domingo, 19 de junho de 2016





PONDO SOMBRAS PRA QUARAR

Quanto mais e vivo e estudo mais me convenço de que posso comparar com o conceito de 'sombra' os preconceitos que temos em nós. E sombras que nem necessitam de sol para se fazerem visíveis. Não hesito mesmo em dizer que o que somos extravasa nossas fronteiras internas e marca o nosso viver, expressando-se em tudo aquilo que vai de nós ao encontro do mundo e de seus circunstantes. E que, com os preconceitos, esse transbordar também se dá de maneira nítida. É bem verdade que nem sempre é inteiramente nítido para nós mesmos. Se o fosse, quem sabe, até, tentaríamos disfarçar aquilo que poderia vir a nos "deixar mal" perante o olhar exterior. Mas, seja na forma do que a Psicologia chama de "ato falho" ou mesmo na imaginada racionalidade com que julgamos poder cercar nossas ações, nosso ser – e, dentro dele, nossos sentimentos, valores e preconceitos (que é o ponto em que estou centrada nestas minhas ponderações) – “estamos” no que fazemos, no que dizemos, no que escrevemos. É isto mesmo: corpo e sombra, imagem refletida.
Essa introdução vem a propósito de uma postagem com a qual me defrontei ontem. Outras até, de caráter similar, já bateram à minha porta virtual de relação com o mundo. Mas foi a de ontem que tomou ares de assunto sério e me pôs a tecer conjecturas a respeito. 
Observemos a imagem sobre a qual falo, reproduzida aqui, lá em cima, para podermos melhor dialogar a respeito. Vejamos: nela, uma linda menina, portadora da síndrome de Down, bem cuidada e sorridente, é o assunto. Trata-se de uma campanha, onde seu autor, um adulto, falando como se fora a menina, anuncia seu nome, dizendo estar fazendo aniversário e, pior!, desafiando quem se vir diante de sua foto a parabenizá-la. 
A imagem e o texto que a acompanha provocaram em mim um estranhamento e me trouxeram algumas inquietações, tomada que fui por um forte desagrado diante do que vi: 
 1) por que aquilo? Qual o seu sentido? Criado com qual intenção?
   2) quem e por qual motivo colocaria a foto de uma criança – filha, sobrinha, aluna – no Facebook, falando em nome dela e  avisando que é seu aniversário? 
   3) por que e para que foi lançado e desafio induzindo as pessoas a parabenizarem a aniversariante?
     4)  por que a dúvida quanto ao fato de que as pessoas a parabenizariam ou não?
     5)O que tudo isso traz subjacente e que pode ser mais bem vasculhado?
   
   O que parecia certo era tratar-se de uma campanha de apoio aos portadores da Síndrome de Down, cuidando seus autores para que estes venham a ser aceitos socialmente. Certo também que seus autores partem do pressuposto de que há um preconceito contra os portadores da Síndrome e que uma campanha assim pode vir a combatê-lo.
     A expectativa de quem produziu a peça publicitária parecia ser a de que um certo incômodo viesse a ser por ela provocado e que talvez, em função disso,  surgisse um sentimento de piedade por parte de quem viesse a tomar contato com a peça, o que levaria a que, fosse quem fosse, por pena ou solidariedade, parabenizasse a linda menina. E, quem sabe?, isso seria um passo importante em direção ao alcance do objetivo da campanha.  Bem tratada a criança pelo leitor, sendo ela merecedora de receber muitos parabéns em sua data comemorativa anual, a campanha teria cumprido seu papel.  O mundo seria melhor, pois que cada qual teria cumprido o seu dever. Afinal de contas, todos poderiam comemorar – a menina, seus parentes, pais e amigos, em torno de sua festinha de aniversário – e o próprio leitor, que tornou-se autor de uma bela atitude, na medida em que tratou uma menina “diferente” como se fora um filho seu, sem nenhum preconceito.
     Bela intenção de quem criou o material. Não duvido disso. Mas, e o que mais? Ou, o que menos?
     Convido quem lê estas minhas observações a me acompanhar no seguinte trajeto de perquirições e buscas:
     Por que não haveria alguém das relações de Ana Lívia para parabenizá-la?
     O que pretendia quem expôs sua foto "pedindo" um gesto de caridade em relação a ela? Aliás, essa é uma das táticas recorrentes deste nosso mundo virtual – a de desafiar o leitor a ter alguma atitude, duvidando de que ele possa agir de uma determinada maneira. Pensam seus autores que, com isso, a pessoa se verá quase que na obrigação de cumprir o que se espera dele.


