domingo, 9 de abril de 2017


 BERLINDA
9/4/2016

No meu longínquo tempo de infância, era um tal de brincar de BERLINDA que não acabava mais. Um disse que você vai para a berlinda porque gosta de fulano, outro disse que você vai para a berlinda porque é guloso, outro disse que é porque você é chato, outro disse que é porque é bonita... e assim dizia-se o que se queria dizer sem cerimônia, sob o véu da permissão que o jogo dava a cada um.
De lá pra cá não foi só o telefone preto de discar preso na parede que mudou para o celular mais modernoso. As mudanças nos alcançam dos mais variados modos. Basta dizer que em tempos de processo de impedimento da presidente (dela mesma, a que, no mar de lama de corruptos nascidos em penca, não tem contra si nenhuma acusação do gênero), nestes tempos de jogo aberto, sem máscaras, a berlinda é bem outra:
Um disse que Dilma vai pra berlinda porque Lula traiu os petistas de fé;
Outro disse que é porque a corrupção não é mais suportável entre nós;
Outro disse que é porque todos são ladrões;
Outro disse que é porque Dilma é dura, antipática;
Outro disse que é porque ela não tem carisma e não tem o dom da palavra;
Outro disse que é porque a sua popularidade é baixa demais;
Outro disse que é porque a mulher de Michel Temer é que é bonita...
O que tenho ouvido a respeito da possibilidade de saída da presidente está mais misturado do que água de foz de rio quando se encontra com o mar...
Muitos não estão percebendo que o jogo está sendo jogado para parecer que a batalha é uma que não é.
Alôô: o julgamento da Dilma não é por nada disso (e muito mais) que temos ouvido. Vamos nos informar por outros meios que não seja a TV GLOBO, meus amigos?
Só pra começo de conversa: o que está sendo julgado no momento contra a presidente Dilma passa ao largo de qualquer processo de corrupção. É outra coisa. E sobre a acusação real da Janaína, Bicudo e Reale, a que está sendo analisada, nada se diz. Nada mesmo! Só que isso não é brincadeira de criança. É jogo pra valer, a interferir na vida de todos nós. Sem que a maioria perceba! Inacreditável!!!!!


CADA TEMPO COM SEU PRÊMIO
9/4/2016
Na Ditadura torturava-se em busca de delações. O Estado torturador buscava a delação para calar, extirpar do cenário nacional, a possibilidade de surgimento de uma sociedade igualitária. O torturado delatava ou não, em função de sua força - física e emocional - perante o projeto político com o qual tinha compromisso. Coisa de comunista. Sonho coletivo e coisa e tal...
Na nossa frágil Democracia, as delações são negociadas, dispensando -se a tortura. O Estado busca a delação para extirpar do cenário nacional a corrupção endêmica. O candidato a delator delata ou não em função do seu temor -maior ou menor - de perder as vantagens individuais que tem, asseguradas pelo dinheiro. Coisa de egoísta. Meta de sucesso individual e coisa sempre passível de ser comprada.
Cada tempo com seus valores... E assim, já que "a casa caiu", viemos do "todos juntos somos fortes" para o "cada um por si e o deus (dinheiro) para os mais sabidos".
Ando muito fora de moda...



sábado, 8 de abril de 2017

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 HOJE, ONTEM E AMANHà

(sobre as minhas perenes dúvidas sobre nós e o nosso existir)

(13/6/2014)

13 de junho é apenas o dia seguinte a 12 de junho.
O sol, que haveria de vir, veio.
Se fosse chuva que tivesse que vir, viria também.
Tudo chega como teria que chegar.
Tudo parte como teria que partir.
Tudo sucede como teria que suceder.
Essa é a lei.
Essa é a regra.
Essa é a vida.

No meio da tarde de ontem, como foi simbólica aquela imensidão de campo de futebol, com sobra de cores e com tão nítida escassez de gente! Tinha que ser e foi. A vida não conseguiu trair a vida que vinha vindo de antes. E veio: faltando quem historicamente sempre faltou.
 

O povo vendo pela TV a Copa, mesmo sendo em seu país? O que de diferente nisso? Nadica de nada! Confere. Podemos ticar!

