sexta-feira, 4 de novembro de 2016

DIVERGÊNCIAResultado de imagem para divergência
(Escrito em 4/11/2016)
Na doce ilusão de que Freixo poderia ser eleito e de que faltava pouco para alcançarmos nosso intento de termos uma prefeitura na capital comprometida com a democracia e o combate à desigualdade, às vésperas do segundo turno, enviei uma mensagem para todo mundo que reside e vota no Rio, na tentativa de reverter algum possível voto nulo para o 50. A maioria fez silêncio, alguns poucos responderam concordando e já se dizendo eleitores dele, e ninguém se disse contra o que eu propus. Ninguém, vírgula, até hoje de manhã, quando um velho conhecido, conterrâneo que não vejo há décadas, me respondeu, agradecendo pelo conselho, reconhecendo que o Rio é agora uma cidade evangélica e afirmando que apesar do Crivella não ser o Prefeito de seus sonhos, pelo menos conseguiu impedir que a cidade viesse a ter um governo comunista/socialista. Segundo ele (naturalmente querendo me dar uma alfinetada), o comunismo/socialismo é um fracasso e “é incrível como pessoas inteligentes não percebem que é uma ideia utópica, com excelentes promessas totalmente inviáveis na prática e que sempre acaba em desastre econômico.” E conclui, ironicamente: “Como Freixo é jovem, pode ser que ainda venha a evoluir e abraçar a democracia capitalista multipartidária, um sistema muito ruim, mas que é melhor do que todos os outros inventados até agora ...”
Não encontrei nenhuma outra maneira de responder ao eleitor do Crivella, a não ser, de maneira bem curta:
“É, quem sabe? Ou não.”
FAREJANDO POSSIBILIDADES
 (escrito em 4/11/2014)
"As palavras, Carmen Lucia, tentam mas não alcançam as emoções. E, o que ainda perdura, ruas, casas , lembranças, caminhos trilhados e até pessoas não trazem de volta o que passou. As vezes que retornei a Campos, pareceu-me deserta. Não só de tudo que dela trago, como até de mim, do que fui diante do que sou. Forasteiro no próprio lar." 
Aloísio Svaiter
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Você, meu amigo Aloísio Svaiter, me saculeja com a sua bela maneira de dizer da incompletude das palavras; da impossibilidade dessas malandrinhas darem conta de ir às entranhas, de lá trazendo com nitidez o que é e que importa. Para mim que, chegando de viagem, queria mesmo era escrever sobre as duas irmãs adoecidas e seus legados, deixo para depois tal desejo, até porque é bem mais complexo e avassalador.
O amigo me pega mesmo de mau jeito em função de minha eterna crença de que as palavras nos formatam e nos tornam o ser que vamos sendo. Até já discuti, no bom sentido, Aloísio, com um grande amigo –  André – que você não conheceu, sobre a relação entre História e Literatura, ele sempre apregoando que o que existe, de verdade, é a Literatura, é o dito, é o discurso, não o acontecido, em si, esse permanente desconhecido.
Vejo-me estudando análise de discurso e tentando captar a força do entendimento de que o que nos chega em forma de discurso acaba por dar feição à nossa subjetividade. É a menina que, desde pequena, escuta que é frágil e acaba por se acreditar assim. E pode nem ser tanto. Ou, não raras vezes, não é. É o rapaz que escuta que é o gostosão da mulherada e que acaba por tornar essa uma verdade absoluta e não entender que não é bem assim.
Aprendi a me dizer que “depende”! Sempre depende! Mas a escuta internalizada cria nossa fisionomia emocional e vai-nos colocando em encruzilhadas pela vida afora e adentro. Duro é derreter as certezas e confrontá-las com o que vem vindo e com sentidos diversos!
Creio, Aloísio, que, como em tudo na vida, temos mesmo é que seguir uma das lições mais preciosas que um outro campista tão querido que já nos deixou – José Américo Pessanha –  nos legou. Refiro-me à incerteza das coisas e da sempre indispensável atitude de dúvida que devemos endereçar ao já estabelecido como verdade sempre que com ele nos defrontemos. Duvidemos, pois, da capacidade das palavras como também da sua incapacidade. Vamos continuar testando sua força, seu poder e seu efeito sobre nós. E sobre a vida. Viver não é também ir farejando possibilidades?
Conversinha boa essa... (E deixe-me correr, se não me atraso para a terapia, com acento no primeiro a, como dizem os argentinos...)


sábado, 29 de outubro de 2016





AMOR EM TEMPOS DE IRA 
(Escrito em 2014, mas valendo pra hoje)

Vocês se lembram de uma frasezinha que se repetia, creio que num jornal do Rio, durante um bom tempo, que afirmava AMAR É ... e que ia sendo completada com alguma expressão que fazia sentido aos olhos de seu criador? Pois a minha máxima de hoje, de agora, deste instante, inspira-se na tal seção, mas não tem a ver com o amor, e, sim, com um agudo mal-estar de que me vejo acometida repentinamente.

