segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Carmen Lucia Pessanha

QUE DOENÇA É ESTA?
(Escrito em 11/12/2016)
Eu me lembro bem de quando em debates com colegas sobre a maneira como o jornal é construído, eu dar ênfase numa questão bem simples, corriqueira: quando o jornal escolhe uma manchete, é porque todas as demais notícias foram deixadas de lado como não merecedoras de tal condição. É escolha ideológica. Não é fruto do acaso.
Aqui também, cada um de nós, mostra de si com suas escolhas. Rabugenta, fico aqui a me intrometer nas falas postas em rede...
Daí a necessidade de dizer que não sei como compreender o fato de uma pessoa, diante da lista de governantes denunciados, agora às claras, sem dar mais para esconder a fantástica e desmedida ladroagem que precede os governos do PT, no dia de hoje escolher como manchete de sua postagem as figuras de Lula e seu filho. Silêncio em relação a todos, pau no nordestino. Pô, até hoje, povo de Deus?
Por que a insistência, meus amigos? Qual o problema de expandir um pouquinho o olhar e falar de Temer e de seus amiguinhos, ministros e amigos, recebedores de propinas as mais milionárias?
Qual é o horror que Lula provoca que faz com que as pessoas não desistam dele?
Cá com meus botões e cismas, especulo que não é Lula o alvo, é o que ele representa, é a contrariedade, o inconformismo pela chance que ele, muito menos do que o necessário, deu àqueles que sempre foram esquecidos pela sorte. O mundo girou sempre contra eles, por que mudar?
O danado conciliou como pôde, não deixou de dar asas aos banqueiros e construtores, mordeu e assoprou como pôde, mas não tem escapatória. Só pelo fato de dar alguma chance para os mais humildes, é o alvo preferencial de inúmeros brasileiros, como merecedor de ataques.
Sinceramente, tendo nomes como todos os que aí estão na lista da Odebrecht, a pessoa deixar de lado todo o bando - e que bando!; e com quais qualificações! - e insistir em falar de Lula, chega a ser ridículo. Parece uma fobia, algo a merecer algo mais do que um simples comentário como este meu. Sei lá, mas parece que o caso é pra especialista. Dou conta, não!

ESCAMBOS DE ESPERANÇAS
(Escrito em 12/12/2016)
Minha querida amiga, especial como ela só, Cecilia Goulart, nos traz Quintana falando da fuga de casa de Tolstói, aos 80 anos, o que acaba por levá-lo à morte. A beleza tão crua do que diz - "não são todos que realizam os velhos sonhos da infância" - é retumbante. Sonhos são imortais. E podem ou não ser frustrados ou postos em vida em qualquer tempo.
A fala do amigo na conversinha virtual do amanhecer falando do sofrimento que no momento acolhe sua família também ecoa fundo em minha alma.
A minha agenda do dia, quando terei que me defrontar com a solução de uma situação insolucionável, também me abate e faz engolir em seco, cavando da garganta ressequida alguma saliva que me ajude a engolir o dia e suas aflições.
Tempos sombrios, lá e cá, antes e agora. O ano que termina sem trazer, como de hábito, uma certa esperança quanto ao que virá. Pelo contrário.
Mas o mundo não é só buracos sem fundo. Ele tem janelas, e nem todas estão emperradas. Algumas se deixam abrir. Da minha, vejo a natureza me saudando solidária, presente, realimentadora. Em sua natureza de natureza viva, desde que a ela fui apresentada, me empurra da cama, me traz aqui e me leva a carmear meus nós.

Nada como um bom escambo de esperanças entre humanos amigos para nos fazer resistir e dar os passos de que precisamos para corrigir traçados e aflições.
Na foto, um momento em que estive postada no chão para um registro. Um momento apenas...