Recebendo a noite paulistano-internacional, o jogo também foi como tinha que ser, dando chance a que continuemos com fama de que sempre damos um jeitinho. E logo por seu intermédio, Fred, tão lindo e tão “oportunista”, como hoje é jargão elogioso no meio esportivo, contrariando o sentido original do termo. Era preciso dar um jeitinho. E ele deu!

O moço Oscar – tão competente – fazer um terceiro gol, fazendo desaparecer de nossa memória a “semgracisse” pelo pênalti ilegal? Perfeito! Memória curta sempre foi uma boa tática para tudo seguir “bem”. Avante, Pátria!

Os croatas quebraram o vestiário? Sim, mas não seria preciso extravasar a raiva? Pois que se extravasasse! Não seria o esperado? Pois foi realizado. Vida que segue. Valeu a pena. A vitória brasileira paga o prejuízo. Nada demais. Tudo certo!

Dilma ofendida? Ok. Tiremos da lista. Dito e feito! Quem duvidaria disso? Afinal, quem estava mesmo no estádio?

Tudo como a vida foi desenhando.

Os jornais dando ênfase ao que quiseram nesta manhã seguinte ao início da Copa? Previsível e executado conforme. Nada de novo!

UMA CONCLUSÃO TRAZIDA PELA PRÓPRIA VIDA NESTA MANHÃ SEGUINTE

O dia seguinte nada mais é do que o dia seguinte e tudo tem a ver com tudo – e essa a lição que veio do meu pé de maracujá quando o encontrei lá fora quando fui molhar as plantas: o maracujazão grandão, que mais de uma vez foi por mim fotografado, continua lá no pé, crescendo e ainda silencioso. Agarradinho no galho. Quem foi que surpreendeu? O vizinho dele, um maracujá menor, mas que hoje amanheceu no chão. Ou seja: a vida segue em seu poder supremo de ir decidindo o que virá. A gente até ajeita o terreno, faz empadinha de queijo para beliscar com cerveja enquanto a bola rola na estreia do Brasil. Mas, o que tinha que vir, veio, com sua autonomia, colocando-nos em nosso devido lugar. Meras formigas (com asas) – imitando o título de uma bela crônica de nossa inesquecível Divoca.

Será que viver é mais é do que irmos negociando com o que vem chegando, diante das possibilidades trazidas pela vida naquele momento e ante o que temos de humano dentro de nós?



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RODOVIÁRIA DE CAMPOS




HISTORIETA COM SABOR DE CANA DE AÇÚCAR
RECEPÇÃO AMIGA
78/4/2015
Parece que minha terra natal me reconheceu e já me deu as boas vindas com um entusiasmo muito acima do esperado. E olhe que quando eu me fui daqui, há sei lá quantos anos, eu não fui muito contente com a dita cuja, em tempos em que mais valia uma falsa moral posta em evidência do que uma atitude sincera, mas questionável, ante os valores que aqui faziam seu ninho.
A grata surpresa chegou com o primeiro contato da sola de meu sapato macio e claro com o rústico piso da rodoviária local. Ali mesmo, de pronto, a Planície me recebeu fazendo-me um agrado de fazer gosto. O caso é que, como vim para um par de dezenas de dias, trouxe comigo uma bagagem um tanto volumosa. Como vim para trabalhar, caminhar e dar uns bons mergulhos, variados itens enchiam a mala e a frasqueira, sem falar do material do trabalho a ser concluído, que deixou repleta uma valise vermelha, já meio antiga, também grandota. Descendo, então, do ônibus, saio em busca de um carrinho. Sem ele, parecia-me impossível chegar até o ponto de táxi. Muito peso.
Dirijo-me ao primeiro funcionário que passa e pergunto onde posso conseguir o tal carrinho que solucionaria o meu problema de não ser uma centopeia. Dois braços, aliados ao meu pouco preparo físico, exigiam aquele recurso. O moço olha pr'um lado, olha pro outro e decepcionado, me diz: "Hi, minha senhora, nós temos, sim, mas é só um, e deve estar ocupado, pois não o vejo por aqui." "Um, só um?" - indago, espantada. Mas pra que ter um?" Mais não disse, mas pensei que mais adequado seria não ter nenhum. Pra que um único carrinho? Expectativa por parte da administração, de instigar alguma briga de foice entre 2 ou 3 passageiros, de preferência no meio da noite, puxa pra cá, puxa pra lá, o carrinho é meu, não, é meu, eu vi primeiro, antes mesmo do ônibus estacionar... Seria isso?
Nada disso importa! Todo o mérito da história está em que tudo isso se fez apenas para a minha terra de nascença me colocar para fazer uma forcinha inesperada logo de saída. Estava ali o álibi - só quem ama muito para criá-lo - e perfeito!, para que eu fique pelo menos dois dias sem realizar nenhum esforço, por menor que seja. O peso que carreguei ali, até um jovem senhor vir em meu auxílio, me deixa sem nenhum compromisso com nada que me obrigue a ficar ofegante nem por um segundo.
Obrigada, Campos!

