sexta-feira, 6 de janeiro de 2017


Voltando pra casa
(Escrito em 4/1/2017)

Nem vou falar dos chamegos que me cobrem lá em Atafona... Isso não dá pra contar com fidelidade. É coisa de sentir, sem chance de ser descrita. Faltaria algum ingrediente para a narrativa, caso eu tentasse e nem ouso.
Quanto à energia absorvida em cada mergulho nas suas águas mágicas e tíbias, também me vejo impossibilitada de a ela ser fiel, sem reduções imperdoáveis. Com que palavras daria conta do grito que solto com os braços estendidos em direção ao sol, antes de submergir entre as ondas que se sucedem à minha frente?
Falo, então, dos prazeres que as palavras nao conseguem trair: do caranguejo, da leitoa, do bombocado, da fatia Lulu, do bolo de Zezé de Adriana, do bobó de camarão, da manteiga sanjoanense, da tâmara fresca, do abacaxi, do feijão de Ana Paula, do robalo assado...
Ah, Niterói, minha cidade de adoção, o que vou ter inventar para expurgar os excessos que meus olhos, excessivamente maiores que minha boca, me levaram a cometer?
Mamãe, socorro! Zele por mim!

EXTERMÍNIO EM MASSA

SOBRE AS CONDIÇÕES SUB-HUMANAS DE NOSSOS PRESÍDIOS
(ESCRITO EM 5/1/2017)

Acabo de ouvir o fora temer dizer na TV que a responsabilidade não é do governo, já que é serviço privatizado. Ou seja, além de servirem aos interesses do Capital privado, os pulhas, cúmplices das negociatas, ainda tentam formar a opinião de que não é de sua alçada o desperdício, o superfaturamento, o crime.

Povo brasileiro, falta o que acontecer para sairmos da inércia? Mas que pergunta idiota a minha! Quem morreu foram pobres miseráveis. Quem vai se importar? Estou chegando a considerar que o terrorismo é mais democrático - mata indiscriminadamente. Ai, suas ações tornam-se manchetes no mundo inteiro.É o mesmo espírito quando se trata do pagamento dos servidores estaduais. Se fossem bancos ou empresários de qualquer outro setor, o governo já teria providenciado alguma solução.Eu vou é buscar a minha cesta básica na sede do SEPE. Tive muitas dúvidas em fazê-lo, mas me convenci de que não podemos deixar de tomar tal providência. Nada deve escamotear o ponto a que o ESTADO BRASILEIRO nos fez chegar. Estamos totalmente desprotegidos. Somente de nossas mãos podem surgir saídas.

Canícula simbólica e abrasante
(Escrito em 6/1/2017)

"Se os governadores não construírem
escolas, em 20 anos faltará dinheiro
para construir presídios." (Darcy Ribeiro)

E segue o baile com o golpísta-chefe propondo mais cadeias. Mas por que vamos estranhar? A quem se destinam essas prisões? A quem? Hein? Isso mesmo! Aos desvalidos da sorte, àqueles que na escala da meritocracia oficial e tida como adequada pelo poder dominante não conseguem alcançar nem os primeiros degraus lááááááá de baixo. Então, com minha ironia habitual, posso afirmar que podem todos dormir sossegados: a lógica está intacta - aos pobres, a falta de oportunidades; e aos donos do mundo a entrega de nossas oportunidades de crescer e de nos tornarmos dignos diante de nós mesmos, sem servilismo ao Capital internacional.

E viva Trump que vem aí! Tudo vai se aperfeiçoar com seu estímulo e liderança! O mundo tombando para a direita, para o acirramento da desigualdade, para a morte de inocentes, para os interesses econômicos subjacentes às lutas religiosas, para a educação bifurcada (para quem tem "berço", tudo; para quem não tem, o agravamento do sempre recorrente reducionismo), para a morte, por inanição, da esperança...