DIZER PRAIANO
(Escrito em 12/12/2015)
O muro é clarinho, clarinho, quase juro ser branco, caiado, como costuma ser por lá. Pro meu gosto, meio alto demais, já que nada permite ver do que lhe vai por dentro. Sem alternativa no âmbito da objetividade, do preto no branco, do que é visto por fora, dou de imaginar. Por trás dele, do muro, o quê? É como vício: começo a ver do visível. O que mostra dá chance de começar a ver? Muito bem. Não dá? Invento. Uma piscina, como muitos, esquecidos das maravilhas do banho de mar, andam fazendo por lá por Atafoninha? Um tanto de grama ou aquele delicioso tapete do praiano "mineirinho" se fazendo de gramado, e ótimo? Ha, já sei, aquela varanda com uma rede velhusca meio abandonada pelos donos que tardam mais do que o razoável a vir até aqui aproveitar das delícias dessa praia e de seus encantos? Ou não, não é nada disso, e é o costumeiro punhado de papoulas gigantes, em ala, encostadinho no muro ocultador, flores que tanto aprecio, maiores que minhas mãos abertas quando as coloco em exercício contra artrose? ... Ou...
Vá saber... De concreto, só fica mesmo a parede alta e clara. Mas, como a me cutucar para me fazer pensar por outro ângulo, já que por dentro dele nada consigo vislumbrar, leio a frase, escrita nele mesmo, por fora, frase com total sentido, escrita com letras bem escuras, a me provocar pensamentos e suposições as mais estapafúrdias: "CONVICÇÕES SÃO CÁRCERES." E, com ela, abre-se para mim o caminho de hipóteses, análises, questões, indagações, entendimentos e arrepios... O lado de dentro perdeu prioridade. O que está à vista já dá o que viver.
Desta vez, além do mar verde-cana num dia e dourado no outro, além do conforto espiritual pelas conversas com pessoas que amo profundamente, além dos prazeres da boa mesa e da boa cama, a minha Atafona vem comigo de volta pra casa, em dizeres a serem pensados e repensados à luz das crenças e entendimentos de uma vida inteira.
CONVICÇÕES SÃO CÁRCERES?

terça-feira, 29 de novembro de 2016


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CONVERSINHA ALHEIA
(Escrito em 28/11/2016)
No ônibus, caio na besteira - costumeira, bem sei, sou reincidente - de escutar conversa alheia. De mim pra mim mesma, tento me prevenir de que aquilo não iria dar certo - serviria apenas pra cronicar, tudo bem, mas traria junto alguma aporrinhação. Vou ouvir, não vou poder me metidar (como dizia Mari em pequena), vou acabar tomando contato com o que não quero e ficar sem poder dar vazão às "minhas certezas" (Ah, como as tenho!). Mas, não teve jeito, não abri o livro que levava e, curiosa, sonsa, com cara de paisagem, vi que algo interessante vinha da poltrona de trás...
Isto mesmo, o papo ia animado entre duas senhoras e não deu outra: a da esquerda, lá pelas tantas, após reclamar bastante da vida e do Brasil, vira-se para a outra, do lado, e se sai com esta "... é, eu creio mesmo que acabamos trocando seis por meia dúzia tirando Dilma da presidência."
Flechada no coração! Ai, que dor!
Era isso mesmo, a presidente Dilma sendo comparada com o "profissa" temer, o qual, dia destes, só pra lembrar seu estilo e valores, elogiou o Geddel como excelente político? Em que matemática corrompida Dilma pode equivaler a um Temer? Que erro de cálculo é esse? Se essa criatura projeta um prédio, ele cai por erro crasso na quantificação dos materiais de sustentação.
Claro!, comigo também não deu outra: primeira pontada no peito, primeira agonia pelo silêncio forçado a ser providenciado, primeira - e forte - impaciência. Juro que forço minha natureza para ser tolerante, compreensiva, bondosa e tudo o mais ligado às boas normas de um convívio domesticado e preservador de sorrisos, mesmo que amarelados diante dos outros. Mas, sou fraca. Nem sempre dou conta da tarefa.
Fiquei tão embasbacada que ensurdeci. Sei apenas que a outra moça fez silêncio. Mas não sei qual silêncio, se acompanhado de qual gesto ou trejeito facial... A história parou por aí. Entreguei-me a mim mesma e às minhas conjecturas.
Pior pra mim. Castigo. Será que um dia aprendo? Por que não abri o livro e me dei ao prazer de com ele me abster do que vai ao redor? Quem sabe até me emocionar com o que diz Freud sobre os sonhos e esquecer esta mania de antropóloga de meia tigela, bisbilhoteira, isso sim, que fica, em tudo e por tudo, querendo extrair a dimensão política e estratégias que façam avançar a transformação social...?






MEU BOM LUGAR
(Escrito em 28/11/2016 – no dia seguinte do almoço na casa de Claudia e Helinho, no Rio)
Particularmente para todos os integrantes da DELBONZADA e muito especialmente para Claudia Barros Delbons que foi a responsável por nosso encontro de ontem - pessoa em quem me espelho em minha vontade de ser melhor: insuperável em sua arte, generosa ao extremo, bonita no sentido mais amplo do termo.
Com esta família aprendo cada dia com maior emoção o sentido de FRATERNIDADE como um bem valioso, aprimorador de minha humanidade. Não no sentido alienado de família que se fecha e só seus membros são os eleitos. Nem no sentido de uma juntada de pessoas iguais, carregadas de afinidades e por isso acarinhadas entre si. Família, SIM, no sentido de sermos amorosos em virtude de nossas parecenças e apesar de nossas diferenças. Família que secundariza qualquer dessemelhança e aposta no afeto, no toque, na atenção, na fraternidade. O que vale é o amor que nos une. Este é o valor maior. Nada mais importa.
Minha adorada irmã dindinha Nilza e meu saudoso cunhado Helio Delbons puseram no mundo uma prole adorável que vem agregando outras pessoas iluminadas que, por sua vez, vem-se desdobrando em pessoinhas do bem, que se juntam a outras que de modo idêntico vão-se tornando amigas e gostando da alegria que temos conosco ao nos encontrar. Só de gente bem miúda hoje temos 7 lindas criaturinhas que ontem alegraram o ambiente. Houve até estacionamento improvisado de carrinho de bebê à porta do apartamento.
Tenho orgulho de ser a "matriarca" deste grupo de pessoas tão incríveis. Um Natal antecipado de trocas afetivas das mais saborosas. Eu, de minha parte, à moda de papai, alisei cada um, afaguei rostos e deles todos recebi, como de praxe, afagos e mais afagos que hoje estão aqui comigo me sustentando na semana que se abre.