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Maio/2015



Dia de renovar passaporte, me empeteco toda para a foto que virá, coisa discreta, claro, mas produzindo o devido realce nos olhos, estes mesmos que andam teimando em se esconder sob a pálpebra preguiçosa, pela mania estranha dessa traiçoeira de cair e fazer, dos meus já pequenos olhos, duas continhas vagabundas, menores do que aqueles grãos que, na história infantil, ficaram sob o colchão da princesa e que, mesmo ínfimos, foram por ela descobertos, tamanha o conforto que conhecia, como filha dileta do rei.

Junior me pega em casa, como é de praxe quando é o caso de haver muitas atividades seguidas uma da outra.Daí, sentindo-me com possibilidades de não fazer feio perante a máquina digital que viria a fixar minha imagem por mais uns tantos anos no livrinho verde que me abre as portas do mundo (se eu tiver alguns euros acumulados, evidentemente...), e lá vamos nós... E vamos, atualizando nossas novidades, amigos que já nos tornamos pelos anos de vai-lá-vem-cá, ele dirigindo e eu ao lado, a caminho de algum canto. Até a Campos ele já foi me buscar numa das vezes em que peguei o rumo de minha casa de origem, desistindo de ser amada-cotidiana-amante, pelas extremas dificuldades que vi, vejo e verei no indecifrável ofício de ser esposa. Baixou a "neura", liguei e, em poucas horas, lá estava ele para me resgatar...

Interrompendo nossa animada conversa, eis que atendo ao telefonema matinal da filha querida, quando nos abençoamos com nosso amor recíproco e com alguma ordem que ela me dá, e que eu cumpro (ou não), dependendo do meu estado de espírito na hora que o verbo imperativo ecoa do outro lado da linha. A última, um dia desses, foi para eu ir o mais rapidamente possível tomar a vacina dos velhos. Fui, estava em estado cordato de existir, protegi-me, mas à custa de mais de uma semana de desconforto no local da aplicação, uma coceirinha pra lá de chata no braço esquerdo. Filho é um ser deveras vingativo: descontam as ordens que demos na infância, e com altos juros, por puro exercício de domínio afetivo.

Hoje, o que quis contar pra ela foi a beleza de programa de ontem à noite e, devo confessar, percebi em seguida, não foi lá uma boa ideia. O relato feito à filhota do quanto gostei da peça PERDAS E GANHOS, com Nicete Bruno, divina, que me tomou por inteiro, não se deu bem com o fato de meus olhos estarem delicadamente pintados nesta manhã de segunda-feira. É que, só a lembrança da peça me fez repetir, de maneira totalmente desnecessária, o triste espetáculo da véspera, quando me vi, do início ao fim da recitação dos textos, em pranto soluçante, daquele que o nariz entope e nada resolve o problema do ar que se vê impedido de transitar pelas vias aéreas, pondo em evidência o mais inoportuno funga-funga de quem é chorão além da conta.

Precavida (ou vaidosa?), desligo rapidamente. "Mari, meu esforço de me embelezar está indo por terra. Depois falamos..."