O calor insuportável não é nada mais, nada menos do que o inferno simbólico para quem quer um mundo cálido, ameno e respirável.
IRMANDADE FORÇADA?
(Escrito em 6/01/2017)
Sou otimista. Fico a pensar que tudo quanto é acontecimento sempre pode ter ou tem mesmo uma dimensão diversa daquela que é a primeira impressão que se pode ter sobre ele. Daí, me indagar pra dentro de minha própria esperança: não será possível que as pessoas da chamada classe média - sem pagamento e se "sujeitando" a receber cestas básicas como ajuda humanitária para a sua sobrevivência - possam se sentir mais próximas daqueles que são costumeiros usuários desse tipo de generosidade que habitualmente é prestada aos mais necessitados? Já pensaram se esses novos "humilhados" se irmanarem aos tradicionais beneficiários das políticas sociais? Já até vislumbro o afrouxamento daquele discurso que vez por outra eu escuto de que "onde já se viu eu não ter aumento e quem nunca trabalhou ter aumento no bolsa-família"? Será? Papa Francisco nos proteja e oriente! Irmã Zilda, cadê os bons fluidos do seu terço compridão amarrado na cintura? Moacyr (de Góes), coloca aí a sua bondade a favor de novos tempos, querido amigo!
Essa seria, pra mim, a mais bem-vinda limonada que poderia surgir - e por ação de nossas próprias mãos - dos limões apodrecidos que estão caindo aos montes do que resta dos velhos limoeiros de nossos pomares ressequidos.

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O fim, a sua determinação e a responsabilidade por ele
(Escrito em 6/01/2015)
Aqui do lado de fora da janela, pendendo do beiral, há uma aranha, bem graúda, que sobe e desce e, ao que tudo indica, a cada dia com uma base de sustentação mais e mais tecida e ampliada e que, com sinceridade,até onde irá, não sei. A distância que ela mantém de mim ainda me permite deixá-la a salvo e conviver com o medo e a repulsa que, por certo, estivesse mais à mão, me tomariam por completo, obrigando-me a tomar alguma decisão, além desta de simplesmente olhar e conferir seu trajeto e potência, a cada manhã, quando sento para escrever bem pertinho do local de onde se dependura, altiva e alheia a meus temores e expectativas. Vamos as duas nos equilibrando em nossas próprias teias, ela no seu bordado escuro que a traz cada vez mais para perto das plantas que enfeitam o canteiro à beira da janela; eu, com meu sorriso agradecido, com meus medos, coragens, dúvidas, alegrias, e tudo o mais que aranhas e outros bichos - o meu mesmo, sempre irrequieto e sonhador - provocam ao meu existir, individual e coletivo.
Os processos são deste jeito: sabe-se lá por qual motivo têm início, porque avançam na direção que avançam, por que se encerram, à luz de nossos tímidos ou agressivos empurrões a lhes conduzir o trajeto... E mesmo por que deixam rastros mais ou menos sanguinolentos quando dão por findada a sua construção.
Quem determina o que vai sucedendo neste mundo instável e surpreendente no qual, só para citar um exemplo, num desastre morrem 11 e os demais são poupados do término de sua vida naquela circunstância? Quem bate o poderoso martelo que crava o que acontecerá, ali, naquele segundo definidor da vida ou da morte? Ou do quer que seja?
Será Deus, ou seja como chamemos uma suposta força superior, que dá as ordens para que os destinos se cumpram de um jeito ou de outro?
Será a Física, a Ciência mesma, em sua magnitude, com sua conexões que determinam as razões de os fatos se processarem de um jeito ou não de outro?
Ou o acaso, a ausência de causas aparentes ou controláveis, incapazes de serem previstas?
A teia da aranha dá o que pensar. Enquanto ela é tecida, algumas vidas estão sendo levadas até onde não se sabe. E nem por quê. Ou para quê. A aranha se movimenta e avança. E quem não tem mais o seu vigor construtivo? Espera o mando derradeiro, venha ele de onde vier?
Quem observa que se reduza, calada, a sua insignificância...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