·      Se é aniversário da menina, ela deve ter pessoas que lhe querem bem e que lhe darão os parabéns. Ali, pertinho dela. Ela não aparenta ser uma criança mal cuidada, que vive só e em circunstâncias de abandono. Pelo contrário, é bonita e bem cuidada. Sua carinha é doce e demonstra que, se sabe emitir uma sensação tão meiga, deve receber meiguices que lhe ensinaram e lhe ensinam a ter esse jeitinho tão cativante. Ana Lívia parece ser uma criança feliz.   
     Por que deveria a menina receber parabéns de estranhos, de pessoas que nem conhece, com quem não tem o menor vínculo afetivo? Quase asseguro para ela o gesto de quem aceitasse o desafio posto não teria a menor graça.
·      Fico pensando com meus botões que quem está pedindo esta esmola para a menina pode até estar bem intencionado, mas está redondamente enganado. Não tem sentido ser pedido para pessoas estranhas darem os parabéns a Ana Lívia. Para ela, isso é nada ou quase nada. No mínimo, estranho. O seu irmão, seu coleguinha ou vizinho (não portadores da síndrome de Down) não recebem este tipo de afago artificial. Por que ela precisa desse estímulo para que a abracem e cumprimentem? Ela é diferente ou, dito mais claramente, é pior do que os demais?
·       Será que quem pensa assim e tomou tal iniciativa não deve estar imaginando que algumas pessoinhas como a menina são imerecedoras de carinho e precisam que alguém suplique em seu nome por alguma atenção?
      Aqui, retomo as ideias que expus inicialmente. O preconceito, a meu ver, está em quem criou este pedido de parabéns. Sem que o adulto que criou a campanha percebesse, o preconceito saiu de si e contaminou sua iniciativa. Quem precisa de ajuda, para mim, são essas pessoas que vêm a menininha como carente de carinho alheio. E que expõem a sua foto para uma campanha que lhe diminui como ser humano. Essas pessoas precisam aprender que não é assim. João é amado como ele é e recebe parabéns em seu aniversário. Lucia é amada como ela é e recebe parabéns em seu aniversário. Marina também. Pedro, Joana e as crianças quase todas. Só ficam de fora aquelas que estão sozinhas no mundo. Que não é o caso da nossa menina, ao que parece.
     Quando uma pessoa duvida que alguém possa vir a dar os parabéns, pelo fato da criança ter síndrome de Down, quem está sob suspeita quanto à maneira como vê a criança e as demais pessoinhas que têm essa síndrome, é o próprio sujeito que fez o desafio, totalmente preconceituoso e inadequado.
     Discordo, portanto, frontalmente desta campanha e peço que reconsiderem esta maldade, ao que parece, tão irrefletida, mas que pode trazer sequelas emocionais para quem nela está envolvido. E que em nada ajuda a que cada um de nós se veja inserido no mundo da diversidade e do respeito às diferenças; no mundo em que cada qual, todos, devemos buscar em nosso íntimo toda a carga que veio nos tornando o que somos. 
     Que nos reeduquemos para combater o bom combate de respeitarmos, com gestos vigorosos, nossas porções menores, acumpliciadas com toda a carga de preconceitos que vigem contra todo e qualquer elemento que fuja ao que uma determinada elite define como bom, normal, eficiente, capaz e exitoso!


                  GATO ESCONDIDO COM RABO DE FORA
19/06/2016



Continuo estarrecida, e cada dia mais. Penso, penso, penso e não encontro resposta. Veja bem:
Não havia um movimento pela moralização, pelo combate amplo, geral e irrestrito à corrupção? Pois bem, o que tivemos até agora foi o afastamento temporário da presidente Dilma sendo, o atual período, o do governo provisório, o mais terrível quanto a escândalos e mais escândalos vindo à tona envolvendo um número incalculável de políticos e partidos, sem que haja NENHUMA delação em relação à nossa presidente. Eu, então, me aflijo e indago: por que as pessoas estão em silêncio?
A impressão que fica é a de que tudo não passava de um faz de conta e que o que se queria de fato era apenas arrancar o poder das mãos da presidente e do seu partido. Não sou petista, tenho severas críticas às práticas do PT, mas respeito e admiro a presidente, não só por ter sido eleita mas também por ser a mulher que é, corajosa e digna. Além do mais, com a mania de sempre comparar políticas para decidir, não tenho dúvidas de que o que o PT fez no governo é bem mais favorável à parcela mais sofrida da população brasileira do que os demais governos.
Eu quero respeitar os que são contra a presidente e não consigo.
O faz de conta me impede. O que percebo é que, sob a aparência de combate à corrupção, está escondida a verdadeira causa do movimento que antecedeu a abertura do processo de impeachment, ou seja, a franca rejeição ao governo do PT.
Se as pessoas fossem sinceras e dissessem que bastaria o PT perder o poder e já estaria alcançada a meta pela qual lutavam e batiam panelas, eu entenderia o motivo de estarem todos silenciosos e concordantes com o governico Temer. Fora isso, não há explicação, é puro disfarce. Aí eu não posso aceitar, nem que eu queira...

sexta-feira, 10 de junho de 2016


DELÍCIAS DE SE ESTAR JUNTO

 

As tais das redes sociais não fogem à regra, têm lá seus inúmeros méritos e têm cá sua problemática a ser enfrentada com disposição e afinco. Abrem a possibilidade de diálogos infindáveis, ampliam a abertura a informações, muito além das que nos chegam pela mídia tradicional e, quase sempre, vesga, ao mesmo tempo que, por suas próprias qualidades, exige de cada um de nós trabalho, pesquisa, reinterpretações... O risco é o de sempre: a ficarmos na periferia, corremos o risco de acreditarmos e até viralizarmos equívocos, meias verdades, até mentiras inteiras mesmo. Aqui é questão de nos defrontarmos corajosamente com o nosso potencial de AUTORES. Como em relação ao que publicam os jornais e as TVs, o que lemos aqui carece de trabalho de checagem de nossa parte. O bom, o ótimo é que, quase sempre, as versões estão mais à mão, cabendo-nos desconstruir e reconstruir o que foi dito e demonstrado. São as redes estimulando nossa AUTORIA, o que nos coloca, a cada um, como não assujeitados ao que vem de fora. Quem sabe, como saudável efeito colateral desse processo, não conseguimos olhar o OUTRO, neste OUTRO incluídas nossas crianças e jovens, como capazes de também serem coconstrutores de saberes e conhecimentos a respeito de leituras e da vida?

Mas não era esse o assunto, em sentido estrito. Tudo começou com a foto das pranchas, com a qual me defrontei, cedinho, colhida do acervo de dr. Decio, pelas mãos de Norinha, sua filha Eleonora Cretton, que encontrei no grupo Lembranças de Atafona.

Como me lembro!

Essas pranchas, por morar na Beira Rio, eram vistas por nós, cotidianamente. E sobre os armazéns, era isso mesmo, na rua dos Andradas, que tinha início ali mesmo no Porto da Banca (acho que o nome era esse) ficava o armazém de papai, que era atacadista.Essas fotos são preciosas. É uma dádiva termos em nosso grupo quem se dispõe a partilhar suas memórias para a alegria de todos. O que temos na memória, fica vivo, nítido, observável, vamos dizer assim...É como se tivéssemos ideias sobre coisas, fragmentos de vivências, e as fotos surgissem para nos "dar razão", para testemunhar o que tínhamos conosco, escondido, resguardado, individualizado. Muito bom! E que tem a ver com o início desta minha conversa, lá em cima. O Facebook já teria seus méritos próprios por abrir outras fontes. Mas, é quando tomamos para nós a tarefa - prazerosa e agregadora - de informar, que animamo-nos mutuamente a sermos construtores de um novo olhar sobre nossa própria trajetória de vida.

