segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018


TOTALIDADE
26/02/2018

A tática é sempre a velha tática, ela me acompanha, mais ainda, ela me integra, em minhas miradas e percepções envolvendo o mundo; e não só: ela também me abastece e direciona minha vida no trato com meu próprio corpo. Desde que ouvi “Um por todos, todos por um” - desde criança ainda, ouvi, gravei, aprendi. Com os filhos, vinda das vísceras, sem grandes reflexões, a mesma máxima sempre me guiava: “ou brincam todos ou não brinca ninguém” (e eles até hoje rememoram essa minha orientação para conduzir as desavenças ocorridas em seus jogos infantis).                                 Hoje, é com minha saúde que vale “a união do todo para o bem estar da parte”.  Daqui a um par de horas, todo o meu corpo estará atravessado por estranhas substâncias ditas curativas para que um pedaço meu - a mama, tão simbólica!!!! - fique apenas e simplesmente com esta cicatriz, que até já acho um charme, bonitinha que só.         Verdade, parte minha, por você, meu peitão, meu corpo todo se oferece à cura global.  É pra valer: “um por todos, todos por um e “ou brincam todos, ou não brinca ninguém”.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

OLHOS NOS OLHOS? NÃO!

22/02/2018

Aí vc chega ao consultório médico e é atendida pela mesma recepcionista, é, aquela que vc conheceu da vez passada e pôs suas barbas de molho, a que fala sem cessar, aproveitando qualquer deixa de qualquer dos clientes que aguardam a vez.

Ela vê um muxoxo de alguém ao receber uma mensagem pelo celular, já engata uma primeira, especulando sobre as notícias que invadem nossa privacidade... É a outra que estava cochilando e abre os olhos? Lá vem ela a falar do desânimo que o verão traz pra cada um... Não há nada que lhe pegue desprevenida: qualquer gesto do público ali reunido serve de mote para a sua intervenção, boba, desnecessária, que não leva a nada.

Eu, que cada vez quero menos perder tempo com inutilidades, ajeito-me na cadeira como quem está por adentrar um campo de batalha: “como fazer pra não abrir o flanco para a criatura que quer passar seu tempo às custas de qualquer idiota que lhe abrir, sem querer, um novo tema adequado para um insosso trelelê?

Pra mim, alívio foi quando o filho chegou pra me buscar e eu lhe prestei contas: “Até agora, invicta! Nem por um átimo de segundo deixei meu olho cruzar com o da faladeira. Não me curvei à bobice. Ou bem eu gastava meu latim em vão ou bem eu gastava minha atenção em guardar meus olhos de um cruzamento inútil. Fiquei com a segunda opção. E resguardei meu olhar para encontros mais interessantes!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

21/02/2017
MINHA VIDA, MINHAS LINHAS

Sempre que se lê algo saído de algum autor, mesmo que no âmbito da ficção, quando de suas invencionices, especula-se sobre o caráter autobiográfico do material. Comigo nem é preciso supor tal gênese ou imaginar outra passibilidade para o que trago ao mundo com o que escrevo. Que quem lê nem se dê ao trabalho. Sempre tomo a mim mesma como a mais autêntica e indisfarçável fonte  para o que saio por aí apregoando.  Sou a origem de mim mesma no que projeto sobre o mundo e seus circunstantes. Só imagino reações e entendimentos de um jeito assim e não assado porque aquela seria a maneira como minha alma se comportaria numa encruzilhada da vida de mesmo tipo. Se imagino o oposto também sou a referência, aí já em oposição àquele que seria o meu jeito de pensar ou agir num determinado momento de vida.
Por isso, quando vejo e aprecio as belezas dos bordados e artes que bela e singelamente  Luiza Sarmet faz com suas mãos tão abençoadas, eu olho com tanta admiração e imagino, além do que vejo, o seu avesso, imaginando-o limpo e perfeito. Um avesso que poderia ser o direito.
Meu avesso, quando ouso tecer uma arte como a de Luiza não é limpo nem suave. É tosco e remendado. Minha suavidade reside em outra esfera. Não duvidem dela. Pode estar até  meio agoniada, desgovernada, sem pouso. Mas é uma minha fração que se expressa de outros modos. Tenho provas.

