domingo, 12 de março de 2017



Versinhos
12    3    2016
Minha orla tem destroços
Que bem sinto ao caminhar
Mas sua força é tão intensa
Que me enleva em meu lembrar
A imagem pode conter: atividades ao ar livre e água
Atafona

sexta-feira, 10 de março de 2017

AMIGAS ATÉ NAS LOUCURAS DO AMOR

Uma amiga e outra combinam de almoçar juntas. Necessidade recíproca de conversar sobre os males do coração. A primeira a falar se sai com esta, antes mesmo de fazer o pedido ao garçom que acabara de recomendar um cuzcuz marroquino com legumes assados para acompanhar o frango:

"-Desisti de seguir adiante sem auxílio de algum remedinho para me ajudar a combater a minha mania... ah, sim, porque só pode ser mania, coisa doente mesmo, ficar pensando no antigo amor como se ele ainda me amasse e apenas estivesse longe por pura incapacidade de lidar com o estado estranho de amar e ser amado... Sempre imaginando o dia em que voltará. Vou partir para algum antidepressivo para aliviar essas maluquices brotadas das dores da alma..."

Mais não disse. A outra não lhe deu chance, interrompendo-a quase pedindo socorro, com os olhos clamando por alguma ajuda milagreira:

"-Jura? Pois quando a psiquiatra receitar a sua pilulinha mágica, me passe o nome rapidinho pois se você é meio novata nesta espera, que dizer de mim que espero há décadas pela volta do MEU amor? E pior: esperando na certeza de que virá. A vida só está fazendo uns volteios, mas o final será feliz. Na novela, não acontecem mil desencontros mas o final não é do mocinho com a mocinha, juntos e para sempre? Por que comigo não?" (segundos de silêncio e o trágico complemento): "Ou eu não sou a mocinha da história??????????????????"

"- Pois é... (diz a primeira)... será que estamos nos imaginando como a linda e sortuda Gata Borralheira e somos na verdade as irmãs malvadas???????????????"A imagem pode conter: uma ou mais pessoasNenhum texto alternativo automático disponível.

domingo, 5 de março de 2017


SEM FREIOS
5/3/2017

Se para mais não fosse (no caso para a implementação de políticas de cunho mais popular - ressalvadas as custosas concessões à base governista), o PT no governo tinha um outro importante mérito, do qual nem sempre nos recordamos: o de frear a descarada hegemonia da quadrilha que sempre governou o país, ora mais descaradamente, ora de modo menos escancarado. Promovido o golpe e afastada a presidente Dilma, a lama vem encharcando progressivamente cada espaço do governo central e o movimento de emporcalhamento dos diversos setores se faz de uma maneira tão galopante que parece tão caudaloso quanto água de morro abaixo ou incontrolável quanto fogo de morro acima: ninguém segura. Voltemos nosso olhar para onde voltarmos, a bandidagem está livre, leve e solta. Dona do pedaço e sem disfarces. Sem freios.