E viva nós, fazedores e refazedores de caminhos! Coautores de sentidos, individuais e coletivos.

segunda-feira, 6 de junho de 2016


cRIANÇAS PEQUENAS BRASILEIRAS...
... quem mesmo?
(algumas suposições)
Primavera, quase verão, de 2015


Por Carmen Lucia Pessanha[1]


Há  cerca  de  um  ano, tive  a oportunidade  de  ler   considerável  número   de 5 mil    pequenos textos de crianças brasileiras, por força de  uma atividade profissional  que envolvia  avaliação de sua capacidade de escrita.  A tarefa restringia-se a, diante de determinados critérios pré-estabelecidos pela coordenação geral do projeto, verificar o nível de letramento da criançada, criançada esta que frequentava, na  ocasião, classes   de até o terceiro  ano do Ensino Fundamental de  escolas públicas  espalhadas  por todo o território nacional.
De minha parte, no entanto, para além da classificação individual de cada alfabetizando ante os parâmetros estabelecidos, à medida que fui fazendo a leitura, deixei-me seduzir pelo que diziam os pequenos e, por minha própria conta e risco (e interesse e imaginação e compromisso...), fui montando um anedotário[2] daquilo que se mostrava mais visível, constante, marcante no que expressavam, ao produzir seus escritos. Mas não só isso. O diferente e o inusitado também foram registrados, de modo a que eu pudesse, ao final, ter uma visão, a mais ampla possível, do que traduziam aquelas falas (e por suposto, do que mostravam pensar e sentir aquelas crianças): o que lhes era comum, o que entre elas parecia ser mais raro, coisas assim...
A minha larga experiência como educadora me dizia, a cada momento – o que se acentuava mais e mais à medida que efetuava a leitura – que eu estava diante de um material precioso – capaz de fornecer indicações de como vêm se constituindo as nossas crianças em seus primeiros passos quanto a seus jeitos de pensar e agir. Ou do que andam lhes ensinando e que elas guardam para si como entendimento que vão começando a construir a respeito do mundo e de suas gentes. Ou um tanto das duas coisas. Ou o que fosse. Valia conferir, pensei.
A proposta a que as crianças foram submetidas foi a de que escrevessem uma breve história em torno de um personagem frequente no imaginário infantil – a bruxa. Mas tratava-se de uma bruxa na contramão de seu tradicional perfil, pois que era uma bruxa capaz de empreender boas ações. Desse modo, o enredo a ser criado, além de trazer uma contradição a ser enfrentada, de saída, pelas crianças (uma bruxa “fora da ordem”), envolvia valores como bondade e maldade, certo e errado, o que deveria dar margem a que falassem de si, de suas crenças, daquilo em que acreditavam, da “sua bruxa boa” em sua própria vida, entendimento e vontade.
O fato é que as crianças mostraram muitos dizeres comuns, a ponto de irem me conduzindo, levando-me a crer ser o caso mesmo de reunir as suas falas e, por seu intermédio, traçar um esboço acerca do que seus escritos indicavam como possibilidades. Até porque, pensamento e linguagem são entrelaçados e a escrita existe de modo a trazer à luz o pensamento de seu autor. O quadro que, gradativamente, se foi formando era o de que havia uma destacada parecença entre o que as crianças diziam; uma linha de identidade que parecia lhes aproximar como um grupo com determinadas homogeneidades em termos de crenças, desejos, entendimentos, concepções, valores... E, se assim parecia, seria preciso confirmar, reunir informações e utilizar os resultados da análise como material a ser estudado por nós, professores, em nossa condição de fazedores da educação em nosso país.
A propósito e a título de ilustração, quanto ao vínculo indissociável entre pensamento e linguagem, destaco aqui que, dentre tantos textos que li mas de que não me ocupei em registrar, creio ter sido bem o caso das redações destas duas crianças sobre as quais passo a falar. Da primeira que, ao criar a história na qual havia dois personagens – a bruxa e um menino – anotei os seguintes fragmentos:
·         “ela ficou amiga de um são paulino”;
·         “foram ver o jogo do São Paulo na casa dela”;
·         “o menino ganhou uma camisa do São Paulo”;
·         “o São Paulo ganhou de 1X0”;
·         “depois conversaram sobre o São Paulo”;
·         “depois comeram e foram dormir”.
Praticamente sem medo de errar, durante a leitura, cheguei a dar como certo que estava diante de um mais que fiel torcedor do São Paulo, já que quem escreve costuma estar inteirinho naquilo que põe no papel.
A segunda criança, também dando-se a conhecer por meio de suas palavras, colocou como boa ação de sua bruxa a de que ela fez duas mágicas, a de que as mães não batessem nas filhas e a de que os homens não se machucassem enquanto trabalhavam. Terei exagerado em minha percepção ao ver muita vida por trás de tais desejos? Um possível cotidiano encharcando aquela vontade?
Quero dizer com tais exemplos que entendo ser bastante possível termos uma ideia aproximada do que pensam nossas crianças por meio do que dizem. E, sendo assim, julgo ter significativo valor o presente material, devendo ser estudado por quem trabalha com formação de professores, sejam profissionais atuantes na própria educação infantil ou nas séries iniciais do Ensino Fundamental, sejam dos demais níveis da Educação escolar, inclusive no âmbito da formação acadêmica na Universidade. E, por que não?, pelas famílias.
A compreensão de que a prática pode e deve ser vivida, observada, registrada e analisada para poder gerar mudanças é uma das funções primordiais de quem pesquisa e tem compromisso com a mudança. Trata-se de uma maneira de viver na qual a reflexão sobre a prática é um método de aperfeiçoar o vivido e torná-lo mais próximo daquilo que se tem por norte. Por isso, não me furtei e fui deixando-me levar pela sedução exercida fortemente pelos milhares de textos lidos.
Quanto a esse percurso, é fundamental insistir em que, ao iniciar o trabalho, não estava imbuída de nenhuma “segunda intenção”, por mais que o meu olhar de pesquisadora estivesse – e esteja – incorporado ao meu cotidiano e à minha forma de viver – e trabalhar –, seja em que âmbito for. Foi o próprio trabalho que, em seu desenrolar, “tomou a iniciativa” de me convidar ao diálogo. Foram as crianças e seus ditos que foram gerando o movimento para o estudo cujos resultados aqui relato. De minha parte, apenas respondi ao apelo. Assim é que, do que eu lia, é que foram surgindo algumas questões:
·         Como foi visto o fato inusitado de uma bruxa ser boa?
·         De acordo com o que disseram, o que é ser bom para as crianças?
·         A meninada mostrou indícios práticos do que seja ser bom?
·         Há ideias que apareceram como tendência naquilo que expuseram?
·         Há alguma marca feminina no que foi dito?
·         E a presença de ideias incomuns, existe?
Tratando-se, como estou a dizer, de um trabalho que nasceu sem planejamento prévio, o presente estudo não se fez com base em nenhuma literatura especialmente selecionada, revista e consubstanciada para respaldar as análises feitas. Nenhum material teórico foi recolhido especificamente para, com base em suas proposições, categorias e conceitos, servir de parâmetro para aguçar meu olhar numa ou noutra direção na minha relação com o material de estudo. Ocorre-me aqui uma historinha que conheço. Pelo que me lembre, era mais ou menos esta: uma funcionária recebeu uma incumbência e, dando-a por concluída, foi entregá-la a seu chefe. Este, surpreso pela rapidez com a qual a tarefa foi cumprida, duvidou da qualidade da atividade recém encerrada e a questionou: “Já? Quanto tempo levou para concluir a tarefa? Pouco tempo, não? Ao que ela respondeu, com tranquilidade: “Pouco tempo, não, senhor, gastei a vida inteira para conseguir terminá-lo. Aparentemente, fica a sensação de tê-lo aprontado bem rápido, mas não é o caso, nem de longe. Com tudo que fui aprendendo e estudando pela vida afora é que consegui dar conta da tarefa agora terminada sem utilizar grande volume de meu tempo neste instante. A minha capacidade veio sendo feita, aos poucos, ao longo da vida inteira”
É exatamente o meu caso quanto teço considerações sobre o que li. O que acumulei, fiz e refiz em estudos anteriores, em experiências anteriores, em momentos os mais diversos, também anteriores, esteve dentro de mim, todo o tempo, direcionando meu modo de ver, perceber e entender.
Na verdade, minhas anotações adormeceram por aqui, em minha máquina, bem quietas, em estado de espera, sem que eu lhes desse a devida atenção durante todo o ano. Vez por outra pensava estar na hora de escrever a respeito. Mas outras urgências se apresentavam e as expulsavam de meu caminho, até uns poucos dias atrás. Pois agora, antes de concluir o ano de 2015, como que a limpar gavetas e me aprumar para o novo ano que está por vir, reencontrei meu “anedotário”, prontinho, me chamando para ser estudado e tornada pública minha análise a seu respeito. Sentei e escrevi. E estou muito feliz por ter pensado e escrito o que pensei e escrevi.
E aqui está um certo jeito de uma certa professora ler o que disseram certas crianças, muitas, muitas, muitas mesmo, de suas vidas em torno de uma bruxa e de muitos sentimentos, desejos, expectativas e frustrações. Delas e minhas. Até porque, a lógica de haver uma relação dialética entre o que se escreve e o que se pensa e sente não é exclusividade dos meninos e meninas de quem li histórias. A eles devo, inclusive – e com ênfase –, agradecer pela chance de me colocarem diante de mim mesma e, estimulada por suas falas, rever e expor minhas sensações e  entendimento sobre tudo que li. Eles inteiros no que disseram, eu inteira no que digo aqui. De um lado e de outro, vozes que se entrecruzam, formando-se sujeitos pela força de um diálogo surgido da  inteireza da mútua interveniência.
Agora, é a vez do leitor, o terceiro vértice deste triângulo em relação de entrega. À leitura, pois, amigos! E às trocas, por favor!
Carmen

