sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017




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ENQUANTO É TEMPO... VAI QUE...


(01/02/2017)

Eu inventei uma neta pra mim. Ainda não chegaram os rebentos que vêm de pedaços de mim? Sem problema. Eu espero, mas vou dando uma adiantada por aqui com filhos de uma barriga meio filha também mas que vem lá da Bahia e das Minas Gerais, sem nem sonhar com a planície goitacá ou terras patagônicas. Pois foi isto mesmo: não perdi tempo. Enquanto seu lobo não vem, à luta, companheira! Se está difícil confirmar que sou sujeito da História, historicamente falando, aqui no pessoal, sou dona do meu chão e planto o diamante que eu quiser. Sei lá quanto tempo ainda tenho por estas bandas daqui... Vamos adiantar esta avozice que eu quero é viver o amor na sua mais intensa integralidade.


Alguns plantam diamantes abaixo do chão. Nem sei bem para quê. Já perdi tempo pensando na utilidade de tal plantio e não consegui decifrá-lo. Mas que esses cultivadores de inutilidades existem, está cada vez mais público e notório. Não sei em que escola aprenderam tal asneira. Diamantes abaixo do chão... vejam que inutilidade... Deve ter sido numa aula antes ou depois daquela outra onde se ensina a banhar dinheiro vivo no mar. Tudo tão inadequado que nem sei por onde começar a lamentar tais equívocos e compreender sua finalidade.


Outros, e cá estou eu a provar, deixam-se brotar fazendo-se sementes que viram relações de amor, entendendo serem estas as pedras preciosas que trazem brilhos insuspeitáveis à alma e que devem ser cultivados pela entrega afetiva que humaniza e floresce em gestos da mais viva emoção.


Luna chegou a este mundo. Pequenina, deixava-se ficar em meu colo. Mas, quando os olhos deram de ver, não queria saber de mim e olhava-me desconfiada. Até chorava sem me querer por perto. Mas, minha paixão foi tão arrebatadora (fosse espírita entenderia por outras vias...) que me fiz daquele personagem bobinho de telenovela de quinta, que julga que seu amor basta para os dois, diante da indiferença da mocinha, e investi na conquista de minha neta, escolhida por mim como tal. Fiz de tudo em forma de artimanhas de conquista. Não gosta de mim por causa do cabelo branco? Vai um chapéu na cabeça. Não quer meu colo porque estou de cara limpa, sem problema: maquiagem completa para receber Luna. Mais o quê? Perfume? Roupa nova? O que for. À conquista.


E Luna ganhou um espaço dela aqui em casa. Ganho o coração da avó inventante de neta, o mais foi consequência: uma mesa, reformada e pintada de branco, livros, papel, tintas, um banquinho feito por mim, brinquedos improvisados, bonecas que foram de Mariana, bugigangas as mais diversas, prontinhas para virar outras coisas por nossas brincadeiras. E, óbvio: eu, inteirinha, na minha total disponibilidade quando Lu Luciana Farias Sampaio ou Zeca Zeca Azevedo anunciam que ela virá. É tomar banho e me entregar ao que iremos inventar no tempo em que estiver aqui.


No dia em que essa figurinha, ao me ver chegar junto a um grupo de pessoas queridas, e veio correndo em minha direção, na ponta dos pés, correndo, rindo incontida, eu entendi o que é a felicidade.


Vamos em frente, Luninha! Viver é alegria! Você é a minha pedra preciosa. Lapidemo-nos pelo amor! Isso vale.


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MEU NOME É RANCOR

(2/2/2017)




Na TV ligada, não há voz grave e pausada. Nem destaque especial no noticiário. Plantão permanente na porta do hospital? Que nada! Cobertura ao vivo e em cores de largo tempo? Pra quê? Por conta da saúde e anunciada morte de Marisa Letícia? Que besteira! Há outras prioridades. O Maia e o Eunício são pautas mais relevantes. “Estes, sim, são gente como a gente”, parecem deixar claro os editores dos noticiários. Cuidado na troca de assunto? Pra quê? Sem o menor respeito, pode-se passar da notícia de que os órgãos já estão sendo doados e entrar no anúncio de que se tratará de marchinhas de carnaval no programa da ex-mulher do Bonner. Está tudo certo. Quem morre não é uma dama da sociedade. Aí, sim, teria até marcha fúnebre ou algo tão enlutado quanto. Quem morre é uma empregada doméstica que ousou sair de seu lugar de origem e virar primeira-dama e – pior! – se tornar marcante mundialmente pelo tempo que contou com seu homem à frente de um governo que teve um olhar diferenciado para os desvalidos da sorte (E, olhem que o fez mordendo e assoprando, na maior conciliação com os de sempre...). O mínimo é a punição com a indiferença e a falta de cuidados. Fará falta alguma – parece ser o implícito ao fato.

