quinta-feira, 11 de agosto de 2016


                                              

    
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A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR
(escrito em 11/08/2016)

De que adianta tanta emoção, tanto choro - copioso e até sincero - de nossa parte, com a vitória da Rafaela, se cada um de nós voltar ao nosso cotidiano, indiferente ao que está acontecendo em Brasília com o conchavo - o maior já visto em nossa história - para sacramentar, com o nosso aval, silêncio e cumplicidade, o pior dos mundos em termos de políticas públicas para tantas e tantos da Silva que se espalham por nosso país?
Sabem quando - com nosso silêncio, cumplicidade e aval - o governico que estamos apoiando que permaneça dará chance a novas Rafaelas? Nunquinha!!!!!! Aliás, ele já está mostrando as suas afiadas unhas.
Com nosso aval, cumplicidade e silêncio estes tempos são tempos de outro tipo de criança, sabemos muito bem quais. As Rafaelas que se explodam! E nós, quietinhos, sem chorar nem rir. Assobiando, como se nada tivéssemos a ver com nada.
Acredito que o momento não é de pensarmos apenas no que significa a expulsão da presidente eleita. São tempos de verificarmos o que - com nosso silêncio, cumplicidade e aval - estamos chancelando para que fique.
Não adianta chorar e não fazemos nada para mudar. Choro sozinho é impossibilidade e culpa. Já choro e ação elimina o silêncio e joga a cumplicidade e o aval para escanteio, e com vigor.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

ALTÍSSIMO RISCO

Estado de pavor (Imagem buscada no Google)
(Escrito em 9/8/2016)

(Estamos percebendo o tamanho do perigo?)

Como disse minha amiga Nilda Alves, como pode um país precisar de um juiz arbitrar e vir a garantir o que já é garantido pelo texto constitucional?
Desde sábado, estamos assistindo - como se fosse natural - à repressão, e até prisão - de quem se manifesta politicamente durante a Olimpíada do Rio. Ou seja: há cerca de 100 horas, a nossa Constituição está sendo ultrajada e tal desrespeito, ilegalidade mesmo, vinha sendo visto como possível, natural, aceitável. Um grita daqui, outro dali, os de sempre protestam, denunciam, principalmente aqui pelas redes sociais, mas o conjunto da população continuava e continua tomando o seu café com leite sem se importar com o que vai além da sua vontade - individual - de tomar café com leite. Ou chá. Ou champagne. Ou
vinho. Ou água. Cada um por si e a nossa lei maior jogada ao brejo. O OUTRO sendo vilipendiado, e cada qual no conforto de seu lar, zelando por si próprio e pelos seus. Tudo certo. Umbigos protegidos, que siga o baile!
E se a polícia estivesse invadindo nossas casas para procurar nosso filho que tem cabelos crespos porque os donos do poder não gostam de
cabelos crespos? E se nos parassem na rua porque não gostam de carros blindados e consideram que eles pesam mais do que deveriam? Ou carros usados com mais
de 5 anos de uso? E se fosse porque o jardim de nossas casas têm mais flores do que se considera agradável aos olhos? Ou menos? E se fosse porque só tenho um casal de filhos e deveria ter mais? Ou porque só deveria ter um? E se fosse porque minha casa não poderia estar pintada de amarelo ouro porque é uma cor tida como de mau gosto por quem manda no país? Ou verde? Ou azul? Ou branca? E se fosse...
Em 100 horas se destrói um país, uma nação ou o que quer que seja...
Aí não dá para não nos lembrarmos de Brecht e Maiakovski quando nos alertaram:
“Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.”

sábado, 6 de agosto de 2016


Dará certo?(*)

(Doidice de 6/8/2014)

Sem conseguir dar um porre nos filhotes de gambá, num misto de pena dos miúdos e lástima de gastar a minha especial cachacinha mineira para finalidade tão esquisita, orientei o rapaz encarregado da tarefa e ele acaba de espalhar infinitas bolinhas de naftalina no vão entre as telhas e o forro de madeira. Que eles todos, em fila indiana, tomem seu rumo, quem sabe, como num desenho animado, cantando "eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou..."
(Eu falo muita bobagem, né? Amadurecimento, cadê vc?)

(*) Os gambás são os que farreavam uma noites destas no forro da casa. Já escrevi sobre eles)


Para escrever, vale qualquer especulação...
(Escrito em 6/8/2014)

Um antigo companheiro, ao ver que tenho no armário do escritório a frase "Olhei a cidade de cima e nem assim encontrei meu lugar", tentou me questionar, achando absurdamente impossível a mulher que ele via como tão especial estar imbuída de tamanha incerteza quanto a si própria e a seu lugar no mundo. Eu tentei argumentar, creio que ele não conseguiu entender bem, o fato é que ele virou passado e a frase ainda está aqui me olhando, num tempo presente mais que perfeito.

