quarta-feira, 5 de abril de 2017


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13/12/2013

(NÓS, EDUCADORES, NOSSA SINA E NOSSAS DORES)

Realizando o antigo desejo – ir com a minha filha conhecer Mariana – chego àquele miolinho da antiga cidadezinha onde as igrejas se cumprimentam, uma defronte à outra, com um outro prédio da mesma época, bonito também, a compor a pracinha onde paramos o carro para olhar tudo com mais esmero e entusiasmo. Já havia estado ali algumas vezes antes, mas o sabor de agora era bem mais adocicado. A menina que, ainda adolescente, sempre cheia de vontade própria, não se animou a me acompanhar à cidadezinha mineira de nome igual ao seu, agora estava ali, mulher feita, acompanhando-me e ao irmão, na visita por mim tão ansiada.
 
Dela, da minha menina, posso dizer que, desde bem pequena, sempre teve o nariz arrebitado, não só na face, como na maneira de não se submeter às minhas vontades. Tudo tinha que ter um porquê, desde a minha sonhada ida, com ela, à sua cidade homônima, até a coleção que fiz de jornais, do dia em que ela nasceu até completar um ano, para que, mais tarde, pudesse entender, um pouco que fosse, o ano em que veio ao mundo. E olhe que aquele fora um ano de muitos acontecimentos de suma importância – a luta pela anistia, a primeira greve do magistério aqui do Rio pós 64, o ABC fazendo renascer o movimento operário, coisas em que sua mãe estivera engajada e sobre as quais queria que tomasse conhecimento mais adiante... E ela sempre quis saber o motivo das coisas, inclusive dessa tal coleção...
Mas, voltemos à chegada à cidade de Mariana.
Mal o carro foi estacionado, um pobre homem, franzino, negro, com uma gritante camisa amarela, veio em nossa direção, tentando ajudar-nos com alguma informação sobre o lugar, com certeza à espera de que o saber que dominava sobre o lugar pudesse lhe render alguns trocados.
Na verdade, a aproximação do moço me encontrou com o olhar fixo na direção oposta, justo reparando no antigo prédio, o que fica do lado oposto da igreja maior, atraída que fui pelas bandeiras negras, uma em cada uma de suas janelas, numa evidente prova de um luto mais do que severo por aquelas bandas. E, antes que ele pudesse dar início a qualquer negociação a respeito da sua tarefa de guia de nosso olhar por aquele entorno, eu fui logo indagando:
- “Bom dia! Ali é a Câmara Municipal, não é?”
- “Sim, senhora, é, sim.”
- “E por que está com tantas bandeiras pretas caídas de suas janelas? Por que o luto? Quem morreu? O senhor sabe?”
- “Ah, eu não sei o nome, não, dona, mas foi, eu acho, um deputado, gente importante, não daqui, não, acho que de São Paulo...”
- “Nossa, quem terá morrido?” – pensei, e já fui em direção ao tal prédio, em busca da informação de que carecia, onde havia um outro senhor, no alto da escadaria, lendo calmamente o seu jornal. Quem gosta de política não tem jeito – até a morte de um deputado, seja do mais nanico e vendável dos partidecos que temos, dá vontade de saber...”
- “Senhor, bom dia! Por que a Câmara está de luto? Quem morreu? Qual deputado?”
- “Deputado? Não, senhora! Não foi deputado, não. Foi Nelson Mandela.”
Não tive palavras. Emudeci. Nem consegui agradecer ao tal senhor, que retirara os olhos do seu jornal para falar comigo. Em silêncio, desci as escadas que tinha diante de mim, retornando à pracinha onde estavam os demais. Com o olhar turvo pela emoção, escarafunchei com meu olhar ao redor, fazendo-o dar voltas em busca da figura do pobre moço negro. O que não sabia quem era Mandela. E ali estava ele, colaborando para que meu filho estacionasse o carro. O que dizer naquela hora? Nada. Nada. Nada. Apenas, dentro de mim, um sentimento novo em relação a ele. Um afeto, uma muda aproximação, uma impotência desmedida, esta era a verdade. Sobre um homem franzino, pobre e negro que imagina ser Mandela um deputado de São Paulo, sem dele saber nem o nome nem a história – entranhada, como ele nem imagina, na sua própria vida nesta terra – nada há a ser dito. Aliás, cada vez estou mais impotente – eu e minhas palavras – para dar conta do que vivo e sinto neste mundão de Deus, de homens e de mulheres que, ao desconhecerem o caminho até aqui vivido, deixam de construir os instrumentos para a sua liberdade e humanização.
Sempre vivi e senti a escola como profundamente marcada pela desigualdade e pelo contexto socioeconômico. Mas, nas brechas que havia – e as sentia vivamente – atuava e lutava por transformação e justiça.
Hoje, o espaço está se encurtando, meus amigos? O determinismo ampliou suas asas e o poder dos que se perpetuam em privilégios e açoites físicos e simbólicos já não contam com meios de serem contidos?
Onde me refugiar para ir até o final da jornada? Devo me bastar com fugazes encontros com amigos queridos, com o convívio com os filhos, com um grande amor vivido na maturidade, com as palavras com que expulso meus demônios, e seguir adiante? Cancelar as assinaturas de jornal, desligar a TV, alugar filmes românticos na locadora da esquina e seguir adiante? E como faço para esquecer o nosso MANDELA brasileiro, mineiro, meu irmão? Terão bastado os dez reais dados a ele que o fizeram sair correndo pela rua ao lado da Igreja Matriz?