sábado, 4 de março de 2017

Quando a Marcha é lenta, de longo alcance e PARA a Família

4/3/2016
Em 1964, a Marcha DA Família com Deus pela Liberdade foi a chave que abriu as travas para o Golpe. Toda a pressão política que vinha então sendo posta em ação contra as reformas do governo Jango, diante do apoio de parcelas significativas das famílias brasileiras, acumulou as forças necessárias para o que veio a seguir, a Ditadura Militar, ou Civil-Militar, como querem alguns.
Por mais que se fizesse presente a imprensa na oposição ao governo, o movimento era DA família, estimulada às claras pelo conservadorismo da Igreja Católica. Dela, da família brasileira, veio o empurrão, o apoio, a sustentação para a voz dos conservadores inconformados com as frestas que se abriam em direção a mudanças. Pífias, aliás, todas elas dentro do próprio sistema, sem nada de comunismo em jogo, como se apregoava.
Em 2016, o deus é bem outro e a Marcha é PARA a família. Coisa de sensibilização diária, convencimento subliminar, adubação perene para o solo se tornar propício a um novo golpe. A ação vem do deus-mercado-midia PARA a família brasileira. Em tempos de novas mídias e do alcance incalculável da TV, a Marcha foi planejada e posta em prática por quem tem poder de voz e como formadora de opinião PARA quem ouve e se deixa influenciar.
Nunca na história deste país se viu a mídia com tamanho poder, diversidade e alcance para criar a História de acordo com seus próprios interesses. Dela é que veio e vem a linha de raciocínio estruturada para submeter as famílias brasileiras a pensar como pensam. Boatos viram certezas, personalidades, muitas, caem por terra.
Não sou mais PT e discordo frontalmente da maneira como o partido deu continuidade e aprofundou a política viciada e corrupta com a qual sempre convivemos. Mas, assistir ao espetáculo de hoje, que veio sendo preparado pela mídia brasileira faz tempo - e com esmero - dá náuseas.
Quanta COMPETÊNCIA! Do lado de lá, todos unidos para a destruição de um sonho. A lamentar, o fato do PT ter dado combustivel a rodo para o inimigo. Do lado de cá, de tudo um pouco. Até mesmo para quem percebe o maquiavelismo dos seus opositores, o que vigora é a perplexidade e a angústia de não ter um lado pelo qual lutar. Só mesmo num confronto definitivo, para se escolher o partido que alimentou o nosso irrefreável desejo de construirmos um mundo melhor. Até lá, luto. Seja em que sentido for. ..

sexta-feira, 3 de março de 2017


COMUNISTA? NÃO!
3/3/2015
Resultado de imagem para foice e martelo

Eleição de 1989. Um grandíssimo amigo era alto executivo de uma multinacional. Um homem bom, especialmente bom, mas um homem do sistema. Víamos o mundo por óticas diferenciadas. Por ocasião da eleição de 89, antes de participar de um comício de Lula e por ele optar, o meu primeiro candidato foi Roberto Freire, do Partido Comunista Brasileiro, grande orador, de esquerda, com um discurso totalmente identificado com meus ideais, daqueles em que “comunista tem que comunistar”. Tudo o que eu queria para dar meu voto!
Pois bem: haveria um churrasco no conhecido campinho de pelada Polytheama, de Chico Buarque, lá na Barra, para arrecadar fundos para Freire (que, aliás, hoje é um conservador de primeira!). Eu comprei alguns ingressos, não só pelo compromisso de ajudar como também para participar do evento na casa do meu grande ídolo, o que, por certo, haveria de ser bastante interessante. No entanto, para meu azar, os meus amigos que eu imaginava poderem ir comigo, cada qual estava com algum programa para o dia, e não obtive sucesso. Vários telefonemas foram dados e nada: todos ocupados. Seria num sábado e cada qual já tinha sua programação, desde viagens a comícios domésticos e encontros amorosos, essas coisas de quem está por aí, como o próprio poeta peladeiro nos ensina de “estar à toa na vida”...
Mesmo sabendo de minhas diferenças ideológicas com meu amigo, resolvo apelar para ele. Quem sabe não topava? Até porque havia o glamour de ser na casa do grande compositor, quem sabe conhecer Marieta, e isso seria, imaginava eu, um ponto e tanto a favor de sua aceitação e de sua mulher para querer aceitar. Minha consciência ética, porém, me impediu de simplesmente convidá-los sem maiores explicações. Tanto ele teria que saber que sua presença significaria doação para a campanha de um comunista, como, do ponto de vista do próprio Partido, seria respeitoso levar alguém que soubesse o significado político do campo (de futebol e da política) a ser visitado.
Que fiz eu? Antes propriamente de explicar do que se tratava, ao telefone, como arremedo de intróito, premissa mesmo, ao que viria em seguida – o convite propriamente para irmos ao tal churrasco – eu indaguei: “Meu amigo, vc tem como fazer de conta que é comunista mais ou menos durante umas cinco horas?” Ele parou por uma fração de segundos e me devolveu, sem titubear: “Cinco horas, Carmen Lucia? Cinco? Não, querida, é tempo demais!”
E por aí ficou a minha possibilidade de ir com o casal ao tal churrasco. O jeito foi correr atrás de outro alguém para dividir os ingressos já adquiridos.
O churrasco foi um horror, aquele avanço atrás das carnes parcas que se distribuía num canto do terreno, obrigando-me a ir com o meu acompanhante – conseguido a duras penas - almoçar num restaurante ali por perto. Mas as pernas do dono da casa valeram a pena de serem vistas em sua habilidade de jogador correndo em campo para marcar seus gols. Que nem sei se aconteceram. Isso era detalhe. Vi o processo (as perninhas), não o resultado (onde elas chegaram e com qual força). Coisas de educadora que valoriza o caminhar, sem se deter exclusivamente no final do percurso.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Resultado de imagem para incêndio em Paraisópolis