 1.                           A bondade
Os nossos escritores levaram adiante a tarefa de terem diante de si uma bruxa boa e sobre ela escreverem alguma aventura que desse conta das conjecturas que fizeram a seu respeito. Em minha leitura, nenhum estranhamento foi notado quanto à fuga à “ordem natural das coisas”. A julgar pelos escritos e pela maneira como os li, ninguém estranhou o fato de as bruxas serem boas. Tomei-me de alegria ao perceber que o insólito pode ter lugar e que o espírito infantil – daquele numeroso grupo – está preparado para recebê-lo sem questionamentos. Ao que parece, para aqueles pequenos autores, não há um estrito nem estreito jeito para se existir. A diversidade parece ter lugar para florescer ou elas, as crianças, ainda não estão contaminadas por fórmulas restritivas e uniformes do que é ser bruxa. Pelo que eu, ampliando minha análise, imagino também valer para meninos e meninas, homens e mulheres, formigas, elefantes ou coelhos. Até mesmo jibóias – sejam elas vegetais ou animais.
Em acréscimo, devo dizer ainda que, do ponto de vista de quem vê o mundo em suas contradições, foi emocionante encontrar uma criança cuja bruxa, que “sempre, sempre era boa, um dia fez uma maldade”. Bruxas, então, não só podem fugir à regra e serem boas, como também podem ser boas sem eliminarem por completo a sua capacidade de colocarem em prática uma certa maldade, vez por outra. Mesmo que tenha sido por uma voz dissonante, havia ali alguém que não separa o joio do trigo em grupos diferentes, alguns bons, outros maus, mas os humaniza, compondo-os com doses de uma coisa e outra.
Mas vamos às bondades das bruxas...
Nem sempre o concreto – O primeiro ponto que quero enfatizar é o de que nem sempre as bondades da protagonista das histórias são detalhadas. Em percentuais bem similares, o grupo se divide entre: a) aqueles que não explicitam de que maneira a bruxa demonstra ser boa; e b) aqueles outros que o fazem, contando alguns detalhes de suas bondades. Muitas crianças falam apenas do quanto a bruxa é boa; do quanto é ótima; do quanto é bonita; do tanto que é boazinha; ou do tanto que é maravilhosa; sem detalhar a forma de ela concretizar suas boas ações. A bruxa tem a qualidade da bondade e ponto final, já está descrita suficientemente a sua forma de ser boa, sem se dizer a forma de tal bondade ser posta em vida vivida.
A bondade em atos – Quando descrevem a bondade de suas bruxas, as crianças têm um discurso bastante homogêneo. A bruxa das nossas crianças mostrava-se milagreira, fazia de tudo, desde “quando via alguém triste, colocar a felicidade em nós”; até “transformar notas ruins em notas boas e ficar amiga da criança para sempre”; e ter feito “esta prova legal pra gente aqui da sala”. A se registrar, no entanto, como tendência mais que notada, majoritária, persistente, é a de que ser bruxa boa é ser bruxa que dá presentes. Bruxa boa presenteia – essa é a regra geral. E o presente mais presente, o mais falado são doces, muitas balas e, em destaque, chocolates.