(Texto publicado originalmente no blog dijaojinha.blogspot.com )

 

(29/05/ 2011)

Remadores - camposfotos.blogspot.com



A minha Beira Rio era mais pra cá, pro lado do Caju. Ali, no trecho em que eu morava, quase esquina da Baronesa, a vida passava de um jeito muito particular,

Nela, o Sete de Setembro era dia de acordar feliz, ansioso, para aproveitar cada minuto daquela manhã extremamente especial.  Era justamente ali em frente de casa que os colégios se arrumavam, inclusive o Liceu, ele, o colégio mais esperado do desfile. As moças e rapazes mais altos iam à frente com as bandeiras, um pelotão só de “beldades” para acirrar a minha inveja, eu que só vivia momentos coletivos de estudante, pelas ruas da cidade, quando das procissões a cada 24 de maio, dia de Nossa Senhora Auxiliadora.

Dentre os rapazes com quem dançávamos em nossas festinhas de final de semana, ali compenetrados, transformados em outros neles mesmos, cada qual com sua bandeira ao ombro, lembro-me particularmente, de Adauto (não sei se se escreve assim), lindo, glorioso, a cavalo, abrindo o desfile sempre impecável do Liceu.

Até hoje, bandas marciais me sensibilizam, a garganta fecha, os olhos, claro, como sempre, me traem, fazendo vazar desperdiçadas lágrimas pela face. Faço-me até uma pergunta diante desta recordação tão pungente: na verdade, não vem também dali a minha agudizada emoção diante das coisas do mundo? Sim, porque, enquanto os alunos do Liceu se compenetravam ao som do ritmo marcial que ali ia-lhes formando o caráter e a razão, lá estava eu, caída em lágrimas, a cada 24 de maio, diante da entrada da imagem de Nossa Senhora,  triunfal, no pátio do Colégio. Aquele “Glória Salve, Nossa Senhora! Glória Salve, Auxiliadora!” quase não me saía pela boca. Éramos centenas de mocinhas também em formação, prostradas diante da Santa, irmanadas na mesma culpa de existir, algo assim, forte demais...

 Hoje, na vida, choro ao menor indício de qualquer coisa que não seja o trivial simples. Criança, velho, oprimidos em geral, suas imagens, todas, entram pelo meu olho, atingem a região do choro fácil e me encharcam, incontidamente de choros, dos mais variados tipos. Já passei muita vergonha em cinema, os soluços quase gritados diante de alguma cena mais romântica ou triste. Mas aí até que dá pra levar. Mas o que dizer de minha primeira reunião departamental, na Universidade, o choro convulsivo diante da despedida de um colega que se aposentava, quando eu acabava de conhecê-lo ali?