Hoje acordo pensando que isso talvez deva vir do tempo em que, menininha ainda, quando estava na Praça São Salvador para pegar o bonde, o meu, o do Caju, ele era o único que seguia no sentido contrário de todos os demais... E era a direção não só lá de casa, como também do cemitério...

(Na foto, nossa casa, já velhinha, quando já não era nossa. Passando por lá, anos depois, fiz o registro)

quinta-feira, 4 de agosto de 2016


POR HONRA AO TÍTULO!


(Escrito em 4/8/2016)

Ela faz sua teia no impulso, na ausência de racionalidade, no próprio ato de fazer. Nós, homens e mulheres, tecemos com consciência, traçamos o projeto da teia, antes de ir ao mundo, a teia é criada dentro de nós, projetada, antecipada, pensada, vivida antes. Com isso, ganhamos status de não sermos aranha, de não sermos um bicho qualquer. Oh, maravilha! , somos humanos. Pois é, temos até o polegar opositor para nos lembrar de que não somos lobos, galinhas tampouco jacarés ou pacas.
Pois já passa da hora de honrarmos essa categorização que tanto nos enaltece. Que tal brincarmos de criar teias de humanização, de dignidade universal, de ampla e irrestrita justiça social, de deixarmos de ser mortos em vida - por crueldade irrestrita - como aranhas peçonhentas e indesejáveis?



O Ponto Central de nossa contradição: o ilegítimo Temer
DIFÍCIL MESMO É ENCONTRAR O PONTO “E”
(Escrito em 3/8/2016)



E, de equilíbrio. Ou de qualquer outra palavra, com letra diversa, que seja sinônimo de equilíbrio e que possa lembrar uma boa e agradável sensação de conforto, bem-estar diante de alguma nova situação. Equilíbrio, não sei se me explico bem, como que um estado de prontidão, sem dores a mais nem alegrias a menos. Estar em equilíbrio, disponível para sentir o que há ser sentido, para viver o que chega para ser vivido. Como tiver que ser vivido e sentido, sem sombras, sem a priores, sem preconceitos, sem mágoas.
A explicação: diante dos tamanhos desvios, superfaturamentos, discursos oportunistas e qualidade questionável - até assassinas - das obras preparadas para receber a Olimpíada do Rio, falta-me equilíbrio para viver o momento em sua inteireza. A verdade é que há uma sombra a impedir uma entrega integral ao momento. Fico refém, tolhida em minha emoção quando vejo a tocha olímpica atravessando a Baía, num lindo barco, cercado de tantas outras embarcações, tudo tão atraente, pronto para trazer emoções à luz da vida... E eu, dividida, penalizada, não consigo estar inteira na vivência de um momento que poderia e deveria ser tão especial.
Este nosso sistema econômico (e suas dimensões políticas e ideológicas) é mesmo perverso por demais. Humanos que somos, carregados de possibilidades de nos emocionar e usufruir a benção que é viver nos traçados que se apresentam, como o caso de uma Olimpíada em casa, não conseguimos nem de longe sentir a alegria e orgulho que seria até natural.
A dívida social é de tamanha grandeza, a infelicitação das pessoas é de tamanho volume e intensidade, a injustiça é tão carregada de desesperança - que nada pode ser vivido na sua essência e possibilidades. Tudo é motivo para nos sentirmos culpados, equivocados, dúbios, partidos.
Nesse clima, há espaço para se entender o grupo que faz das suas para apagar a tocha em seu percurso, o outro que cria uma faixa chamando o evento de olim piada e todos os desacertos - inúmeros - que vão tendo lugar aqui e ali em torno do acontecimento, um evento internacional que, teoricamente, poderia ser anunciador de paz e de congraçamento.
Muito triste termos que nos ver nesta nossa partição doída e inescapável!


terça-feira, 2 de agosto de 2016


SOBRE VIOLÊNCIAS (OU SOBRE A PROPAGAÇÃO DO SOM DOS SINOS)
(Escrito em 26/07/2014)

Nesta manhã tão friinha, que me viu sair da cama mais cedo do que poderia sugerir o clima tão adequado para a demorada preguiça embaixo das cobertas, a vontade é tanta de me fazer entender, que faço uso de uma historinha inventada, como que uma alegoria, para dar conta do que quis e quero transmitir sobre o pensamento que me invadiu logo ao acordar.


Peço licença, então, e começo a minha narrativa, pura invencionice, mas, creiam, com o único e (creio que) generoso propósito de ver se me faço entender, por mim mesma e pelos que sempre mantêm a boa vontade de me ler neste espaço. Espaço que uso, quase que diariamente, para exercitar a minha permanente e excitante brincadeira com as palavras que me leva às pessoas, trazendo-as também até mim, no possível diálogo que, mesmo virtual, aquece meu coração.