Coloca um samba aí, ô contrarregra, que o carnaval está na esquina. Isso é o que conta. Já vai tarde essa presunçosa criatura que teve a audácia de ser tratada em hospital de gente rica. Mas, bem feito!, era tão pobre, tão casca grossa, que pra seu corpo parco não fizeram efeitos as mágicas da medicina privada do país. Talvez, realmente, no SUS estivesse mais entre seus pares, entre quem talvez fosse mais próximo para entender seu apoio ao marido, sua contribuição à causa da redução da desigualdade, sua postura de facear o companheiro em suas ações de luta (lá atrás, quando o PT era o PT e não esta coisa disforme de hoje que apoia de Picciani a qualquer outra “força política” destas que andam envergonhando o país e suas gentes de bem).

Não sou mais a mesma. Sou hoje uma pessoa pior do que ontem. O coração vai se entortando pro pior lado. Está mais com cara de intestino. A desilusão é a minha maior porção. Estou com medo de mim. O rancor me habita e consome.

Acabe de morrer em paz, dona Marisa! Minha voz é pouca, rouca, louca. Mas sei que não é solitária. Há gente demais, e gente de bem, a seu lado, agradecendo pelo que fez por nosso país.
Eu, particularmente, como mulher, me orgulho de ter alguns traços – poucos que sejam – que me identifiquem com uma mulher que soube amar e teve como marca o “braço dado”, a solidariedade, o estar com. Disso eu entendo um pouquinho e gosto de ter esse anteparo para me defender de uma amargura que me tome de vez.

Obrigada, minha senhora!


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AO QUE DEVE SER LOUVADO!
(3/2/2017)


Esta cena de amor explícito, envolvendo estes dois seres iluminados, há de ser uma boa inspiração para as primeiras luzes do dia que vem apeando da noite que viajou pra longe. Creio firmemente em que, por uma questão de sobrevivência menos traumática e mais aliada a bons augúrios, viver a vida exige a nossa entrega à procura de estímulos que nos façam crer em que o mundo não é necessariamente o que nos é servido como terra de egoísmo e indiferença. O rancor que por vezes nos toma precisa ser areado com especial empenho, destampando e trazendo à luz o que pode nos fazer mais humanos e solidários. Podemos escolher e nos cabe escolher. As tristezas nos visitam, as decepções nos encurralam, mas "a esperança é revolucionária" e temos que colocar nossas próprias mãos a cavar - no mundo e em suas pessoas - pequenas porções de claridade para nos impulsionar a viver com fé. Não uma fé deslocada para nenhum ser superior que nos deixe seguir passivamente aguardando suas providências. Nada de chamar por Deus ou Nossa Senhora, pegar o terço e seguir tremendo os lábios repetidamente sentadinha no sofá da sala. Deixemos Deus em paz em seus entendimentos com a Física e o Acaso, o que já é muito. Cuidemos do nosso! Essa fé não me serve. Falo de uma fé naquilo que, tanto quanto o ódio, existe por aí, espraiado como um pó magico e que nos habita, mesmo a mais cruel das criaturas. Sim, ela mesma, essa pessoa desprezível, só para ficarmos no exemplo chocante desses dias, a que desejou que o procedimento médico aplicado a Marisa desse errado e que ela morresse nas mãos do capeta, como disse a um amigo, bem jocosamente numa conversinha virtual. Custei a crer e ainda guardo um amargor descabido em meu íntimo e tento localizar lá dentro de minha alma essa mesma porção diabólica que, sendo de algum humano, também existe em mim, como sua companheira de espécie que sou. Estando em alguém, também está em mim. E eu preciso me dedicar a vasculhar as minhas partes podres para deixá-las fenecer por falta de uso. Somos isso e aquilo e eu posso investir na vida, na compaixão, na amizade. Não posso desistir dessa luta interna e do aprisionamento à ilusão de que bons somos nós e maus são os outros. Ilusão à toa, e não é a de Jonny Alf.
Grata a Luciana Farias Sampaio que registrou esse momento iluminado. Na simplicidade de uma conversa entre padrinho e afilhada, busco - e encontro - uma infindável possibilidade de aprender com o belo, o simples, a entrega, o amor.


