EU E ELA
(escrito no dia 21 de novembro de 2014, publicado hoje, sem retoques)
E não é que eu gosto dessa senhora aí embaixo? Hoje eu a encaro olho no olho. Ali, ó, em pé de igualdade. Nem um milímetro a mais nem a menos. E isso é melhor do que um copo de água bem gelada numa tarde de verão, do que algumas taças de um bom vinho francês num inverno de poucos graus e do que o olhar apaixonado do homem a quem eu também amei "a moda Vinícius de Moraes"... (Aqui, acho que exagerei um tantinho... é melhor dar uma reduzida, deve mesmo ser pau a pau...). A Literatura não pode fugir tanto assim do real concreto!
Um dia desses vi Maria Rita dizendo que no palco ela é um bicho, ela é a dona do pedaço, ela é dominada por ela mesma em sua potência interior, mas que basta dele descer (hoje bem menos, felizmente!) que imediatamente cada pessoa que dela se aproxima cresce, obrigando-a a olhar para o alto para "enfrentar" seu interlocutor. Filme batido esse para mim. Mais velho, visto e revisto que Shane, com Allan Laad, na estreia do Cine Goitacá. Hoje estou saindo dos meus próprios porões e gostando de minha nova dimensão: à altura dos transeuntes que surgem daqui e dali, desde os mais remotos tempos de minha curta-extensa vida. Muito luto e intensa luta pelo caminho: ídolos desmoronados e enfim reconhecidos em suas fraquezas antes não captadas (afinal de contas, o Poema em Linha Reta inicialmente era apenas a mim dedicado!).
Seu sorriso cada vez me traz mais para perto de mim mesma, Dona Carmen! A senhora tem defeitos a dar com pau: exigente, sonhadora, impulsiva, marcada muito mais por incertezas do que por respostas prontas e inteligentes, implicante em demasia (gente vaidosa, por exemplo, logo sofre com sua rejeição), só para ficar nos mais visíveis a olho nu... Mas, minha senhora, como gosto de observar atenta esse seu sorriso de quem ainda crê - em si própria e no outro - por mais que haja pedras e decepções pelo caminho. Na vida é possível dizer não, por mais que o sim surja quase como uma resposta automática.
Viram? Mais um defeito: a vaidade. E paro por aqui, antes que comece a achar essa simpática senhora uma boba pretensiosa sem tamanho... Eu a conheço: depende do lado da gangorra em que ela está no momento.
Aqui há palavras que vão de mim para o mundo, esperando que voltem recriadas, junto a tantas outras, construídas por quem quiser compartilhar este espaço. Entendo ser este um ninho verbal, cujos galhos-palavras podem e devem acolher sentimentos, saberes, expectativas, percursos. O nome? Vem de CARMEAR, “ação de desfazer nós”. Caminhemos, pois. Carmeando.
sábado, 21 de novembro de 2015
PARA ESCREVER, VALE QUALQUER ESPECULAÇÃO...
(Escrito em agosto de 2014, reencontrado hoje,21 de novembro de 2015, quando fiz alguns acréscimos. )
Um antigo companheiro, ao ver que tenho afixada no armário do escritório a frase "Olhei a cidade de cima e nem assim encontrei o meu lugar", me acarinhou com olhos de bem querer e tentou me questionar, achando absurdamente impossível a mulher que ele tanto amava e via como tão especial estar imbuída de tamanha incerteza quanto a si própria e a seu lugar no mundo.
Eu tentei argumentar, creio que ele não conseguiu ntender bem, o fato é que ele virou passado e
a frase ainda está aqui me olhando, num tempo presente mais que perfeito.
Hoje acordo pensando que isso talvez deva vir do tempo em que, menininha ainda, quando estava na Praça São Salvador para pegar o bonde, o meu, o do Caju, ele era o único que seguia no sentido contrário de todos os demais... E era a direção não só lá de casa, como também do cemitério...