A pensar... – A forma concreta que adquire a bondade da bruxa me parece preocupante e digna de ser estudada por todos nós, educadores. Ser bom é dar coisas. Vale pensarmos: ser bom é dar coisas? Ser bom pode ser restringido a uma ação inteiramente vinculada ao mundo do consumo, ao mundo do que é material? Dar de si –  de sua criatividade, de seu tempo, de  seu próprio trabalho – não apareceu em nenhuma redação. Fora o tempo gasto por algumas bruxas quando faziam seus milagres, a prática da generosidade se esgotava em dar a alguém alguma coisa que se comprou em algum estabelecimento comercial. A relação entre quem é bom e quem recebe o ato bondoso passa necessariamente por um terceiro que faz a mediação entre eles, vendendo um objeto material que cumprirá o seu papel de ser expressão de um ato de bondade. E pior: como andam as nossas noções de saúde e de adequação alimentar? Ser bom é fornecer alimentos carregados de açúcar às nossas crianças? E desde tão pequenas, formando-lhes hábitos contrários a uma alimentação saudável? Mais do que preocupante num mundo em que a saúde depende em grande medida do que é consumido como alimento.
2.                         As idealizações
O sonho – Uma visão romantizada da vida perece ser a mais comum entre nossos pequenos autores. É quase unânime o final das histórias com a expressão “foram felizes para sempre”. Fosse quem fosse – bruxa e menino, bruxa e bicho, bruxa e outras bruxas, bruxa e bruxo, bruxa e família, bruxa e vizinhos... – mais cedo ou mais tarde, por mais que tivessem passado pelas mais diversas peripécias, por mais que o desenrolar da história houvesse trazido antagonismos entre os personagens, o final quase sempre era um só – todos os personagens irmanados numa paz definitiva, na felicidade enfim alcançada, na superação de sofrimentos, fossem eles quais fossem. Ser feliz para sempre é a ordem geral do enredo, é o final prospectado e realizado, a qualquer custo.  Mesmo “a menina que não gostou da bruxa, no final fez as pazes e foram felizes para sempre”. Mesmo para “a bruxa que sofreu com as maldades de suas irmãs bruxas”. Mesmo para “a bruxa que se vingou do menino que a maltratou muito”.
A pensar... – Ao que parece, para nossas crianças, ainda tão iniciantes em sua vida, a vida é como um trajeto que, em algum momento, traz a felicidade ao encontro de cada um. O processo do viver não é, ao que parece, um misto, bem misturado, de momentos que contêm amarguras e também alegrias. A imagem que me permito fazer é de que, para elas, já começa a se ensaiar a vida como uma linha reta onde um milagre, mais cedo ou mais tarde, acontecerá e a transformará. Por mais inverossímil que possa parecer, algum milagre chega – mais cedo ou mais tarde – e transforma o curso da história, trazendo a paz e a união. E um milagre vindo de fora, de alguém que não seja o próprio sujeito. Não parece haver esforço por parte de quem vive “a história” para que as situações evoluam e se transformem. Será ainda, para as meninas, quando feitas mulheres, o príncipe encantado? E para os meninos, o que será?  
Fico a imaginar que talvez esteja aí, tão cedo, iniciando-se uma ilusão que, mais cedo ou mais tarde, será descoberta em sua impossibilidade, transformando a esperança em descrença e desilusão.  A vida vai sendo encaminhada de uma maneira tal que ao futuro cabe trazer o que fará cada qual feliz – um bom trabalho, o sucesso financeiro, a realização profissional, o encontro de um grande amor... O sonho sendo colocado em substituição à realidade, realidade que é construída, queiramos ou não mediante nosso próprio esforço e que não pode ser confundida com um estado definitivo de bem-estar, mas que traz conflitos, dúvidas, alegrias, num movimento incessante. E movimento este que agrega, reúne, articula nossas questões individuais e aquilo que nos rodeia, seja em Sergipe, na esquina de casa ou em Beiruti. Somos a integração de nossa individualidade com o social que também e indissociavelmente nos compõe.  Tom já nos ensinou que “é impossível ser feliz sozinho”, o que para mim, mais até do que um entendimento romantizado de sua lição, envolvendo apenas um par de amantes, é tido e havido como a impossibilidade de cada um ser feliz sem a dimensão da Humanidade inteira dentro de si. O outro mora dentro de nós, seja ele um jovem terrorista ou suas vítimas, o menino negro assassinado pela polícia, o político corrupto ou o herói nacional.
Importantíssimo ressaltar, no entanto, e a me fazer crer que nada é definitivo e de um jeito só, sempre, é o que pude ler em dois textos nos quais as crianças afirmavam simplesmente que os personagens “assim viveram”, sem o “para sempre” a concluir com ar definitivo as suas historinhas. É verdade que pouquíssimos demonstraram não viver sob o predomínio de uma visão idealizada, mas, de todo modo, ela se fez presente e nos confirma que, por menor que seja, há sempre uma dimensão questionadora, revolucionária mesmo, ainda que em estágio embrionário ou incipiente no conjunto das coisas do mundo real, como vistas pelos nossos infantes.