Fossem as lágrimas um tipo de líquido fadado à escassez, o Green Peace já teria hasteado alguma bandeira na porta de casa. Verdade! Tanto assim que meu choro não tem mais a menor repercussão junto aos amigos e familiares. É como se, do mesmo jeito que é natural cães latirem, gatos miarem ou carne assada ter cheiro bom, é natural eu ser a pessoa que chora muito.  Ninguém nem mais vê. É olhar e virar pro lado, continuando a conversa no mesmo tom, sem dramas...

Já refletir, ter lucidez para decidir, postar a razão a serviço de uma vida melhor, aí é coisa que ainda luto por aprender, ao custo de muita terapia (e lágrimas, é óbvio) em divãs. É, parece que faltou foi desfile de Sete de Setembro em minha vida...

E, seguindo adiante, e as Regatas de 6 de agosto? Eram outras manhãs acolhidas com alegria. Acho que nunca choveu (Não se diz que em se tratando de memória ninguém é confiável)? Sempre eram dias ensolarados. Assim os recordo, pelo menos.  Aqueles barquinhos enfileirados, no Rio Paraíba, prontos para a largada, creio que sob a Ponte de Ferro, estão vivos em minha memória. Nunca entendi, intuía sua importância, mas me impressionava aquele esportista especial que ia à frente, de costas para o ponto de chegada, na contramão dos remadores, com seu corpo indo e vindo no ritmo de cada impulso, em busca da vitória. Velozes, os barcos passavam, como flechas, em frente lá de casa, cada qual com suas cores, certamente, cada qual com seus integrantes levando suas esperanças, glórias e derrotas... Para mim, era só admirar, nunca torci, nem ao menos sabia quais times estavam ali em disputa. Era como se, por mágica, de tanto em tanto tempo, sei lá por ordem de quem, aquele espetáculo se repetisse, só para alegrar a nossa infância.

Quando começo a pensar naquele Paraíba do Sul, cuja foz está lá naquele meu lugar(Atafona, único espaço neste mundo onde não vale, para mim, a ideia de que “já olhei a cidade de cima e, mesmo assim, não encontrei o meu lugar”.), desta mesma Beira Rio, surge em meu pensamento a lembrança das pranchas, barcos de madeira rústica, como umas jangadas avantajadas, de madeira bem envelhecida, impulsionadas por suas velas brancas, encardidas. Vejo-as carregadas de bananas, vindas de não sei onde, a caminho não sei de qual lugar. Desciam o Rio, talvez para deixarem suas mercadorias no Mercado Municipal, penso agora. Sim, porque, na direção de cada rua que chegava à Beira Rio (não sei se todas), havia uma escada saída da mureta do Paraíba, por onde se descia até as suas águas. Na esquina lá de casa, havia uma delas, de pedra. Dali não nos aproximávamos, pelo potencial perigo de fazer chegar ao Rio.

Para fazer graça, muito ao meio jeito, registro que era mais ou menos como no Sena, em Paris. Só que lá se caminha pela beirada do Rio. O nosso Paraíba, bem mais modesto, ciente de que dele não se aproximou nenhuma Maria Antonieta, nenhum Voltaire ou Ronet, permitia menos, era descer a escada, tocar as águas do Rio e retornar à calçada da rua. Sem fotos.

(postado originalmente no blog dijaojinha.blogspot.com)

Foto tirada por minha amiga Ana Helena Goulart diante do andor de Nossa Senhora da Penha, na saída da sua procissão da igreja, bem na beira do Rio.
4/4/2016
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Momento mais brasileiro, impossível! Emoções à flor da pele, as pessoas, a maioria delas, acenando seus lenços brancos para a Santa de sua devoção, fogos de artifício em profusão, coloridos e estrelados, chamando nossos olhares para o alto, barraquinhas de tudo quanto é tipo, do mocotó ao tiro ao alvo, alguns bebês vestidos de anjo, ingenuamente no colo de seus pais, meninas de cor de rosa e meninos de azul, de asinhas brancas - uma mistura viva de nossa cultura e suas fatias, multifacetadas.
Atafona em sua gênese.
Como não nos deixarmos levar pela mais legítima emoção?