NOTÍCIAS
2/3/2017
Ontem, mais um incêndio destruiu mais uma comunidade popular em São Paulo. Desta vez, uma enormidade de atingidos de Paraisópolis, cujas casas foram destruídas sob as câmeras da TV, como mórbido espetáculo, totalmente naturalizado. A NOTÍCIA tem mesmo compromisso é com a Imprensa como negócio. Atenção a pobre perdendo suas histórias e pertences não dá camisa a ninguém. Não é assim mesmo que o enredo sugere que seja? Qual a surpresa? São ruelas, sem acesso a serviços, caminhão de bombeiro não entra mesmo... E só noticiar mesmo para mais uma vez ficar evidente como este povo é ignorante e teimoso, querem o que da vida?
Importante notar que tragédias que envolvam as camadas médias (Boite Kiss, Carnaval do Rio com acidentes) costumam gerar, pelo menos para dar alguma satisfação à opinião pública, protocolos para que não voltem a acontecer. Mas com favelas - nem isso. É esperar o próximo incêndio. É natural que venha, mais dia, menos dia.
O de ontem foi em plena quarta-feira de cinzas. Dia em que, não raro, uns e outros - de fora da favela, podem ter tido outro tipo de "problema": um mal estar, uma enxaqueca, totalmente previsível, para quem se excedeu muito além da conta bebendo algum whisky - dos bons -, só que além do limite. Esse, o do whisky, faz um pequeno resguardo, tira uma soneca no dia seguinte, e está novo em folha para outra experiência em sua vida de quem gosta de whisky. Já o que perdeu a casa, procura um primo que mora numa outra favela que não pegou fogo (ainda), usa e abusa de sua hospitalidade por um dias, e só depois vai ver como recompor sua história, sua vida, contando com a sua força de trabalho para voltar à estaca zero. E faz isso, levando uma cesta básica que acaba de receber da prefeitura, fornecida por alguma empresa que, sabe-se lá a que preço, ganhou a licitação para a prestação de tal serviço.
Está tudo certo. Nada a reclamar. É como diz um conhecido senhor que conheci, egoísta que só ele, que, quando não quer se aprofundar em algum assunto que o questione, dá de banda e diz apenas: "vamos em frente que atrás bem gente". Ou em termos similares: e segue o baile porque este é o jogo e seus personagens no cenário em que vivem uns e outros.
Idiota foi quem inventou de colocar o nome de Paraisópolis num lugar que de Paraíso não tem nada. Aliás, fogo, pelo que nos ensinam por aí combina bem mais é com inferno.


quarta-feira, 1 de março de 2017


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A VIDA DEPOIS DA MORTE
(Assunto nada carnavalesco)
1/3/2017)