O começo é real, o que vem depois é que é pura imaginação para criar um exemplo acerca do que quero explicitar. Vamos lá: a TV faz uma extensa matéria, com imagens, com entrevista ao cidadão-herói, com tempo dedicado à sua história de menino que nasceu pobre, cresceu pobre, mas que quis “vencer”. E venceu! Pois lá está ele, já maduro, com seus quarenta e alguns anos, na Universidade, mediante seu esforço próprio, sem necessitar de cotas nem qualquer “mãozinha” do gênero. Ou seja: ele quis, se esforçou e conseguiu. Tornou-se um universitário!

No dia seguinte, foi a vez de jornais impressos e on line insistirem no assunto. Novamente o indivíduo é exaltado como exemplo a ser seguido por todo e qualquer brasileiro desvalido da sorte. A nítida e insistente ideia presente na notícia é a de que quem não consegue ascender socialmente é por responsabilidade exclusivamente sua. Se um conseguiu, por que os demais não o conseguem? Nada é dito claramente, mas o que especulo é que uma hipotética Dona Maria, doméstica, que esteve atenta à notícia veiculada, comentará com uma sua vizinha Lourdes o sucesso do seu igual, aquele cidadão pobre como ela, que foi atrás, sozinho, de seus sonhos. Em minha especulação, os argumentos deverão se suceder e a história será repetida à exaustão de tal modo que qualquer sujeito em torno, em iguais circunstâncias sócio-econômicas, desprezará, na definição de seu destino,  qualquer determinação que escape a si e que venha das suas circunstâncias histórias. Se ela e toda a sua prole desejarem, com afinco, “vencerão na vida”.

Dona Lourdes (seguindo com minha historia ilustrativa), sendo merendeira na escola próxima da comunidade, olhará para cada menino ali matriculado como um perdedor, e, pior, por sua vontade própria. Perdedor porque não sabe lutar pelo que almeja. Numa  oportunidade qualquer em que vir qualquer um numa atitude considerada incorreta, uma brincadeira de mau gosto na fila, um palavrão dirigido ao colega de turma, coisas assim, imediatamente o condenará por ser fraco e não querer subir na vida. Quase que naturalmente, pela lição aprendida da amiga que ouviu da vizinha, nele coloca toda a responsabilidade por seus gestos e formulações. E isso ela espalha não apenas para os alunos da escola, mas para seus filhos, vizinhos, sobrinhos, netos. A ideia que ela passará para Matildes, Zildas, Pedros e Zoraides é apenas esta – a de quem quer, é capaz. Não conseguindo, ninguém mais é responsável pelo seu fracasso, apenas cada um, sozinho, por sua própria conta e risco.

Por sua vez, Matildes, Zildas, Pedros e Zoraides têm lá seus amigos, e, logo, Zoroastros, Penhas, Marias, Lucias, Jorges e todos as pessoas de suas relações, de um jeito ou de outro, aprenderão essa lição, a de que a sociedade é uma “sociedade aberta”, onde cada qual pode galgar novas posições, dependendo apenas de seu próprio esforço e determinação.
Mas, amigos todos, vamos e venhamos: essa é uma lição mentirosa, equivocada, ilusória, chego mesmo a considerar criminosa. Gerações e mais gerações, por força de um sino que badala ao amanhecer e espalha seu som para além do entorno da igreja de onde parte, receberão em cheio a repercussão, o som, a imagem, as ondas emanadas por uma criatura que, distraidamente, espalhou, como uma pedra jogada num lago, a lição que aprendeu na TV. Sem a menor intenção de fazer maldade a ninguém, sem ter a mais ínfima noção do tanto que estão sendo instrumento da violência de um discurso midiático, Helenas e Veras, Josés e Antônios  repassam a história do jovem senhor que saiu da miséria contando apenas com sua fé e sua vontade. E cada qual, munido de esperança, que logo talvez se transforme em frustração, segue acreditando que precisa ser forte e carregado de vontade para ir além do que seus pais conseguiram ir. E que não foram por culpa deles! 

Sininho, a ativista política
O grande Bourdieu fala em violência simbólica, aquela que não se faz com agressões físicas. É ele o mestre em nos ensinar como as palavras e os gestos disseminam ideias que destroem ou distorcem vontades, entendimentos, métodos de ver. Sem nenhuma agressão que passe por dores levadas ao corpo, mas apenas cravadas na alma e no intelecto, a violência é praticada, subliminarmente, sem que nenhum delegacia especializada precise ser acionada para punir o agressor. São marcas por dentro,  na alma.

Pergunto, então, a esta altura destas reflexões que ouso compartilhar com cada um: quem pratica mais violência – Sininho, a moça das passeatas de junho, usando de suas próprias armas, ou os grandes badalos dos grandes sinos e seus poderosos sineiros que tocam a cada manhã, e que, durante todo o dia, a cada dia, anunciam ideias que ampliam a violência contra cada ser humano – aquele que é pobre, claro, à frente de todos os demais – e que se atreve a viver neste mundo? E pior, alimentando sonhos?