terça-feira, 4 de abril de 2017


“ISTO É" COISA NENHUMA. ISTO QUEREM QUE SEJA. E NÃO SERÁ!
4/4/2016

São tantas e tantas brincadeiras que se espalham por aí e por aqui, envolvendo o GOLPE e seus personagens, que quando me chegou aos olhos, ontem à noite, a capa da última edição da revista ISTO É, eu julguei ser mais uma piada. Piada destas bem maldosas e bem maquinadas que se tem divulgado, algumas impensáveis e que não sobrevivem a qualquer análise mais acurada. Bêbado não fala o que não diz quando está sóbrio? Pois nesta nossa dura circunstância de agora, "O BÊBADO" (Sabemos bem quem é o alcoolizado da hora, A MÍDIA, pois, pois...) está perdendo a noção.
Estão passando de todos os limites! Minha amiga e mestra Bethania Mariani deve estar sem tempo de coletar tamanha quantidade de discursos midiático-encachaçados para a sua sóbria análise.
Quanto desrespeito! Quanta perversa intencionalidade! Quanta baixaria! Quanto preconceito! Quanto arranjo ideológico!
Já um pouco mais jovem, aprendi que DEUS É HOMEM. Agora, chegou a hora de apreender que a IMPRENSA também o é. Mas não um homem qualquer, a quem tanto prezo como companheiro, parceiro, dedos entre os quais tenho prazer de entrelaçar os meus, em sintonia inacabada (e a ser desenhada e concluída em duo). Que nada! Esse é diverso, oposto do OUTRO sobre quem falei antes, DEUS. O de agora é o das manchetes dos próprios jornais populares, o que não cansa de exibir seu apequenamento, realizando atos de violência dos mais variados tipos contra nós, MULHERES, enganando -se a si próprio.
Essa revista peca de inicio. Traz o equívoco em seu próprio título. No máximo, para errar menos, seu nome teria que ser ISTO ESTÁ, pois nada é em definitivo. No máximo, o verbo que a revista daria conta de ser seria o ESTAR e não o SER, que muda tida a história. Ou, fosse mais realista, ISTO PARECE SER.
No caso da capa de hoje vejo todos os limites da ética sendo ultrapassados, aviltados. Trata-se de evidência viva e cruel de machismo, parcialidade e covardia.
Será desespero? Imagino que sim, já que, realmente, os democratas brasileiros de todos os cantos, cores e tons, organizados ou não, vinculados às mais diferenciadas correntes políticas, ESTÃO SENDO corajosos, lúcidos e comprometidos.
Temos que nos realfabetizar, pelo visto. Ao lermos ISTO É, temos que traduzir por ISTO É O QUE QUEREMOS QUE SEJA.
E nossa presidente é MULHER! Bastante mulher! E, se for como imagino, pode até precisar dar uns bons gritos, de vez em quando. Às vezes, o outro lado se faz de surdo. E a gente tem todo o direito de jogar longe o tom elegante e aveludado da voz.

(O fato é que não se tem descanso. Nem pude dar um bom mergulho no mar. Quando voltei à tona, encontrei este disparate da foto de Dilma. Oh, céus! Nossa Senhora da Penha – hoje é sua festa aqui na praia – rogai por nós! )

segunda-feira, 3 de abril de 2017


ACORDAR EM ATAFONA
3/4/2006

Ainda mais aqui, sob os efeitos deste ar e desta luz que enchem minha existência de bem-viver, não sou dada a me afeiçoar a alguma coisa ou a alguém pelo que se diz sobre ela. Discursos são sempre discursos e sempre é prudente considerar suas parcialidades. Mesmo que o sujeito que fala teime em se fazer livre de sua forma de entender a vida, ao professar uma ideia e emitir sua opinião, até as palavras e imagens que escolhe lhe traem o pensar e o que de presente e futuro condicionam seu falar no agora. A imprensa tem dado sobejas mostras disso. E no caso dela, ouso considerar que além do que vem à tona por força das escolhas inconscientes, há mesmo uma clara intencionalidade de mostrar a "realidade" do jeito que mostra.
Digo isso porque sempre evito firmar minhas posições a partir do que é mostrado pelos que se opõem ou se achegam ao meu jeito de pensar. Carrego em mim, querendo ou não, uma dose de desconfiança sobre o que leio, seja sobre quem ou o que for. Não é porque alguém a quem respeito critica uma outra pessoa que tem ideias das quais discordo que isso é suficiente para eu assinar embaixo. Claro que já encontra em mim uma certa predisposição favorável a concordar com o que é dito, mas vou sempre atrás de complementos que me ajudem a compreender e ponderar. Daí também nem sempre passar adiante o que me chega. O tal compartilhamento comum nas redes sociais. Há muitos filtros que se interpõem entre o acontecimento havido até chegar a mim como leitora. Podendo evitar, tento errar o menos possível. 
Mas ver a esposa do juiz da vez, em seu perfil aqui no Facebook, com uma máscara do próprio, em frente a um espelho, sendo por ele fotografada, me fez pensar que havia pouco a interpretar além do óbvio. Coisa esquisita, minha senhora! Cadê a discrição? Essa sensação de incômodo nem Atafona faz cessar.