Bom dia!

sábado, 17 de fevereiro de 2018



EMBATES ÉTICOS

17/02/2016

Quando o meu pirão chega na frente, em caso de farinha pouca...

Tenho sossego não. Nem no ônibus, calada no meu canto, não deixo de ter um dilema para resolver. É de impressionar aos mais incrédulos! Tem horas que dá vontade de extrair todo e qualquer vestígio de pensamento crítico e atirar longe, pra lá do horizonte. Como um dardo lançado por um campeão olímpico. Ou como um longo suspiro de um iatista europeu quando se livrar das porcarias que se perpetuam na Baía, após a prova de fogo (e de água podre) enfrentada na próxima Olimpíada.. 

Meu caso é sem volta. Impossível viver de dúvida em dúvida, de desassossego em desassossego. Não dá nem para me deliciar com um cochilo ou com uma olhada para o lado para ver a nova propaganda da igreja por onde o ônibus passa ("Abaixo a violência em Itaipu!", o que já me faz pensar, pois que deixa implícito que se a violência for em Várzea das Moças ou no Engenho do Mato dá para aguentar...)... Não é brincadeira, não. São infinitos os chamados da vida para que eu reflita e decida. E eu não quero mais decidir nada, não. Quero ser uma maria-vai-com-as outras. Chega de ter senso e me exigir posições. Saco!

Hoje foi a mulher que entrou e me encontrou quieta, no banco do corredor, eu que, minutos antes, havia deixado a cadeira da janela pois lá batia sol e o calor era canicular. Só na volta é que peguei um ônibus "desenvolvido", com ar refrigerado... Mas o que conto foi na ida. Eu na sombra, a mulher paga sua passagem e vem em minha direção. Seu olhar chegou antes dela, anunciando sua disposição de estar ao meu lado na condução, o que já me colocou em alerta. Pronto! Acabou a paz! Aí vem mais uma coisinha do cotidiano para me pôr a pensar. Que faço eu? Vou pro sol e faço a gentileza de deixar a nova usuária do serviço de transporte ficar à sombra? Ou me faço de boba, mantenho-me calminha em meu canto, mais aprazível do que o que a espera, sob o sol ardente de três horas da tarde?

Foram segundos que tardaram horas. Eu ou ela? Quem fica com a melhor parte? Dou meu lugar? Ou sou a mais horrível das criaturas e afasto a minha perninha pro lado dando lugar para a moça ir ao encontro da solina sem fim?

Tenho uma conhecida que esteve lá em casa em Atafona numa certa ocasião e que, ao ver a saborosa fatia de melancia que coloquei para irmos beliscando, enquanto papeávamos, pegou a faca e cortou toda a parte vermelhinha de cima e me deixou a ver navios (ou melancia insossa, como queiram), ou seja, a procurar o que restava de doce na fruta, que não fosse aquela parte mais esbranquiçada, já perto da casca.

Assim foi hoje. Como decidir? Ficar com a parte doce da fruta ou a entregá-la à companheira de viagem? Se fosse para nós duas ficarmos na sombra, seria moleza. O diabo é quando se trata da escolha por si próprio ou pelo outro. Quando a sombra só dá para um. Aí é que a porca torce o rabo.
Muito feio dizer, mas eu cheguei ao meu destino fresquinha da silva. Pelo menos estou sendo sincera. E vim correndo escrever. Com certeza imaginando que a sinceridade serviria de atenuante para aliviar a culpa por meu egoísmo. Mas também, vamos e venhamos, a moça era bem mais jovem, ainda tem bem mais hormônios do que eu para serem derretidos pelo sol da tarde. A vez agora é dela.  Mas, a verdade, é que nem assim, sossego. Na hora de reparar os outros, estou viva a verificar equívocos e manias. Mas, quando é comigo, deixo o altruísmo de lado e deixo pender para o meu lado, justificando-me pelo tanto que já caminhei, sob sol e sob chuva. Sem falar de intempéries outras, até mais castigantes. 