NOVO EMPREENDIMENTO ACEITA SÓCIOS! CORRAM QUE O NEGÓCIO É BOM!
(Necessária explicação prévia: este texto - cinismo no mais elevado grau - foi escrito em 2013. Hoje, 2015, o encontrei e creio ser adequado ao momento. Estarei enganada?)


(Escrito em 29/11/2013)
É, não tem jeito mesmo, é começar a ler os jornais do dia e ver brotar a mais agoniada das agonias, não só pelos fatos narrados como por sua interpretação estampada nas páginas do diário. Algo tem que ser feito senão o coração explode! Uma ação política precisa ser empreendida com urgência! Senão, é desistir, e nunca é o caso de desistir, concordam?
Buscar a alienação de tudo, criando uma igreja, e ainda aproveitar dos benefícios fiscais de que gozam, inaugurando mais uma das dezenas delas que vejo aqui perto de casa, não entusiasma o coração. Nem coça o coração, tal possibilidade só surge mesmo, jocosamente, para dar início a este texto. Essa não é mesmo minha praia, nem se fosse a Igreja da Homenagem Eterna a Irmã Zilda, única freira de quem me recordo com profunda emoção quando me lembro dos tempos do Auxiliadora. Nem essa igreja não dá.
Qual saída, então? Há de haver! Só lutar com as palavras é pouco, pouco demais! Ah, já sei, vou entrar na onda das ONGs e terceirizações e criarei uma empresa pronta para fazer agitações sociais, diante dos absurdos do cotidiano. Reunirei todos os antigos militantes do movimento sindical e do sonho de se construir a sonhada sociedade dos iguais e lá iremos nós. A turma está mesmo quase toda aposentada, com tempo, e, claro!, com ainda caudalosas doses da mesma esperança, e lá iremos nós. Anunciamos aqui mesmo no Face e, pronto, iremos à luta.
Qual é o problema? Menina estuprada no Leblon? É só ligar que a gente vai pra lá. Ou é dar força ao governo argentino contra o El Clarin? Também topamos. O sucesso vai ser tão grande que dará até para uma viagenzinha a Buenos Aires, de quebra, o que é ótimo, porque militante agitador também tem bom gosto... Também podemos ir até são Gonçalo protestar contar a comida podre oferecida aos moradores do Bumba, ainda sem nenhuma proteção, acolhidos num Batalhão da Polícia... ou... ou...
Vida torta à procura de solução é que não falta. E uma EMPRESA DE AGITAÇÃO E PROTESTO pode ser uma boa. Agitação é conosco mesmo! Eu, que sou boa de escrita, até produzo panfletos. E veementes!
Vamos lá, companheiros? Estou aceitando sócios. O negócio é garantido! A vida nos contratará, com certeza. Se a rua murchou e se tudo está cada vez mais aviltante, vamos ganhar dinheiro com isso. Ou nascemos mesmo para sermos gauche na vida e nem para isso o capitalismo vai nos beneficiar? Será?


domingo, 27 de novembro de 2016

Pra Uzinha
(Escrito em 27/11/2014)

Campos, em uma semana, a segunda vinda. O fim das coisas. O fim das histórias. O fim das pessoas. Este, sim, o que traz a marca do fim derradeiro e corrosivo. As coisas que findam abrem frestas para o que virá. As histórias, por sua vez, quando esgotadas e sugadas até o último caldo, já grosso de tantos resíduos esparramados no fundo da alma, libertam aquele que as sonhou diversas do real. Ah, mas o fim das pessoas amadas, ah, esse, sim, sempre escurece o olhar, recolhe a alegria e deixa dolorido o corpo que pressente tempos de saudade.
Minha irmã, aquiete-se! Desfranza a testa. Durma em paz. Sonhe com todas as boas obras que você espalhou em sua vida. E, sem alarde, até mesmo por sua conhecida timidez. A sua imagem e a sua história são muito maiores do que o seu corpo miúdo que dormitava, cansado, hoje, naquela cama de hospital.
Até amanhã!