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Alguém viu? Vale a pena ver. E "ler".
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50 ANOS DEPOIS...
1/4/2014

A única certeza que tenho é que a esta hora deveria estar indo para o Grupo Escolar “Benta Pereira”, do outro lado do Rio, pois trabalhava no turno intermediário, o que ia de 10h às 14h (ou seria 11h?). Formada professora no ano anterior (teoricamente, pelo menos, pois que foi na vida profissional que fui tentando me formar através dos anos), estava indo dar aulas, cheia de entusiasmo, a uma turma de alfabetização a mim entregue uma semana antes, no dia em que conheci uma sala de aula pela primeira vez – no dia 25 de março.
Devo ter ido, como sempre o fazia, a pé, caminhando pela Beira Rio, até encontrar a Ponte de Pau, por onde cruzava de um lado para o outro, e seguir até a escola.
Provavelmente, ao chegar ao meu destino, devo ter conversado um tantinho com as colegas e seguido para a sala de aula onde havia uma menininha que cantou para mim – se não nesse dia, num outro, próximo – “Deixe que digam, que falem, que pensem, deixa isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem? Eu não tô fazendo nada. Nem você também...” E ela fazia acompanhar seu canto com um gestual de mãos, aprendido, naturalmente, em algum programa de TV da ocasião. TV daquelas ainda em preto e branco, para cuja melhora da imagem alguns aconselhavam a colocar uma folha de papel celofane azul, se não me engano, em frente à tela.
A tudo que se passava no país eu estava alheia. De Jango, eu sabia que tinha uma mulher linda. Seria pedir demais, saber mais que isso. Até o final do ano anterior, rezava no Auxiliadora para o comunismo não chegar e acreditava piamente em ele se confundia com nazismo e fascismo. Tudo mais ou menos a mesma coisa. Do lado de cá, o do bem, da Igreja Católica, da vida, não nessa, mas na outra, na próxima. Aqui era mesmo vale de lágrimas, lugar onde havia pobres e ricos sabe-se lá por que. Jesus foi pobre e amava os pobres. Mas como eles, os pobres, os de carne e osso viviam, não importava muito. Oremuuuuuuuuuuuus! O mundo era dividido entre bons e maus e o que tinha os Estados Unidos à frente era o Norte do bem.
Vinha de uma fase muito religiosa, eu que aos 15 anos perdi meu irmão mais adorado e, sem entender o que era aquilo – a perda brutal de Maninho – me refugiei em Padre Boaventura, do Convento, a quem até hoje agradeço por sua generosidade sem par, ele que, mesmo sem me trazer nenhuma explicação para a morte (até hoje não sei nem porque chegamos aqui, quanto mais porque partimos), aliviou minha dor profunda. Fazer 15 anos foi bem diferente para mim: ao invés de festa, o primeiro luto. E logo pelo meu ídolo!
Hoje, 50 anos depois, estou em cima da hora para a minha terapia. Não quis deixar para rever este texto e concluir mais tarde. Deixo assim para mais tarde ver o que faço daqui para a frente com ele. Não deu para falar quase nada. Mas, deixar para depois seria perder o mote do início – o de que estou a exatos cinquenta anos após as 10 e meia do dia primeiro de abril de 1964.
Apenas um detalhe: com certeza, a necessidade de terapia tem muito a ver com tudo isso – o dito e escrito e o ainda não dito mas residente aqui, permanentemente, em minha alma.

domingo, 2 de abril de 2017

RUA SANTA CLARA, 142, APARTAMENTO 801

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Descalça, como gosto, em meu apartamento na rua Santa Clara (Anos 70)