(Na foto, nossa casa, já velhinha, quando já não era nossa. Passando por lá, anos depois, fiz o regientender bem - até porque eu sempre fui mais boa ouvinte do que ele, naquele momento e nos anteriores -, o fato é que ele virou passado e a frase ainda está aqui me olhando, num tempo presente mais que perfeito. Aquele tal amor ficou pra trás e o meu desassossego - que muitas vezes me tira o chão e o céu que eu julgava seguros sob meus pés e olhar - permanece: na frase, cada dia mais gasta pelo sol que nela incide e que não me abandona em minha condição de ser farejador da paz e amorosidade.
Hoje acordo pensando que isso talvez deva vir do tempo em que, menininha ainda, quando estava na Praça São Salvador para pegar o bonde, o meu, o do Caju, ele era o único que seguia no sentido contrário de todos os demais... E era a direção não só lá de casa, como também do cemitério...
(Na foto, nossa casa, já velhinha, quando já não era nossa. Passando por lá, anos depois, fiz o regientender bem - até porque eu sempre fui mais boa ouvinte do que ele, naquele momento e nos anteriores -, o fato é que ele virou passado e a frase ainda está aqui me olhando, num tempo presente mais que perfeito. Aquele tal amor ficou pra trás e o meu desassossego - que muitas vezes me tira o chão e o céu que eu julgava seguros sob meus pés e olhar - permanece: na frase, cada dia mais gasta pelo sol que nela incide e que não me abandona em minha condição de ser farejador da paz e amorosidade.
Hoje acordo pensando que isso talvez
deva vir do tempo em que, menininha ainda, quando estava na Praça São Salvador
para pegar o bonde, o meu, o do Caju, ele era o único que seguia no sentido
contrário de todos os demais... E era a direção não só lá de casa, como também
do cemitério... Na verdade, nunca ninguém me falou que aquela não era uma boa direção nem um bom caminho, mas que era estranho sempre dar as costas para tudo o mais, ah, isso era... Sem falar do estranhamento do qual, no seio da família, muito séria, silenciosa e sisuda, eu me vi quase sempre portadora, com o meu caminhar por outras estradas, da Beira Rio em diante, tão diferente dos trilhos sobre os quais dei meus primeiros passos.
Hoje já caminho em sintonia com pais e irmãos - em não dar cheque sem fundo, em gostar de fartura e em ter uma organização mental a toda prova. O poeta tem razão: uma parte de mim é mesmo todo mundo, nesse caso específico, os lá de casa, a outra é vocação para o desbravamento de novas trilhas mesmo - até morrer. E sem ir pra cemitério algum, pois que desejo ser cremada.
(Na foto, nossa casa da Beira Rio, já velhinha,
quando já não era nossa. Passando por lá, anos depois, fiz o registro)
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
O LEITOR, O FILME E A VIDA
O LEITOR, O FILME E A VIDA (*)
O papel cumprido pelo filme O LEITOR para evidenciar a importância de as pessoas saberem ler e escrever vale mais do que muitos discursos, ou aulas e explicações, dadas por quem quer que seja. O impulso que temos é de recomendar com grande entusiasmo que todos possam ir vê-lo com a maior brevidade possível. É pegar um agasalho leve no armário para não sentir frio no cinema (Quer coisa pior?) e procurar no jornal onde está sendo levado e rumar para lá.
Na verdade, para a população letrada fica até difícil imaginar o quanto o analfabetismo reduz a capacidade de viver dignamente para cada ser humano que se vê privado de ler em seu viver cotidiano. Sem decodificar e entender o sentido das palavras, como compreender – e enfrentar – o mundo, dia após dia, compreendendo o sentido das coisas? Desde o nome do ônibus que passa até a bula de um remédio, do bilhete mandado pela professora do filho até a orientação para fazer um simples bolo, sem saber ler, qualquer pessoa tem sua vida dificultada dos menores ao maiores detalhes. Mas nisso, quem lê e vive habitualmente o conforto proporcionado por sua habilidade leitora, nem sempre pode pensar, envolvido com suas próprias circunstâncias de vida. O fato de não se viver a situação, afasta as pessoas de senti-la com maior realismo.