A grande amiga fala de perda, de luto, de tempo de tristeza que não passa diante do término da vida de irmãos queridos.
A outra, em resposta – ao me ver afirmar, de maneira inconformada , que as perdas são irreparáveis e que a gente segue o caminho, mas o buraco fica cavado, cravado –  diz que dá pra gente ser feliz com o que se tem. E eu leio que para ela cada qual tem como se ajeitar emocionalmente apesar das perdas. O que fica, resolve, e não há de faltar combustível para fazer o barco de cada qual seguir viagem. Que se siga com as sobras. Que cada qual se refestele com o que se tem. Nada é imprescindível. Tudo pode ser esquecido.  Leio e me inquieto. Leio e me sinto sozinha. Leio e me estranho: por que em mim a dor não passa?
Verdade nua e crua: eu, que choro por muitos tipos de perda, fico cá tentando entender porque comigo as dores, algumas delas, são tão irremediáveis e doloridas. Dores que vêm o relógio passar e zomba de sua pretensão de se imaginar como amenizador de todos os lutos. A julgar pelo comportamento que tradicionalmente me compõe, percebo meu gosto por rir, mas o choro está apenas – quando está – escondido por trás de alguma ação ilusória trazida pelo cotidiano. Sou triste, a tristeza é meu estado costumeiro, principalmente quando estou só.
Não sei se me faço entender, pois sou também uma pessoa que ri do pó de café derramar sobre a pia pela manhã e (quase) nunca a minha reação é marcado pela soberba falta de paciência com os acidentes do cotidiano. Olhando a vida, sempre encontro seu lado meio escondido mas que tem algo lúdico que me faz rir. Mas, sou triste. As perdas têm uma presença sólida em minha vida. Têm vida própria. Algumas até me dão bom dia, surgindo, autônomas, sem serem chamadas, como imagens inaugurais de cada novo dia, quando retorno à consciência após uma noite de sono. E não falo apenas das perdas que assim se tornaram por ação da morte que fez com que desaparecessem para sempre. Essas constituem uma realidade inquestionável. Pessoas que não existem mais simplesmente não existem mais. Foram amores que, pela morte foram retiradas de nosso convívio e deixaram de enfeitar nossa vida. Grande perversidade, podemos pensar, mas para quem entende desde sempre a inevitabilidade do término da vida, o que fazer? Nada, acredito, a não ser chorar a ausência, relembrar, ter saudade. Não que seja simples. Não é. De modo algum é. Mas, o fato de ser uma ausência por morte nos reduz de uma certa forma a aflição, a dor, o luto. A morte, toda poderosa, encerrou aquela vida. Não depende nem de mim nem da pessoa escolhida para morrer o fato de não estarmos mais vivendo o nosso convívio. O ciclo de vida de alguém ser encerrado faz parte do jogo da vida. Dele ninguém escapa. Trata-se de uma dor sobre a qual não tive poder de evitar. O script era aquele, e foi cumprido.
A ausência que mais me derrota e traz agonia é a morte em vida. A morte de quem está vivo é que para mim é devastadora. A pessoa ali, viva, e não estar mais comigo, não fazer mais parte de minha vida, essa me sufoca, me ameaça, me fragiliza. A pessoa que é alvo de meu amor e que morreu para mim -  esse é o fantasma ameaçador e doentio.
Como lidar com uma verdade que deixou de ser verdade? Como ter o necessário equilíbrio para não considerar mentira o que um dia foi verdade? Como atribuir um tempo certo a alguma sentimento que se imaginou perene e sincero? Um sentimento que durante um tempo foi verdade, não deixou de ser verdade, mas o foi com prazo de validade? Como suportar o término de algo que nos fazia melhores, mais completos, mesmo que com percalços e algumas dificuldades? Entre as grandes aflições, as de médio porte e as menorezinhas, poderíamos ter sabido escolher com maior senso quanto ao tamanho das coisas e às nossas forças em a elas resistir sem esmorecer.

A morte em vida é que são elas...