INADEQUAÇÃO
(Escrito em 21/12/2016)
Está na esquina, quase chegando à nossa casa, entrando pela fresta que encontrar aberta. Bem que eu me assegurei de que portas e janelas estivessem escancaradas, até mesmo aquela porta pirracenta, lá no quarto pequeno, que às vezes arranha o chão para se abrir de vez, até ela eu forcei para estar em estado de entrega total, simbolicamente de braços abertos e receptivos para a chegada do sentimento renovador comum aos dezembros que já vivi até aqui.
Mas, nada, nada provoca o efeito desejado. Por mais que estimule, de dentro de mim, a saída de algum vestígio de sentimento de boa-vontade, de fé no que virá, de um ansiado e milagreiro entusiasmo para a renovação que costuma impregnar os corações com a passagem do ano, nada se move na direção do abraço de boas vindas à "novidade". Desconfio de que tracei estratégias apenas no nível objetivo, sobre o que racionalmente tenho controle. Na alma mesma, naquilo que genuinamente brota, as portas estão cerradas pela descrença e inaceitação do absurdo em que vem-se transformando a existência no Planeta. Lá longe e aqui no quintal de casa. Mesa posta,sim, mas falta de ganas de aprontar o ajantarado.
Mas, tenho bom coração. Ou pelo menos é no seu lado menos azedo em que tenho investido. Vou então insistir. Não mexerei na arrumação do aconchego que tento promover. Tudo permanecerá intacto e em estado de alerta. Mas, sei não, me parece que o que dará mesmo pra fazer será ficar recolhida com as crias, Mari no meu colo entregue ao meu cafuné, Martin a lançar mais uma de suas frases irreverentes e provocadoras do nosso riso, Mido a me chamar de “sogrita” com todo o afeto do mundo, Luna a iluminar meu semblante só pelo fato de chegar aqui; e eu a ficar um pontinho acima pelo prazer do vinho e da simplicidade destes momentos a quatro... Fora isso, o trivial simples, para mim sempre recebido como um manjar dos deuses: estar com as pessoas queridas e a elas dizer de bem recíproco que nosso amor nos traz; receber como benção da vida as graças que a natureza e a amizade vêm nos trazendo através do tempo; e, para culminar, na noite de Natal, cantar Parabéns para Jesus, como quando fazia quando os filhos eram crianças. Vamos ver se consigo. Nada além. É o que consigo ter pra hoje.

sábado, 17 de dezembro de 2016

OBJETIVIDADE CONTRARIADA
(Escrito em 17/12/2016)

Eu já conferi pra lá de meia dúzia de vezes e é isto mesmo, meus pés estão assentados no chão. Nem foi informação de terceiros, eu mesma vi, de óculos de leitura e tudo. Um par de pés no assoalho do quarto. Os meus.
O coração, e bem ritmado, sem nenhuma extrassístole, também é notado. Ritmo normal, nem vestígio de qualquer palpitação daquelas dos meus idos tempos de fumante.
Olhos conferindo em torno, tudo conforme esperado - cada coisa em seu lugar, mesmo o livro que não consigo dar por terminado e o retrato do antigo amor, ambos na cabeceira, dormitando. Ok.
A aparência do quarto é toda ela mesma. Nem o filme do Chico que ganhei de Silvia Silvia Pedreira e o CD da Marisa Monte que acabei de ouvir se fizeram de rogados e se abstraíram, estão ali, como previsto, calados e fiéis perto do som.
Creio mesmo que continuasse a vasculhar o que vai em torno, detalhe por detalhe, não teria surpresas. Tudo está em seu lugar.


... A única ausente, escondida, amorfa, invisível, distante, sou eu mesma, consumida pelos ecos de meus sentires...



 
Eu e meu amor.