3.                         Os valores
Na vida, desde que se nasce, aprende-se. Contrariamente a uma visão puramente inatista ou ambientalista, o conhecimento se faz pela interação do sujeito com o seu meio. Na perspectiva de que há uma viva relação entre o sujeito e o objeto do conhecimento, ambos, sujeito e objeto, têm esta característica em comum: ambos são situados e datados. E, na escola, desde quando as crianças começam a frequentar as turmas de Educação Infantil, vão incorporando valores, costumes, maneiras de ser e de se expressar. Importa, pois, saber o que andam as crianças expondo de si próprias, de tal maneira que possam ser detectados sistemas de valores que confirmem ou sigam na contramão de uma postura humanizada e humanizante.
Bem sabemos que o capitalismo é intrinsecamente impeditivo da universalização da dignidade humana, promovendo a miséria e a ausência ou precariedade de direitos para a maioria da população e que, em seu contexto, a escola tende a repetir a lógica perversa da sociedade em que se insere.
É bem verdade que existem educadores comprometidos, em maior ou menos grau, com a transformação dessa sociedade numa sociedade justa e humanizada, mesmo que essa intenção não seja sentida e muito menos proclamada pela maioria, nem dentro nem fora da escola. Assim, mesmo não sendo a escola, por si só, a instituição desencadeadora do processo de humanização do Homem, ela pode criar algumas formas possíveis de intervenção nessa direção.
Cada escola contém elementos contraditórios, forças, mesmo que pouco nítidas, que se opõem, elementos arcaicos e avançados, desejos amortecidos, desejos de mudança, desejos de permanência, desejos nem descobertos... A instituição “pura”, que alguns podem idealizar, com os seus profissionais harmonicamente seduzidos por uma mesma ideia motriz, a de humanizar o homem de que falamos, só existe no desejo de alguns que têm tal intenção, mediante sua ação pedagógica.  Na vida mesma não há espaço para tal pureza de intenções, sem nenhuma força que a ela se oponha ou, no mínimo, que a ela atribua outras tonalidades, mais e menos fortes.

A pensar...
Assim entendendo, pelo menos dois valores merecem ser repensados a partir do que disseram as nossas crianças escritoras:

·         A posição econômica (ser rica) como forma de bem existir (e até se impor e/ou vingar) – Assim disse uma criança ao retratar o que falou uma bruxinha para se vingar das outras bruxas que queriam continuar a ser más: “Moro num prédio lindo, sou rica e famosa. Fiquem aí, suas chatas, perdedoras...”[3]
·         Um possível preconceito contra a velhice – “Uma bruxinha era boa, mas foi envelhecendo e aí foi ficando má”.  De minha parte, não consegui deixar de ver um sorriso em minha face recebendo esse veredicto infantil.  Ou seja: além das dores (físicas) que chegam junto com o envelhecimento, ainda há a possibilidade de nossa porção mazinha se agigantar dentro de nós? Seria trágico se não fosse cômico...[4]

4.                         A religião
A julgar pelo que pude ler e constatar, é surpreendente a ausência quase que generalizada de elementos religiosos nas falas das crianças. Religiosos, melhor dito, em sentido estrito, pois que, pode ser que exista a presença de elementos seculares mas tratados religiosamente, sem a devida compreensão, mas seguidos “com fé”. Mas ritos, crenças, dogmas, que pudessem compor o ideário de alguma Igreja, o seu conjunto de pensares e práticas, não foram utilizados pelas crianças em suas narrativas.  Apenas uma criança falou diretamente de Religião; e uma outra me fez lembrar de uma atitude bastante comum no catolicismo, mesmo não tendo falado diretamente dele.
A pensar... – Mesmo que de maneira extremamente reduzida, tanto o conteúdo que indica a presença do catolicismo quanto o que da religião evangélica – presentes no que as crianças disseram – sob o meu ponto de vista, nos deve levar a refletir:
·         Uma criança criou a sua bruxa de um jeito em que ela ficou rica para poder dar dinheiro aos pobres. Ou seja, bem fiel à lógica do catolicismo, a bruxa passaria a exercer a caridade, distribuindo parte de sua própria riqueza. Pobres continuariam pobres e ela seria aquinhoada com o bem-estar que “a riqueza” traz e poderia ser boa, generosa, fazendo o bem para quem escolhesse. A desigualdade permanece, apenas com uma pessoa eleita para distribuir o que lhe aprouvesse para os demais.
·         Houve também a presença de uma bruxinha evangélica. Como prova de seu arrependimento pelas maldades feitas até ali, ela “leria a bíblia todos os dias e, também diariamente, passou a orar na igreja”. Como orar sempre aparece como fala típica dos evangélicos, diferentemente dos católicos que sempre preferem a palavra rezar, fiquei a supor que essa criança vive num ambiente de evangélicos, no qual a leitura da bíblia é por demais valorizada.