E agora estou eu aqui, com os olhos espremidos, na sala de espera do setor de passaporte da Polícia Federal retocando a maquillage. Tem jeito, não! É sina! Que miniatura de olhos é esta que me arranjaram? Sou de junho. Não fui feita em verão de Atafona, é isso! Fosse eu obra e graça daquele luar, eu teria olhos de ver estrelas, de ver mares, de ver muitas coisas mais. E, para tanto, um mínimo de dignidade – em milímetros – haveria de existir abaixo dessas pálpebras dorminhocas. Sem exagero: esses olhos estão menores que o par de ervilhas da historinha da princesa...

quinta-feira, 6 de abril de 2017

 

maio/2013

Ontem, já na cama, com o sono já me rondando, num impulso irresistível, saí de baixo do edredom super macio, olhos acesos como de criança, ágil e um tanto excitada, e fui ao quarto de vestir buscar, quase sorrindo, o complemento que viria a tornar a minha noite de sono bem mais completa. Não havia o que pensar. Era apenas abrir o armário maior, nele, a segunda gaveta, e pegar aquela que seria tão reconfortante para os meus pés carentes: a minha meia mais gostosa, de um algodão macio, a listradinha, pura homenagem ao sempre bem-vindo mês de maio.

Claro que, não fossem as meias, algum outro assunto eu iria encontrar para colocar, como de costume, minhas mãos a dedilhar, para atenuar o que vai no peito e na imaginação. Escrever, para mim, sempre é preciso. Vital mesmo. Japoneses fotografam, ou filmam. Eu, brasileira da roça, escrevo.

Mas o fato é que hoje são as meias, as acolhedoras meias que tornaram a minha noite tão mais restauradora. O verão ter ido para escanteio até a próxima temporada me põe face a face com novos prazeres. Se antes era aproveitar o sol e a entrega do corpo às delícias do contato com a água e com o ar livre, agora é a delicadeza do acolhimento por delicados tecidos que enchem de conforto meus pés, sempre tão caminhantes, à espera de um colo quentinho. Mas, a gente não é só pés necessitados de meias... Alguém aí tem um bom agasalho para o meu coração assustado? Estou vinda de receber tão saboroso amor pela vida afora que tem dias – e noites – em que também o corpo – todinho ele, com o cuore em saltos – relembra antigas carícias e grita de saudade. Ser amada por quem ama de verdade e com intensidade é bom – no verão, no outono, na primavera, no inverno. Também mérito meu – que bom reconhecer! – por ter sabido cativar tanta amorosidade em seus tantos rastros deixados. Não é a estação que está em jogo. É o amar e ser amado. Com ou sem meias.

O QUE DÁ PRA RIR ÀS VEZES É PARA RIR MESMO - E MUITO!  
(6/4/2015)
Chego à aula de exercícios leves e alongamento (esse é o apelido daquela hora e um quebradinho que gasto 3 vezes por semana a bem do serviço de meu próprio corpo já um tanto cansado de guerra). Como estou indo amanhã para Atafona para um estágio de um mês para verificar in loco se devo mesmo me mudar para lá (pelo menos até mudar de ideia novamente...), chego para a delicada professora e me explico:" Este mês não virei mais, só hoje, estou saindo de viagem, vou viajar, mas, fique tranquila, vou caminhar muito..." E ela, olhos risonhos, entusiasmados, não me deixa concluir e sai com esta: "Caminhar? Vai a Santiago de Compostela?"
Tempo. Silêncio de palavras.Tempo de rir. Sim, porque o que veio a seguir, não foram palavras, foi minha quase queda ao chão (alongamento bom, sô!!!), tamanha a altura da gargalhada que soltei diante da impropriedade involuntária da mestra. O corpo veio junto, como se tivesse havido aquele tipo de ordem"enroscando, enroscando, até onde der...". Só que eu enrosquei muito rapidamente, e ao som da mais estridente gargalhada de Seu João (como tenho gostado de falar dele, de vez em quando, apaziguamento tem destas coisas...). O santo é outro, cara mestra, aliás é santa. Nada de Santiago, quem dirá de Compostela...é santa é de casa, é Nossa Senhora da Penha mesmo, ela que, com certeza, há de me colocar em lágrimas na próxima segunda-feira, quietinha em alguma esquina lá da praia ao vê-la passar. Tanto por causa dela, como pela comovente e - para mim - inalcançavel fé dos que a seguem naquele estado de vivo entusiasmo.