Mas, na sala de cinema, com a evolução da estória que se desenrola na tela, não só sob a forte emoção provocada pela beleza do argumento como diante do magnífico desempenho do casal de atores (no caso do protagonista, tanto jovem quanto já maduro), entre em nossa alma – e com doída crueza – em que pode se tornar um ser humano quando dele é subtraída a possibilidade de ler e escrever.
Nunca esperaríamos de nós mesmas que pudéssemos compreender o horror de um ser humano promover mortes em série, apenas por ignorância. Não se trata, longe de nós!, de justificar tal violência inominável. Insistimos: não se trata disso! Mas, sim, de dizer para quem puder nos ler, que pudemos sentir como a vida de uma pessoa pode ser destroçada por uma ausência tão significativa como a que lhe pode chegar pela palavra escrita. Isso não é tudo na integridade de seu ser, mas como é essencial!!!!
Quem viu o filme, me corrija ou me ensine melhor a vê-lo, por favor.
(*) Escrito em maio de 2009, após assistir ao filme O LEITOR.
(*) Escrito em maio de 2009, após assistir ao filme O LEITOR.
EXERCÍCIO DE BOA VONTADE
Tenho uma conhecida que sempre fala meio dura com o marido e
em quem eu uma certa feita, já dei um puxão de orelha para que fosse mais suave
com ele. Mas ela me corrigiu na hora e eu aprendi para sempre: "Com
algumas pessoas, se a gente é afável, gentil, essa coisa toda, elas vêm com
tudo e tentam nos submeter. Nem todo mundo sabe ser tratado em pé de igualdade.
Homem por mulher, então, logo abusa, com
licença, mas 'monta' na gente... Deixa comigo, que eu sei o que estou
fazendo."
Hoje, um pouco mais cedo, foi dela que me lembrei quando,
molhando as plantas do jardim, feliz da vida, toda borrocada de terra a água,
dei com a minha acácia imperial, que já estava crescidinha, cortada a poucos
centímetros do chão. Um mísero cotoco, com todo um tempo de cultivo jogado por
terra. Foi de chorar! Meses, se não anos, esperando seu florescimento, seu
espichamento a ponto de vir a distribuir seus cachos amarelos pendurados em
beleza e charme, e me deparar com o novo tempo que terei que aguardar para que
ela dê de si à nossa rua seu puro encantamento. Com certos vizinhos mais mal
humorados, chego a pensar que tal engano não sucederia...
Haja reserva de bom humor e consciência de que "tudo
vale a pena se a alma não é pequena" e mais uma dúzia e meia de ditos
populares ou mais elaborados, filosóficos até, para não sucumbir e continuar a
ser gentil com todos, até mesmo na hora de explicar a quem capou o arbusto que
ingenuamente crescia, a diferença entre uma árvore belíssima, que se fazia como
tal, de uma erva daninha que se espalha pelo chão.
Ô, ódio!
Mas, está bem! Já sei! Não sou uma ilha, vou me acalmar e
pacificar meu coração. Isso não é nada. Não é nada mesmo! Nadica de nada!
Pensando melhor, acho que nem aconteceu! Foi ilusão der
ótica.
SOMOS TODOS NINGUÉM, ISSO, SIM!
11 da manhã! Acordar a essa hora é fato raro. Compensação do
corpo para a noite insone diante da televisão e da incessante procura de algo,
até mesmo aqui, algo que me desse alguma sustentação emocional, política,
humana para olhar o horror, com algum instrumento capaz de clarear o primeiro
passo a ser projetado como capaz de superá-lo.