5.                         Algo a mais...
O caráter surpreendente das crianças pôde ser vivido por mim com intensidade, entusiasmo e gratidão. Uma alegria tomar contato com o que expunham de si e de suas vidas, desde aqueles que escreviam incansavelmente, tomando todos os espaços do papel como que a demonstrar que tinham muito a dizer; até aquelas que pareciam estar ocas de palavras, quase deixando o papel todo em branco, mas que, de repente surpreendiam chamando, por exemplo, aranha de aracnídeo; ou umas outras tantas que, sem escrever nenhuma palavra com sentido já conhecido pelo leitor, apenas rabiscos de todo o tipo, insistiam em nos fazer acreditar em que entendiam, que percebiam, que existiam e queriam ser ouvidas por meio de sua inexpressiva expressão ou (como julgo mais fiel ao fato), de sua mais que expressiva expressão de uma sua ainda impossibilidade de se expressar – fosse para falar de bruxas, de cadernos, do sol, da chuva ou de sua cidadania ainda tão precariamente em construção, e não por sua própria responsabilidade.
Talvez a mais emocionante e doída fala que pude ler foi a de uma criança que esperava que “a bruxa fizesse a mágica dela aprender a ler”. Já uma das mais animadoras foi a de uma menina que simplesmente escreveu EU NÃO SEI, demonstrando coragem, possibilidade de se expor sem riscos, sinceridade no trato com um problema que se apresentava ali para ela resolver com seus parcos recursos – o de escrever uma história. Não se fez de rogada, não saiu pela tangente, não dissimulou, apenas disse de seu momento naquele instante. Para mim, deu-me a impressão de ser uma pessoinha que começa a saber de si e ensaia um trato com as questões da vida sem grandes temores. Aquela atitude sã de quem mira o outro de uma mesma altura. Olhares parelhos. Dando início ao enfrentamento da situação, anunciando tão simplesmente o seu julgamento,  pareceu-me demonstrar uma forma de quem começa a trilhar um bom caminho para viver a vida onde muitas vezes, nós, mesmo já adultos, precisamos de um tempo para saber qual o próximo passo a dar para seguir em frente de um modo menos sombrio, mais humano, mais justo e feliz.

REFERÊNCIAS 
(durante toda a vida, as mais fiéis)

ABRAMO, Perseu. Padrões de manipulação na grande imprensa. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1a. reimpressão. 2003.
BAKHTIN, M.M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1992b.

CARDOSO, Miriam Limoeiro. A periodização e a Ciência da História. 1977. mimeografado.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Editora Ática. São Paulo, 1994.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler (34ª edição). São Paulo: Cortez Editora, 1997.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal Ltda, 1979.

FRIGOTTO. Gaudêncio. A produtividade da escola improdutiva. São Paulo. Cortez
Editora e Editora Autores Associados.1986.Civilização Brasileira, 1981.

GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura.Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1968.
KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro. Editora Paz e terra Ltda., 1985.
LOZZA, Carmen. Escritos sobre jornal e educação.olhares de longe e de perto. São Paulo: Global Editora, 2009.
ORLANDI, Eni Pulcinelli. Discurso e leitura (3ª edição). São Paulo: Cortez Editora, 1996.
PESSANHA, José Américo. Filosofia e Modernidade: racionalidade, Imaginação e ética. Cadernos ANPED. Porto Alegre. 1993 (4): 7-36, 1993






[1] Pedagoga, mestra em Educação, professora aposentada da Universidade Federal Fluminense (Faculdade de Educação) e da Rede de Ensino do Estado do Rio de Janeiro. Acadêmica e literariamente também conhecida como Carmen Lozza. E-mail: clozza@uol.com.br
[2] Termo típico dos tempos do escolanovismo, que significa a reunião de pequenos e objetivos registros sobre a vida escolar dos alunos. Aqui, no nosso caso, o utilizo como o conjunto das expressões utilizadas pelas crianças em seus escritos.
[3] Fazer Ciência não é se descolar do humor. Tal fala me pareceu a própria Senhora dos Absurdos, do ator     Paulo Gustavo.
[4] Outra historinha que me fez rir foi a de uma criança que falou de uma bruxa que recebeu o beijo de um bruxo muito feio. “O bruxo feio veio a beijou a bruxinha. Ela viveu de novo e foram felizes para sempre”. Ou seja, o “mercado” está tão ruim para as mulheres que até um bruxo – e feio – a acorda para a felicidade.

domingo, 5 de junho de 2016

FIM DE UM CICLO E UMA MEA CULPA
(reflexões de uma tarde fria)
Carmen Lucia Pessanha
A DIALÉTICA DA VIDA
É quase como uma história da Carochinha. Dá até para começar de jeito idêntico. E eu começo, atendendo à inspiração que determina que assim seja. Pois, vou lá...
 Era uma vez uma professora que trabalhava numa perspectiva de sempre tentar perceber os vários ângulos de uma mesma questão. As coisas, pessoas, circunstâncias, para ela, sempre podiam ser percebidas de várias perspectivas, muito mais até do que pelos dois costumeiros lados como costuma-se dizer por aí... Se “isto” era marcantemente propiciador de preconceitos, também poderia deixar margem para uma beirada de pensamento crítico. Se “aquilo” era sempre cinza amarguento, nem que fosse num diazinho de nada deixava-se iluminar por alguns segundos, colocando para correr o seu acinzentado habitual... Se “Fulano” eram mau que nem um picapau, podia-se ter certeza de que ou era um exímio cozinheiro ou um filho extremado com a mãe idosa.... Era assim a coisa: bastava alguma situação se apresentar de uma maneira, que ela, já quase por vício – e esse era o problema – tratava de lhe dar a volta e examiná-la de outro ponto de vista.
Deixando-se trair por essas suas lentes dialéticas de perceber as coisas do mundo, a professora, hoje vê, até mesmo deixou-levar por um movimento de “caçar” contrários, ampliando determinadas dimensões de uma situação, quando se deparava com o seu oposto. Assim: a escola está caótica e autoritariamente posta em funcionamento? A direção é conservadora? Os professores não têm espaço para se reunir? Os alunos estão sem voz? O grêmio está impedido de se instalar? Ah, mas existe umazinha professora de História que faz um bom trabalho e que pode reverter este clima antidemocrático e rígido.  Uma verdadeira “caçada ao tesouro da contradição” que haveria de ser encontrada.
A postura perquiridora da mestra se exercitava a tal ponto que, antes mesmo de se dispor a investigar mais a fundo os vários ângulos de uma dada situação – a tendência posta em prática e que se evidenciava ali, na frente de seu nariz (e entendimento) –, por fidelidade ao “método”, a professora saía em busca de algum aspecto que contrariasse a tendência geral.  Era como que (também só hoje ela vê), pelo temor de se prender à aparência dos fatos (“o marido é mau”, “a escola é determinada por suas circunstâncias”, “o assassino é frio”, “a mulher é submissa”, etc.), obrigatoriamente, tivesse que encontrar um outro lado que reduzisse o caráter absoluto da aparência inicial e encobridora do que lhe vai por dentro.