VIVER É ALEGRIA!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

BACALHAU À MODA
  (2/2/2017)
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Eu não sei se apelo para o ditado “quem nunca comeu melado quando come se lambuza” ou se tomo pela mão a parlenda “cadê o anel que estava aqui?” para abrir esta conversa sobre meu dia de ontem, sobre uma parte dele, pelo menos. Mas, isso nada interfere no acontecido: começando a puxar o fio por uma ou por outra ponta, o marcante precede e é o trivial simples: minhas ações cotidianas que se vinculam às ações de "mulher do lar" têm em si um tipo especial de imã, em estado de alerta, para atrair irresistivelmente algo em torno para forçar o processo a dar errado, a cumprir pelo menos uma curva que lhe dificulte o caminho... Tem jeito, não: Bobeei, dancei.

Poderia dar errado numa última hipótese caso fosse uma outra pessoa a estar à frente do acontecido? Pois comigo, o inesperado – saído não sei de que antro – se anuncia e vem lépido para me abraçar, tomando as rédeas da situação, tornando o mais improvável elemento aquele que pula na minha frente, com um sorriso debochado de canto de boca, poderoso como só ele, a fazer com que o que eu pretendia construir aconteça de modo vário. Seu ar é de puro deboche, por saber que vai me levar por caminhos insuspeitos que me trarão algum prejuízo, uma surpresa esquisita, que seja. E digo vário porque sou bondosa e me esforço para abrir a cortina de meu olhar para o que parece ser o mais leve e enfeitadinho que se apresenta. Em Português correto, vário não expressa o acontecido. E foi fato mesmo, nada de fato alternativo, que pudesse ter sido criado por mim para disfarçar o que se passou. Foi despropositado. Indesejável.  Totalmente desnecessário e aporrinhante.

Coisa rara, raríssima mesmo, vesti-me de cozinheira, logo cedo, avental à frente do corpo, toda bonitinha e dei de fazer ontem um bacalhau bem bonito, à moda de Cã, fiel escudeira que cuidava da casa de minha querida Diva (Goulart). Havia ganho uma linda peça pelo Natal e ela vinha aguardando o momento de virar verdade, ser degustada a contento, como devia merecer. Já o havia dessalgado durante dois dias, como manda a boa cozinha, peguei na dispensa a minha panela de barro, a maior delas, buzuntei-a com vontade de um saboroso azeite, separei ovos, providenciei o seu cozimento, azeitonas pretas, muita cebola – das grandes para serem cortadas em rodelas e das pequenas para serem acrescidas inteiras ao molho –, um bom azeite, especiarias roubadas do armário do filho cozinhador, leite, alho em abundância, pimentões coloridos em rodelas fartas... creio que isso. Viria dali um belo e delicioso bacalhau ao leite, que, com uma pimentinha e um vinho branco, seria uma ode ao sonho.

Foram cerca de duas horas de ação cuidadosa e cheia de capricho, vivendo à vera a inspiração posta numa ação concreta de belos sabores e odores. Tudo feito a contento e com o devido carinho e zelo. Mas Marphy, o inimigo, esteve a meu lado sem que eu me desse conta. Um canalha sonso esse companheiro de empreitada. E ele nunca me deixa na mão, surge seja para o que for – seja para arrumar uma mala e me fazer esquecer o maiô quando estou a caminho de uma praia, seja para me fazer esquecer o lápis de que necessito para fazer as anotações no livro que carrego para onde for, seja no que providenciou ontem, silencioso e pérfido: a pedra de meu anel, um belo ônix todo sestavado, que eu trazia no dedo, desgarrou-se da base e sumiu ao final dos meus providenciamentos à beira do fogão. Nunca poderia mesmo supor tal mergulho. Um salto olímpico digno de medalha, por suposto.