Hoje dei de pensar nesta foto que postei ontem, cumprindo o desafio de uma amiga. Rua Santa Clara, 142/apartamento 801. Copacabana. Lá morei por um par de anos. Deve ter sido este tempo. Não sei ao certo. Dali me mudei para a bucólica e inesquecível Pracinha do Bairro Peixoto, aí já casada. Juan Carlos e eu fomos juntos para lá e foi de lá que saímos para viver em Niterói, de onde não mais de mudei, salvo o tempinho que vivi em Atafona, com os filhos pequenos, na Casa do Galinho.
Mas esta foto sou eu naquele tempo. Sem tirar nem por. A esperança subjaz, perpassa, ilumina.
Não via TV, pelo contrário, combatia a sua influência nefasta. Aí alguém me deu esta mínima, que nunca foi ligada. Era um enfeite. O som era meu "Quindim de Iaiá". Música era central na vida. Fiz um trabalho de tradução, ganhei 7 mil cruzeiros (ou qual seria a moeda na época?) e saí do banco, na Praia do Flamengo, com o dinheiro vivo na bolsa, e fui direto à casa Garçon da Raimundo Correa e o comprei. O primeiro disco colocado foi o do Quarteto em Cy, comprado com mais uns 30, junto com o som. Pionner, se não estou enganada. Ou Pionner foi o seguinte, sei lá...
As cerâmicas vinham de onde eu ia. Com certeza a maior veio de Salvador, uma igrejinha pequena, de Lima e uma outra, também pequena, de Cuzco. Na época ainda não colecionava bonecas. O dinheiro em viagens era sempre medido, as cerâmicas eram sempre as que me agradavam dentre as mais baratas. Menores, portanto.
Na parede há um cabide, feito por JC, onde uma bolsa de couro está dependurada. Ela é inesquecível. Cheia de repartições. Usei demais. Vejo-a com nitidez e quase sinto a maciez deliciosa de seu couro. Pena que acabou.
A mesa, feita por Juan Carlos, ainda crua, já não a tenho mais e nem desconfio em que esquina da vida se perdeu... Muitos jornais na cesta. Com certeza, apenas o JB, que era o que eu lia então. O GLOBO, nem pensar! Aliás, quem introduziu o GLOBO em casa foi Juan Carlos. Custei a me acostumar. Mas foi até bom. Anos mais tarde vim a trabalhar com ele diretamente e foi um período de intensa realização profissional. Tempo de lidar com um monstro e tê-lo à mão para desmistificá-lo e perceber suas garras e venenos. Mas isso é outra história... O paneau não sei de trouxe da Bolívia ou do Peru... mas foi daquela viagem à América Latina em que conheci JC. Eu e a amiga Vera.
O anjo é um caso à parte. Único quadro de Renato, meu irmão, de que eu gostava. Ele me deu. Anos mais tarde, quando nossos caminhos afetivo-ideológicos já estavam irremediavelmente interrompidos, alegou o agrado feito antes e eu o devolvi, orgulhosa. Pois minha querida cunhada Maria Regina o comprou dele e me deu de volta no meu aniversário, me fazendo quase morrer de emoção. Eu adoro meu anjo e ele hoje vive aqui, bem ao meu lado. E é isso, até num irmão-desafeto encontro algo que ame. Até Bolsonaro há de ter uma qualidade. E pensar assim me faz humilde, o que julgo fundamental, na minha pretensão de ser tão tão tão. Sou, mas não sou. O outro não é, mas é (um pouquinho que seja).
Aquele foi um tempo bom. O apartamento era minúsculo e ali vivi intensamente. Na foto não aparece, mas numa das paredes havia um armário Gelli, que eu trouxe dos tempos em que dividi um outro apartamento com Anezinha Ana Helena Goulart).

Vou aqui ficar pensando um pouco. As palavras cumpriram sua parte, a de registrar o visível. Para o mais, as rememorações, elas se tornam minúsculas e não dão conta. Em silêncio, vivo melhor esta hora da saudade.
Vou buscar em mim o sorriso que antevejo, ainda que meio de banda, na foto sobre a qual me debruço. EU ERA FELIZ E SABIA...