Nunca pensei que a Matemática aprendida no Calomeni, aquelas
operações iniciais mesmo, fossem necessárias para comparações esdrúxulas sobre
o tamanho das desgraças, perdas, mortes. O maior número, a quantidade mais
danosa é a da morte de um Rio ou de pessoas? Animais contam? A relação é de 1
por 1? Ou animal é uma fração ordinária de um ser humano? E um rio, sobre ele o
resultado do desastre deve ser buscado em proporção geométrica? Ou temos que
elevar a alguma potência o número de perdas? Raiz quadradra de quê? Ou de quem?
É caso de somar ou dividir? Multiplicar ou subtrair?
O fato é que ficamos aqui, desatinados, mantendo-nos no
mesmo, como se algo fosse alterar a nossa incapacidade diante do horror. Catar
a notícia de que soubemos mais da morte dos mineiros chilenos do que do povo
mineiro - eu até compartilhei - mas é pura perda de tempo. Ou a hora é de
vermos se valem mais as mortes do Primeiro Mundo, sob os efeitos luminosos da
Torre, ou aquelas que foram acimentadas a ferro e lucro na adorável Mariana em
seu pedaço de menor prestígio? A que nos levam tais cálculos?
Matemática mal aplicada essa! Tal comparação - ou as que
vierem! - não servem pra nada. Perda de
tempo. Distração e desvio de foco! Na melhor das hipóteses (ou na mais ingênua
e enganadora) cumprem apenas o papel de nos iludir de que nosso tempo está
sendo bem empregado, anunciando e disseminando nossa consciência quanto à
perversidade do Capital! Ai, ai, ai... Somos os maiorais! Disseminamos
consciência e informação!
Ledo engano, caros humanos de plantão! Estamos é desprovidos
de trilhas! A lama fez um caminho morto. Duro. As explosões escureceram também
os caminhos pelo ar. Cegueira. Aqui e bem longe.
Bem já aprendi que para caminhar é preciso a incerteza de,
por uma fração de segundos, contar com o apoio de apenas um dos pés no chão.
Mas, sim!, e o que se projeta, o pé revolucionário, o que não me deixa
paralisar, o que ousa e segue, me digam, pelo amor dos homens e de todas as
mulheres: lanço-o em qual direção?
MOMENTO HUMOR
EU E ELES
Podem esbravejar à vontade contra meu vício de dormir com a
televisão ligada: que atrapalha o sono; que provoca alguns desacertos no
encontro do sono REM com o NREM; que perturba a necessidade de o corpo
recuperar as forças para voltar à vida desperta que está por chegar dali a
algumas horas; e tudo o mais que quiserem argumentar para justificar o silêncio
em torno de minha pessoa enquanto durmo. Não adianta! Não percam tempo!
Estivesse a vida, a outra, a de olhos abertos, bastante boa de ser vivida, eu até
poderia pensar no caso e nesse tipo de conselho em prol da dita boa saúde
propalada por todos que dormem sem nada do mundo externo a lhe acompanhar e a
lhe servir, metaforicamente, de cereja do bolo na imensidão da noite faminta de
outras delícias imaginárias. Também não adianta virem com sonos à base de
calmantes que duram horas certas, noite após noite. Aí, não vale!
Pra minha vida, no seu atual modus vivendi, está de
boníssimo tamanho ter a TV como companheira de quarto. A interação é total! O
que me falta de dia, ela agrega à noite. (Estivesse eu um pouco mais cínica,
diria que ela “agrega valor” à minha qualidade de vida. Ou que TV no quarto é
“bacana demais”...).
A vida em seu sentido mais estrito, da porta da alma pra
dentro, vai muito bem, obrigada, recebendo e dando amor pra quem me dá e recebe
o meu amor. Há a alegria de ver os filhos – amorosos e do Bem – lutando pela
vida com vigor e criatividade; tem ainda Luna que veio colorir de luzes
totalmente inusitadas a minha existência; os amigos/familiares que me completam
em trocas e crescimento permanente (até nas divergências); a maravilha de haver
trabalho que me dê prazer em realizar e que me coloca a brincar dia após dia
com palavras; tem coisa demais para preencher o meu espaço do vivido com sabor
e delicadeza.