Hoje darei com calma uma vasculhada na cozinha inteira. Mas, a dúvida está aqui no meu colo: terá sumido em meio ao caldo colorido que encharca aquelas lindas postas com as quais eu pretendo me deleitar logo mais? Terei cuidado, Murphy. Não abrirei minha mordida com a gana com que teria se tivesse sua bochecha ao meu alcance. Se ele afundou, eu o encontro. E ainda brindarei a você e à sua malignidade. Eu sou mais eu, "seu" danado! Larga do meu pé e vá dar um tilte na luz lá pelas bandas da cela do Sergio Cabral, meu santo! Ele, sim, precisa ter suas carnes aquecidas. Não meu anelzinho de estimação...

domingo, 29 de janeiro de 2017


Sem chorar, em intervalos em que rio, sorrio e me equilibro. 
LÁGRIMAS INCONTIDAS

(Ensaio?/Crônica?/Artigo? – gênero aberto)
29/01/2017

Quando a amiga me emprestou aquele livro que contava a história das lágrimas através dos tempos, tomei-me de uma surpresa em dose potencializada. Que raro, meu deus! O que eu ia sabendo sem chegar ao topo da montanha do entendimento, atingiu o cume e se fez consciência. Ficava nítido ali que realmente tem gosto pra tudo e gente que estuda qualquer tipo de coisa. A vida encaminha, sem anunciar explicitamente nada com nome e conceito, revelando dados daqui e dali, o sujeito recebe o que lhe vem da vida e, em função de seu íntimo e das marcas de sua historicidade, acaba por cumprir o que lhe chega para dali se construa algo. E, sem se dar conta dos limites de sua autoria naquela decisão, cumpre o traçado, acolhe e traz a si, com o cotidiano intermediando o que lhe vem de fora e o que de dentro responde.
Só não me perguntem por quem essa trama toda é definida, pois nem de longe desconfio. O caso é que tenho visto que autoria mesmo, esta que para muitos lhes define como sujeito, ela é muito mais reduzida do que pode supor o “autor” de qualquer façanha enquanto vai indo adiante em seu trajeto vitalício. O estado de dúvidas com o qual convivo a respeito é permanente, mas nunca a ponto de me tirar o sono nem me impedir de avançar, tomar as rédeas do ir, dialogando em atos com as circunstâncias e seus circunstantes. Vivo e vou vivendo mesmo que ainda não tenha consciência da intensidade  – maior ou menor – da minha porção sujeito e da minha porção objeto diante do que trilho a cada dia. Sabe-se lá em que curva da vida, a criatura se depara com uma necessidade tão específica e inusitada e lá vai ela atrás de um maior entendimento quanto a nuances, gêneses ou sabe-se lá o que mais a respeito daquilo com que tropeçou no meio de seu caminho.
O livro me soou bastante interessante e eu recomendo, pelo jeito como vai tratando do que motiva a lágrima aqui e ali, em tempos dantanho e mais prá cá. Sobre ele, é o que tenho a dizer. Ele foi o que me chegou da vida lá fora para eu falar do que vai aqui dentro...
Fiel ao que acabo de expor e dividir, avalio que, pelo amor a mim mesma e pelo irrestrito interesse que mantenho com minha própria história, sei bem que o meu abraço tão acolhedor em relação ao tema CHORO não é gratuito e tem raízes nas minhas próprias lágrimas e em sua presença tão corriqueira em meu cotidiano. Choro a não mais poder. Choro por tudo. Na contramão de Paulo Vanzolini, em sua composição em que afirma que “ali onde eu chorei qualquer um chorava”, comigo a barra pesa um cadinho mais. Cadinho, nada! Choro por coisas e pessoas sobre as quais não suspeito quem mais possa ter chorado. Os de perto, nem se dão mais ao trabalho de fazer olhar de soslaio para conferir ou nem mais indagam o motivo que faz a voz ficar tremida ou a face orvalhada das sobras que a percorrem, escorrendo dos olhos até onde der. Dependendo da intensidade e não sendo interrompidas pela mão que trata de recolhê-las na maior sororidade (adorei descobrir esta nova palavra!), atingem a blusa bem na altura do peito que lhes serve de anteparo. E tudo segue. Choro, o choro é meu e eu que me vire com aquele líquido desperdiçado (?) a cada tanto.