Fiel ao sentimento que me acompanha, saio com esta: ATORDOAMENTO É ... desembarcar aqui na rede e tomar conhecimento de que Sarney votou num candidato usando o bóton de outro. Putz! Como a política vem se reduzindo à falta de caráter e a um vale tudo em defesa de interesses escusos e individualistas!

Sou de um tempo em que udenistas protegiam amigos comunistas em momentos de risco à sua liberdade. O que valia lá atrás eram valores que parecem ter caído em desuso. Entre amigos, as divergências se mandavam para outras bandas e davam lugar ao respeito e à solidariedade. Vivi isso em casa, na vizinhança, na minha cidade. Viva "seu" João! Viva "seu" Evaldo!

Hoje escuto - e engulo em seco - que um fulano desejou e decidiu ser candidato com receio de se aposentar com os parcos recursos que sua profissão poderiam lhe garantir. Querem que eu repita? Isso mesmo que escrevi. (E se elegeu, o danado! E tem um mandatinho fraquinho, fraquinho...).

O compromisso com o outro deixou de ser critério para uma ação política formal. O tal do bem comum nem mais aparece nos discursos que se enfrentam num determinado pleito. Quase creio que se a tal seção voltasse a ser introduzida num matutino de hoje em dia, forçosamente haveria de ganhar a forma reflexiva: AMAR-SE É...


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

COM POLÍTICA E COM AFETO
Minha família, em meus 70 anos, 2015
Com tanta gente se pronunciando sobre os ódios entre os eleitores de um e de outro candidato, eu quero agradecer aos meus amigos e, principalmente, aos meus familiares mais próximos (não me lembro de nenhum que tenha votado comigo!) por termos deixado prevalecer a amizade e o entendimento, sem que se estabelecesse nenhuma guerra entre nós por conta de nossa visão de mundo oposta e exposta mais nitidamente ainda neste processo eleitoral. Até fui – e na véspera da eleição – a uma festa de família e não havia nem um (assim mesmo, separado) nem unzinho eleitor – e éramos muitos... – que simpatizasse com o meu voto. Pois, brincamos com o assunto, que, aliás, pouco frequentou nosso bate-papo, e tratamos mesmo foi de matar nossa saudade, bem à nossa moda (ou será mais minha que dos demais?), alisando os rostos de um e de outro, sentindo falta e relembrando os que não puderam estar junto, acariciando as mãos dos que moram mais longe, beijando, abraçando e trocando sorrisos e conversas, no pouco tempo que tínhamos para nos entregarmos uns aos outros. E digo até mais, para além do aconchego familiar: até de um amor de adolescência, recebi uma singela mensagem, na manhã de domingo, dizendo que “esperava que vencesse o melhor para os brasileiros”, ao que eu respondi que: “antes, durante e depois dessa eleição, que nos colocava em lados opostos, nossa união afetiva vale até que a morte nos separe”.
Na verdade, nada ofusca um sorriso iluminado pelo bem-querer! E como custei a aprender isso! Não deve ser à toa que ando sonhando com situações em que estou reaprendendo coisas. Na semana passada foi uma situação de grande aflição onde eu estava por dar uma palestra, já no local, as pessoas esperando as minhas “sábias palavras” e nada me vinha à mente, completamente vazia de conceitos ou categorias a expor aos ouvintes. E esta noite, com Dilma já eleita, eu sonhei que estava para fazer um exame escrito numa Faculdade (o professor era um japonês – e sobre esse detalhe devo dizer que nem com muita terapia vou entendê-lo...) e eu, simplesmente não tinha lido o livro que seria a base do tal exame. Não me restou ir ao japonês e pedir que adiasse a minha apresentação para uns dias depois. Ele consentiu, mas isso não me atendeu de todo. Eu fiquei foi em dúvida se valeria a pena obter outro diploma de Pedagogia. Não seria melhor eu largar de mão esse novo curso de Pedagogia que eu havia voltado a frequentar?
Maluquices à parte, o principal é encontrar, a esta altura da vida, o sentido de família que sempre foi tão distanciado de mim. Vivendo e aprendendo, nem que seja pelo aflorar de sonhos ao amanhecer... E pelo convívio com as novas gerações pessanhísticas que ocupam o mundo nestes tempos de agora, quando a minha já está com poucos representantes por aqui. Bom como um chuvisco! Ou como um tronco bem molhadinho lá da minha terra... Que delícia!
Eu e meus irmãos com mamãe, na década de 80.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016