A QUESTÃO DA IMPRENSA
Por filiação a tal perspectiva epistemológica, lá pela década de 1990, ao estudar que se vinha dando cada vez mais intensamente a presença de jornais nas escolas, a professora identificou o seguinte:
a)    naquele momento da educação brasileira, havia uma tendência bastante marcante de que a escola considerasse o cotidiano das crianças para, a partir dele, propor e desenvolver o conteúdo programático, abandonando a maneira tradicional de “passar o conteúdo” sem considerar o contexto do aluno;
b)    cada vez mais havia programas bancados pelas empresas jornalísticas que incentivavam e financiavam a presença de jornais nas escolas, preocupadas em garantir seus negócios no futuro, criando desde cedo, potenciais leitores de jornais;
c)     de maneira equivocada e perniciosa a uma educação crítica e de qualidade, muitas autoridades educacionais anunciavam a presença de jornais nas escolas como SINÔNIMO de o cotidiano estar na escola.
O mal estava servido. Era gravíssimo, de efeitos desastosos em termos de cidadania, que os jornais chegassem às escolas não como uma determinada interpretação do cotidiano, mas como se ele próprio já fosse o cotidiano. Era o anúncio de um grande desastre pedagógico e político. Seria sacramentar a visão da imprensa como verdadeira. Seria abrir mão da necessária, imperiosa e indispensável leitura crítica, a ser realizada por cada leitor de jornal. Caso de reversão imediata de tal possibilidade!
A influência maléfica da imprensa já era assunto há muito insistentemente estudado pela professora. Mas, o seu vício de olhar os outros ângulos das questões, fez com que também valorizasse alguns aspectos positivos da presença de jornais nas escolas, debatendo com os professores, seus pares, as contradições inerentes ao veículo. Assim é que, ao lado da percepção do tanto que os jornais generalizam, simplificam opinam, clara ou subliminarmente, tratam fatos históricos como se fossem naturais, escondem, priorizam, selecionam determinadas fontes – prioritariamente representantes da banda tradicional, e não outras – , reduzem, diluem a dimensão da política no cotidiano de cada qual, dentre tantas outros de seus incontáveis defeitos, a professora também valorizava o fato de o jornal trazer de bom para as salas de aula: o aprendizado informal da língua, a chegada de novos assuntos para intensificar o debate em sala, uma visão geral do que anda pelo mundo, por mais que fosse apenas um recorte da mesma, a abertura a autores interessantes (Verissimo, Zuenir, Rosiska, Elio Gaspari, por exemplo), etc., etc., etc.

E QUANDO SE ACIRRA A LUTA?
Hoje, a conjuntura política do Brasil mudou, desde que as últimas eleições presidenciais racharam o país praticamente ao meio, trazendo esperanças à banda conservadora, de voltar ao poder. O prazer de sentir cheiro de uma quase vitória animou os detentores do poder econômico e as forças conservadoras se uniram em total sintonia, tendo a grande imprensa como porta-voz de seu ânimo. Os jornalões deixaram de lado a cerimônia e passaram a construir uma realidade totalmente enviesada, toda ela pensada para derrubar o governo da presidente Dilma. Agora, eles não apenas se deixam encharcar pelo seu costumeiro viés ideológico, mas vão muito além. A mudança é visível e profunda. A dimensão mais imediata do jornal como negócio passou a ser subjugada pelo interesse ideológico de abrir a sonhada chance de voltarem a governarem sozinhos o país. Ao que parece, ficou bastante secundarizado o seu cuidado em ter um mínimo de isenção que lhe garantisse credibilidade junto ao público.
Nessa conjuntura, a professora revê suas considerações. Não que não existam contradições. Não que aqui ou ali os jornais não tragam benefícios a seus leitores, apresentando-lhes algo que valha a pena ler. Mas, o caráter pernicioso e o teor inverídico das notícias alcançaram tamanha dianteira, a submissão do seu caráter noticioso e informativo está de tal maneira afetada pela necessidade de formar uma opinião descolada da realidade e a favor de interesses espúrios que não há como se ler mais os grandes jornais. Mais do que nunca, cada um tem que buscar meios alternativos para contar com informações confiáveis.
Se antes cada leitor era responsável por, diante de uma notícia de jornal, ele próprio ser o autor da reinterpretação do que o jornal lhe apresentava como acontecimento, agora a sua autoria se expande. Ele passa a ser autor de um passo anterior: o de ir em busca de a qual veículo consultar para ler. O prato já não vem mais servido. Ele próprio, leitor, providenciará o cardápio a ser consumido, debatido, avaliado, complementado, até mesmo, superado.
Que meu amado Verissimo me perdoe. Mas, o que tenho feito e proposto é que a leitura de suas maravilhosas crônicas seja buscada por outro intermédio. Sem precisar passar pelo que a está envolvendo nas diversas páginas do noticioso que, imerecidamente, as contêm.
 Contraditoriamente, para o bem e para o mau, o tempo de “infância intelectual” virou passado e a professora soltou-se das amarras positivistas que tentavam conter a dialética com que via o mundo. Ela, é óbvio, sou eu, que, como boa leitora de histórias infantis, cá está rearrumando lobos, princesas, dragões e florestas, sabendo que tudo isso, e mais o príncipe, não cessam de mudar e de ganhar nuances enquanto a História se desenrola...