Que falta dinheiro, eu concordo, pagar, por exemplo, a multa
que nos chegou da França, e em euros, foi o tipo da surpresinha desagradável e
dura de quitar, como a agonia, mês a mês, de ver os dias sendo remunerados em
reais e a vida sendo gasta em euros (só para continuar alegoricamente usando a moeda de maior
valor).
Mas, como minha alma perdeu (ou nunca teve) tranca para que
as dores do lado de fora deixem de entrar e fazer pouso, as tristezas têm se
avolumado em tal medida no mundo – e sem dar nenhuma pista para mudanças – que
eu preciso dos sonhos para viver. E é aí que a televisão entra pra valer na
conversa. É que ultimamente eu dei pra sonhar com Du Moscovis, que, num cochilo
que dou, sai da novela e entra vivinho no meu quarto, com cara de mau e tudo. E
com repeteco noites após. Codeloco! E não só ele. Um dia desses foi um rapaz
mais novo, lindinho. Depois confiro o
nome do artista e conto. Isso é detalhe, bobice mesmo. Mas, voltando ao delírio
onírico-reconfortante, a diferença de idade era tanta que, a certa altura do
romance, caliente por demais (Ai! Meus sais!), eu, lambida (ainda se usa esse
termo?), cochichava com ele sobre a paixão arrasadora que demonstrava por mim e
até menti na idade: “Como pode tudo isso? Você tão jovem e eu com 58 anos?”
(KKKKKKKKKK, pela primeira vez na vida escondi os meus bens
vividos 70 anos de idade)
PAU-DE-DAR-EM-DOIDO
Triste sociedade esta que nos acorrenta a um jeito de ser e
viver contraditório, dúbio, inconstante, perverso. A gente quer ser o melhor de
nós e a vida nos traz tristezas, amarguras, desafios incapazes de serem medidos
e superados sem grande sofrimento.
Sei lá por qual lei da natureza, sou bem humorada, adoro
rir, seja lá do que for, e vejo-me em luta constante com o meu estado d’alma,
entre meus movimentos mais acesos e para o alto, e outros tantos, que me trazem
para o lado mais sombrio do mundo, ao qual não consigo me furtar. É uma
gangorra constante entre bondade e “beliscão bem disfarçado em braço de menino
pobre”, entre lucro e altruísmo, entre excesso e carência, entre atos tidos
oficialmente como terroristas e outros tantos, cujas bombas e consequências são
de efeito retardatário e naturalizado (destruição em alto grau, mas a médio e
longo prazos).
Mesmo que num exato momento eu esteja às gargalhadas por
estar lendo um texto onde encontro a afirmativa de que “a velhice existe desde
épocas bem antigas” (o que me faz imaginar a hipótese impossível do tempo
anterior a esse tempo bem antigo – e rir; e a seguir em meu devaneio
humorístico-filosófico: se a velhice começa a surgir num determinado tempo, por
mais antigo que ele seja, há um tempo anterior ao tempo antigo, e rio um pouco
mais; e a pensar no ser humano naquele tempo mais antigo... como seriam homens
e mulheres quando não havia velhice?, e torno a rir; e a rir de mim mesma por
tanto rir... – pois bem, mesmo que esteja nesse estado de pura galhofa (sempre
estou aberta a rir de alguma coisa, é meio impressionante...), sozinha e feliz
da vida, eis que me chega algum fato novo, acontecido em algum canto, mais ou
menos distante do Planeta, lugar onde já estive ou onde nunca estarei (*), a
provocar entristecimento, mágoa, impossibilidade, paralisia.