(CREIO QUE JÁ PUBLIQUEI ISSO AQUI, SEI LÁ...)
PARTIÇÕES

17/02/2017

Sou mais compartimentada do que uma daquelas pinhas suculentas que brotavam lá no quintal da Beira Rio, é, aquelas mesmas que Maninho adorava enquanto eu preferia uma laranja lima, seguida de outra e mais algumas, sempre doces e amarelinhas das dezenas que papai trazia do Mercado. 
O porquê da comparação é de fácil explicação, até meio bobinha, pra qualquer criança entender de primeira, sem auxílio dos recursos mais rebuscados do pensamento abstrato. Sou, sim, gominhos mais gominhos, vizinhos fraternos, até serem apartados pelo nosso desejo de aproveitar de seu sabor e gozo. Um simplesmente representa um doce sorriso que deixo escapar ante uma carta de amor endereçada à filha também por mim tão amada; outro, um duro golpe na boca do estômago pelo último gesto cínico de algum representante da banda fétida que faz de conta que nos governa enquanto ganha para si mais poder e benesses dos mais variados tipos; outro, o riso mais efusivo e desgovernado diante da última piada produzida pelo humor incansável e hilário que os brasileiros repartem entre si; mais um gomo, da saudade e das dores e alegrias que compõem nosso percurso pelas trilhas do viver; e por aí vai, ora mordiscando o gomo mais suculento, ora com alguma dificuldade de eliminar o caroço de maior porte, que teima em se apegar ao que de delicioso queremos sorver.


Não sei mesmo se a imagem é a melhor -  Lulu, a pinha de uma manhã - mas fazer o quê quando me vejo repartida entre a mulher que ri, lamenta, espera, projeta e simplesmente quer escrever estas mal traçadas linhas antes de se por de pé e dar bom dia ao mundo?

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

ATÉ QUANDO RESISTIREI?
17/02/2016

Há que se ter paciência e ir-se encontrando os jeitos de serem eliminadas as chaturas e ameaças que a comunicação virtual vive aprontando com a gente. Competindo com as mensagens mais que bem-vindas de amigos, com as cartas de amor mais que saborosas, com as imagens e canções super atrativas que uns e outros distribuem para nós, e com as tantas outras informações úteis e interessantes que nos chegam daqui e dali, há uma bobajada sem fim que, a cada dia, temos que limpar, antes da leitura propriamente dita, do que vale a pena e interessa ser sorvido com prazer.

Falo isso porque nem dá para contar o sem número de vezes que recebi mensagens tentando, de alguma maneira me enganar, para que eu abra algum anexo que, pelo que dizem os especialistas, encherá de vírus super poderosos e potencialmente destruidores da alma da minha máquina, capazes de causar os danos mais sinistros a toda a memória nela acumulada.  Diariamente a trama se repete e os apelos são os mais diferenciados: ou são fotos que eu não posso deixar de ver “daquela nossa festinha inesquecível”; ou é uma dívida que tenho que pagar urgentemente, sob o risco de ser severamente punida na forma da lei; ou é uma nota fiscal de um serviço qualquer que contratei e que devo salvar para providenciar a quitação; ou é qualquer cosia do gênero que vem como isca para ver se eu caio na conversa.

Mas hoje a coisa extrapolou: a mensagem era de uma senhora estrangeira, escrevendo com falhas, até mesmo pra comprovar a autenticidade de sua “missiva”, dizendo-se viúva de um senhor milionário que trabalhou no Kuwait e que deixou alguns milhões de dólares, tendo ela me escolhido para herdá-los. Não tem filhos e os familiares não são dignos de confiança... Basta a minha resposta e ela providenciará o repasse do “volume morto” que está num banco da Costa do Marfim, para que eu aplique em prol de viúvas, pobres, algo assim...

Sempre que bate em minha caixa de entrada esse tipo de coisa, eu fico imaginando o dia em que eu cairei na esparrela de acreditar. E me ponho a me perguntar, quietinha, para mim mesma, qual será o assunto que me levará a nocaute e que finalmente abrirá as portas para os inimigos ferozes que destruirão a minha história, aqui depositada neste instrumento de trabalho e de prazer, que é o meu computador (E lá se vão mais de 25 anos de doce e inconteste parceria...).

