoje, ante a tragédia, me olho de frente e não adianta: também sou cúmplice pela desgraça deflagrada pelo jovem das manchetes destes dias ter se tornado um assassino e matado outras tantas vítimas, além dele próprio, sob a fúria de sua arma de fogo. Os gritos que dera antes (Onde os terá dado? Quem os terá ouvido?) para aliviar o próprio sofrimento de vítima, nós, educadores, não os ouvimos. Simbolicamente eu também estive surda e alheia aos horrores pelos quais passou esse menino. Pura obra do acaso não ter sido um aluno meu, de carne e osso, quem veio a aterrorizar a todos nós, pela fatídica inauguração de um crime tão bárbaro, até ontem totalmente distanciado de nossa alardeada “índole pacífica” de brasileiros. Quem garante que não poderia ter sido de verdade um de meus alunos? Quem me assegura que algum deles não padece, talvez não de um mal tão devastador, mas de dores que o faz menos humano do que poderia e pode ser?

Pois o império também isso nos tirou, globalizando a monstruosidade. E eu não vi que tal tragédia se anunciava, silenciosa e célere.

Perdão, alunos meus, que sofreram sem que eu os tivesse ouvido e entendido! Voltei-me para outras franjas do cotidiano e não vi o seu olhar, não atentei para sua angústia, não ouvi o seu pedido de socorro. Pensei em Filosofia, pensei em Educação, e não me voltei para você, diante de mim, com sua vida a lhe rasgar o peito, fazendo- o infeliz à beira de uma mórbida necessidade de vingança. Afinal de contas (tento aqui me defender), a me corroer o peito, eu também vivia minhas próprias dores...

Fora da escola, bem que lutei junto a meus pares por melhores condições de ensino e por melhores salários. Pretendi ter menos alunos em turma, como forma de garantir uma maior atenção a cada qual e uma menos árdua tarefa de educar. Demonstrei meu inconformismo quando, no início de cada ano, minhas turmas tinham em torno de 50 alunos e a coordenação da escola, diante da minha ”grita”, me pedia calma, alegando que vários deles iriam desistir e a turma passaria a ter um número mais razoável de integrantes, naturalizando, covardemente a evasão escolar.

Mas, e daí? Nem isso nem escudar-me nos desmandos dos governos que se sucedem, cada vez mais retardando a oportunidade de virmos a ter a educação pública, democrática, de legítima qualidade social, laica e universal que é devida à população de nosso país não me tira o gosto de fel da boca nem tampouco as lágrimas renitentes do olhar.

O fato, para mim, é que três dias de luta é o mínimo. O máximo vamos ter que descobrir juntos.