E, pior, sei lá, é a sensação inexplicável de ser um humano
dividido. Se me deixo embrenhar totalmente pela dimensão da perversidade,
sucumbo e nem o mais forte dos tarjas preta há de me trazer o sono a cada
noite. Já, se fico no meu canto, alienada e “alegrinha”, fico sendo uma pessoa
que me desconheço, pois o outro faz parte de minha dimensão de ser humano
integral. Impossível! Só me faço e
existo na relação com o outro.
De uns tempos pra cá, não tem sido raro que amigos – que
antes se identificavam em sua maneira de entender e viver o mundo – andem
divergindo entre si. O fato: o rato roeu a roupa do rei de Roma. Verdade! Mais
ainda: a ação do roedor se deu num tal nível de destruição que há carência de
material a ser cerzido, refeito, novamente posto para um uso possível. Nem o
rei, muito menos a plebe ignara, está em condições de se vestir com a antiga
roupagem. O rei e todos nós estamos nus!
Tenho amigos que estão propagando como saída o amor, o amor
ao vizinho, sem a grande – agora inalcançável – pretensão do amor à humanidade
inteira. A pretensa superação da desigualdade social haveria de ser olvidada,
por inútil, tal qual vem-se moldando na realidade do agora. A ordem é ser generoso com o próximo, próximo
mesmo, no sentido físico do termo, de aqui e agora. Sobre os destinos da
Humanidade, em sua rota de acentuação do fosso entre pobres e ricos, não é
tarefa humana nem plausível tentar interferir.
Perdemos, meninos, perdemos! - é o que muitos nos dizem.
Cá no meu pensar, cato minhas dúvidas, minhas tentativas,
minha base teórica de entender o mundo, meus sonhos e quereres, e venho pro meu
canto escrevinhar.
Que amor é este? Voltamos ao tempo "aliviador" da
caridade cristã? Como vou me esquartejar e amar os próximos, esquecendo-me dos
distantes?
Está bem, vamos lá, eu faço um exercício de suposições...
Compro uns livrinhos de história para a filha do amigo
humilde que está por nascer? Compro uma vez por ano os cartões dos pintores com
a boca e os pés? Luto cotidianamente para combater minha má vontade com o
vizinho que é agressivo com os cães daqui de casa? Sou generosa e vou além do
simples cumprimento da legislação trabalhista em relação à empregada doméstica
que trabalha comigo? Sou gentil com o idoso que está no ônibus e lhe dou o
lugar? Combato em mim os resquícios de egoísmo e as marcas de preconceitos que
incorporei pela vida afora? É assim que a banda deve tocar?
E como diluo dentro de mim a necessidade de agir em relação
a quem está distante e sofre os efeitos maléficos de uma vida miserável e
carregada de injustiça e sofrimento? Devo virar-me para mim mesma, consolar-me
e me aconselhar a restringir-me em meus intentos e ações a quem me cerca?
A saída se dá em âmbito individual, será assim? Eu, então,
passo a amar a quem já amava – filhos, irmãos, pais, amigos? O amor é algo
restrito a apenas alguns, àqueles a quem eu “naturalmente” já me entregava
amorosamente?
Ou seja: vou pelo caminho (teoricamente) mais fácil, o
caminho da maioria, o caminho em linha reta sem olhar pros lados, o caminho
possível, o caminho de quem tenta se livrar de sua preocupação com a
continuidade das mazelas sociais?
CONSIGO NÃO! APENAS ESCREVER, FALAR, RIR E CHORAR É PORÇÃO
ÍNFIMA QUE ENTREGO DE MIM MESMA PARA O QUE SE FAZ NECESSÁRIO! SOU A MAIS PURA
CONTRADIÇÃO! E NAS PROPORÇÕES EM QUE ELA HOJE SE APRESENTA É DESAFIO
SOBREHUMANO! NÃO QUERO MAIS BRINCAR DE SER HUMANO, NÃO!
EU SOU MENOS EU!
(*) Em julho último, Mariana Lozza e Martin Lozza
estiveram num dos bares onde ocorreram mortes, em Paris.
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