Sempre acho que não serei a única pessoa a sair ilesa desse tipo de ação criminosa e que um dia certamente vou me deixar enganar. E aí fico a imaginar: qual será a isca perfeita que um dia há de me seduzir irremediavelmente? É aí que fico imaginando que hão de me vencer pela boca.O anúncio de alguma receita mais que especial há de ser o “Abre-te Sésamo”  que me fará providenciar o download do que quer que seja.  Se for, então, algum mal intencionado que anuncie que irá me reapresentar ao sabor daquela maionese de camarão que conheci, há mais de 40 anos, no Hotel Palace, lá em Campos (nunca provei nem consegui fazer outra igual), caio que nem uma boba. Vírus surgirão de toda parte, farão um estrago tão inusitado que o fato corre o risco de virar notícia. Coisa para hackers mais que habilidosos serem chamados para dar conta da destruição. Eu, gulosa que só, estarei posta fora de combate, pois que minhas resistências cairão por terra, definitivamente. As lembranças permanecem com uma força descomunal dentro da gente. E a força delas está justamente, já disse alguém, na sua própria irrealidade.
VIDA, E NA VEIA!
16/02/2018

Deu um dia, nada. Dois, três, quatro, o mesmo - total ausência de um tema, qualquer que fosse ele - uma banalidade, uma observação risível, um registro ou uma lembrança - que pudesse me instigar a escrever. Logo eu que sou movida a palavras e que,  em jejum, a cada dia, faço da escrita o elemento vital capaz de abrir o traçado dos momentos pós-aurora em seus pigmentos, até disfarces. E é verdade, desde que soube da seriedade do tratamento a que me submeteria, emudeci. Não de imediato surgiu a consciência quanto ao silêncio recém instalado. A lucidez surgiu alguns dias depois da consulta ao oncologista, quando vim a saber da demorada sequência de sessões à qual terei que me submeter. Apenas percebi o tanto de dias sem escrever. Era como se, diante da ardilosa fase da vida que se impôs - e que eu tão bem vim respeitando e absorvendo, com meu bom humor sempre alerta - agora tenha sido introjetado de verdade o seu real percurso como fato consumado (e doído). A coisa é pra valer. E que, com isso, tenha sido expulso o meu, tão intrinsecamente meu, gosto pelas emoções do falar ao mundo pela via da escrita. Não bastou o naco de mim levado ao lixo hospitalar no dia 8 de dezembro. A história vai além, não para aí é faz pensar...

Estarei expulsando as emoções que me fazem pulsar diante da vida para que o organismo faça uma certa abstinência para receber um outro tipo de química, curativa mas arrasadora? O motivo do engasgo no palavrório virá com o tempo, imagino. Por enquanto, apenas a surpreendente constatação. Emudeci. E hoje, desperta deste tempo tão quieto, vi-me impelida a falar do meu silêncio, tão raro.

Que minha aparência se altere! Que minha vaidade se aquiete! Que minha química com as palavras tire seu merecido ano sabático! Eu me enquadro, vá lá. Mas que seja breve! Não há salvação fora do prazer. Pelo menos assim aprendi até os tempos em que a supresa de um câncer - e no coração da minha feminilidade - veio me tombar diante da fragilidade de pretensiosos planos de viver sem esse tipo de surpresa, maligna. Com certeza, eu estava carecendo desta lição de humildade. Somos, sim, ínfimos insetos com pouca margem de manobra diante dos temporais mais avassaladores postos no caminho.

Que venha o líquido restaurador e prometidamente eliminador de riscos! Em minhas veias já corre vida suficiente para receber essa influência - que  guarda tanto mistério e poder! Da nova mistura injetada hão de advir novos delírios, sonhos e constatações. E palavras, por suposto. É o que espero. E faço isso, em estado de total ignorância quanto a efeitos e bizarras especulações, abrindo meu corpo ao que virá e abrindo mão, por um tempo, de minhas palavras de pensamento e emoção.
Apronto-me, sem mais dizeres, se esta parece ser a primeira regra do jogo.  Desprendo-me de dizeres. Entrego-me ao novo e ao medo que ele apregoa, mesmo sem nenhum anúncio explícito. Pago o preço! É vida. Vamos a ela!