Vida que segue, mas leva a pensar...  Se fosse apenas quando estou só, mas, não, o choro não tem cerimônia com ninguém. E há circunstâncias especiais que são mais provocadoras. Sem que seja sob efeitos externos, os casos são mais restritos. Sozinha, quieta no meu canto, só choro mesmo é de saudade e por uma brutal decepção que tive com uma grande amizade. Saudade de quem se foi e do grande amor perdido. Sem hora marcada, a dor retorna e eu choro. E isso é realmente quando estou só e sem nenhum estímulo a mais. Vem a vontade e me invade, quando vejo já sou a elas totalmente submetida. A elas, quem? Ainda não ficou claro? Sim, às lágrimas. Às vezes até acompanhadas de alguns gemidos de matar de tão sofridos. Quero lembrar agora, não.  
Com estímulo, o leque se abre bem. Mergulhando em Atafona, é só dar vez a vontade e ao gesto de impulsionar o corpo para a frente e furar a onda que se aproxima que antes do retorno à tona, algo, com certeza, há a mais de úmido em minha face do que a simples água amorenada daquele meu mar. O sentido nessa hora parece ser de libertação e indisfarçável necessidade de recepção de acolchoamento interior para seguir a vida.   
Fotos ou vídeos de Luna também são imbatíveis conclamadores de lágrimas. Raros são aqueles que não me fazem chorar de amor e de vontade de que a presença dela seja, mais do que um registro, uma viva continuidade dos momentos em nos termos de perto uma a outra, integralmente em nossas brincadeiras de tentar ser gente juntas.
Havendo música, aí é que beira ao inexplicável e a explosão é totalmente desavergonhada. Desrespeitosa de maneira indevida com quem puder estar por perto. Quem quiser que evite olhar e vire seu rosto pro outro lado, disfarce como puder e quiser – pegue o celular, mande uma mensagem, assobie ou aproveite o embalo e chore também. Não serei apenas eu a ter motivos de sobra pra chorar. A vida anda maltratando duro e não só a mim.
Nesses momentos, o choro é o sujeito da oração e chega independente de espaço ou tempo, aporta e me arrebata (Também adoro o verbo arrebatar!): tanto posso estar na rua, na sala de espera do dentista, no Municipal do Rio, na rede ou no raio que nos parta a todos.     
Como o fundo musical parece ser proeminente como indutor às minhas lágrimas, penso muito mais em seus desígnios e possibilidades. Perco tempo elucubrando suas maneirices e perco-me em busca de indícios... Assim é que ando tendo uma desconfiança – e que vem-se acentuando nestes últimos tempos – , a de que o tipo de nota musical que integra a melodia, algumas delas facilitam mais o acionamento da função “lágrimas já”. É que, tenho a nítida sensação de que os bemóis e sustenidos parecem ser mais escavadores das profundezas do sentimento. A algumas notas, claro que combinadas com outras, pois que sozinhas são pouco férteis e provocativas, deve ter sido dado, por algum ser superior, um Bach, Tom ou Chopin da vida, um poder a mais de fazerem emergir aqueles sentimentos mais fundos. Assim como agulhas ou qualquer outro instrumento mais pontiagudo que corta com mais facilidade alguns tecidos, os sustenidos e bemóis têm, sei lá,  a potencialidade de abrir a correnteza das dores e inconformismos, saudades e emoções que não se bastam sem algum tipo de choro que nos preserve a vida. Quando nossos ouvis captam seu som, se não chorarmos, me parece, sucumbimos. Há que ser chorada a emoção. Submissão total - não passa por mim a decisão sobre a conveniência ou não da descarga líquida. Sem esse extravasamento, sobre o qual não tenho o menor controle, talvez o alma não pudesse conter suas dimensões sem explodir, e até matar.

O que anseio, ao falar disso publicamente, é encontrar alguém que faça ou já tenha feito algum estudo sobre o que provocam melodias na alma humana, tal qual Anne Vincent-Buffault produziu em relação ao tema da lágrima, ela que se dedica a estudar a história da sensibilidade humana.

Alguém aí? Não que eu não vá continuar a chorar ante notas musicais deste ou daquele tipo, mas seria tão mais virtuoso e consistente saber um pouco mais da teoria que me conduz à prática de tamanha exposição e insubordinação diante do que é mais usual entre os humanos com quem convivo...


Ainda bem que sou também dada a risos, tímidos, leves, fartos ou até espalhafatosos. Pelo menos dou conta de viver de modo mais ambivalente. Pior seria ser taxada como um bloco unitário que só pende para um lado só, e o da tristeza, o que, para mim, pelo menos, seria lamentável. Convivo muito bem com a busca e o encontro daquilo que, sem que saibamos também bem o porquê, traz uma boa gargalhada à face, cobrindo de ressignificação  e de pureza o ambiente, por ser fruto de algo que, vindo de outro coração, pode transformar o insosso, o invisível, o irrelevante num outro acontecimento carregado de viva em novas bases.

Lágrimas ou risos, menos a mesmice e a superficialidade! E que nada nos sujeite a ser de um jeito só, imutável, em linha reta. Isso, não, por favor!








sábado, 28 de janeiro de 2017


LIBERDADE PARA AS BORBOLETAS

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Euzinha, imaginária

(28/01/2017)

Providência preliminar indispensável: definir um dos termos – no caso, borboleta, trazido para o singular. Não o fazendo, o texto certamente cairá no vazio por falta de referência. Preciso facilitar pro leitor. É uma questão de respeito por ele e por mim. Quero dizer e quero ser entendida.
Ah, sim, e faço isso porque reivindico igualdade de direitos. Se havia um conhecido senhor de negócios em minha cidade do interior sobre quem se contava que não tinha muita palavra nos negócios, tendo por hábito dizer “a palavra é minha, eu dou e tiro a hora que quiser”, se ele podia realizar tal proeza, com direito até a ter virado lenda urbana, eu exijo isonomia e quero que se entenda, pelo menos neste texto, o termo borboleta como simplesmente o monosssílabo MIM. Dá pra se substituir por euzinha que também dá certo.
Temos, então, por força de minha vontade (escrevendo sou dona do mundo), o aproveitamento que faço de um título bastante conhecido de um filme – LIBERDADE PARA AS BORBOLETAS – e liberdade aqui significa simplesmente MIM. Simplificando, o título desta minha conversa fiada (ou afiada) pode ser lido simplesmente como LIBERDADE PRA EUZINHA. É isso.
É que a liberdade que me dou vem-se fazendo ilimitada. Vantagem (cobertor curto) da idade: a boca está mais frouxa, deixa escapulir o que dá na telha. Até posso me esforçar para mudar, mas só se me derem uma, uma que seja, vantagem para eu perder a minha espontaneidade, estando já na esquina de entregá-la, junto com o resto da borboleta (Lembram-se? Borboleta = mim) às ondas douradas e tíbias de Atafona, quando a voz sumir de vez cá na terra onde piso cada vez menos firme. Na verdade, terra firme está virando ficção – anda escassa tanto emocionalmente quanto no mundo das caminhadas no chão mesmo por onde passo com os pés de carne e osso (e vontade de seguir).
Pois ontem o meu fisioterapeuta esteve aqui a me acarinhar com a desculpa de que é para colocar no lugar devido a minha coluna, cheia de entorses de nomes estranhos. Conversa mole para boi dormir. Ou, para ser mais exata, para senhora de fino trato ser apertada por poderosas mãos que trazem conforto muito mais do que cura para o que já foi além de um lugar de onde possa ter retorno.Qualquer coisa diferente disso é puro detalhe sem a menos importância. 
Estava tão delicioso que a certa altura eu me virei pra ele, hoje já meu amigo do coração, e indago: “Você faz massagem em sua mulher? Se quer tê-la pra sempre, nunca deixe de fazer, pois ela não viverá sem. Nunquinha abrirá mão deste prazer. Agora, se quer que ela vá embora, pare rapidinho de fazer antes que ela se vicie nesta maravilha e não deixe mais você em paz.”
Rimos um bom tempo e ele me prometeu intensificar o trato massagístico-terapêutico que vem dando àquela que gosta de ter por companheira...
Mas, com um detalhe, arrematei: "Só não pode me abandonar, meu médico recomendou como totalmente indispensável, bla bla bla bla bla bla e eu já estou viciadinha". A cada sessão, tudo continua dolorido como antes, melhora mesmo não vem, não, é coisa pouca. Do que não abro mão pra valer é dessas duas horas de carinho explícito. E conversando junto? Tem melhor, não!

Até semana que vem, mãozinha santa!