DE MARACUJÁS, MAS NÃO SÓ...
(Escrito em 24/10/2014)
Mais de 30. Novamente ao dispor de nossas vontades de beber sucos, de nos deliciarmos com mousses enfeitadas com alguns de seus grãozinhos por cima, de tontearmos a nossa coerência com alguma batidinha mais farta de uma boa cachaça da roça, essas coisas boas de saborear quando por elas se tem gosto.
Mas esse reflorescimento em forma de nova colheita também anuncia a permanência das coisas, em constante mutação, nos relembrando os efeitos do tempo e o jeito de ser do mundo em suas peripécias. Isto mesmo: segunda-feira nada mais é do que o terceiro dia após esta foto ter sido tirada. Isso tem a ver com maracujás e tudo o mais. Será um terceiro dia com o sabor daquilo que cada um de nós estará colhendo do que pudemos plantar.
Voltamos às ruas. Essa é uma rega mais do que efetiva, indicativa de uma excelente safra, e não apenas de maracujás graúdos e adocicados. De minha parte, estou totalmente convencida do estrago que seria (ou será?) a mudança do plantio de maracujás, que já vêm dando bons frutos, para qualquer outro tipo de cultura. Mas... será, com certeza, a vitalidade de nossa voz e o coro que pudermos recriar para combater as pragas - que empesteiam as lavouras desde que nos entendemos por brasileiros - que poderão gerar safras mais amplamente aproveitadas por todos.
Sinalizamos novamente para o PT que, se é para democratizar a ação governamental, dissemos SIM e dizemos PRESENTE. Mas, nada é simples: se o terceiro dia for dia de comemoração para a parcela mais sofrida do povo brasileiro, as ilusões devem ser postas para escanteio. Estaremos livres do pior, mas o sabor e a qualidade das lavouras, de todas elas, vai demandar muitos cuidados por parte de cada um de nós. O tempo de saborear doces e bebidas, de tudo quanto é fruta, não apenas de maracujás viçosos, vai ser curtinho, entre um embate e outro.
Estamos pensando que é fácil? Querem "sopa"? Venham brincar de pique e correr atrás de mim, que, além de fraca na "matéria", deixo-me vencer fácil, fácil com as gargalhadas que me levam ao chão na primeira ameaça de ser pega.

UM ANO DEPOIS...
(Escrito em 24/10/2015)
(Há um ano, gostando muito, muito, muito de ter escrito essa maracujice e sentindo as dores do "embate simbólico da floração". Maracujás para todos é sonho mais que distante. As plantações vão ao lixo, mas saciar a fome de todos não é meta para estes tempos em que estamos de passagem por aqui (ou vocês não leram sobre as toneladas de tomate que mais uma vez foi posta fora para garantir bom preço no MERCADO? )

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Educação para tudo ficar como está ou piorar? NÃO!
(Escrito em 21/10/2015)
Não é coisa de esquerdista, não! É me colocar mesmo no lugar de quem chegou, viu e venceu em nossa sociedade. Nem mexo com as classes sociais fundamentais e deixo-as como estão, tudo igualzinho. Mas, rogo por um pouquinho mais de bom senso.
É que ando mais do que preocupada por ver as propagandas de algumas escolas privadas com as quais tenho tomado contato. Uma chama seus candidatos a alunos para correrem para chegarem em primeiro lugar a fim de concorrerem a uma bolsa de estudo; outra, cria uma propaganda no sentido de que quer futuros vencedores, premiados, limpos da sujeira que reina em nossa sociedade.E que essa "eugenia social" vem de sua ação educativa, exclusivamente dela, a escola salvadora da pátria. Esses são só dois exemplos, mas o tom é sempre o mesmo, o da competição desenfreada e de "que vençam os melhores" (acrescento eu: os mesmos, os que já nasceram para serem vencedores).
Não sou ingênua de imaginar que uma escola privada possa ter interesses sociais nem públicos ou universais. Ela está inserida no mercado e quer se vender como a melhor para o futuro sucesso dos jovens meninos e meninas pagantes pelo serviço que oferece. Mas, não estarão eles, sim, os seus responsáveis, ingenuamente postos, analisando que o que está vigente em nossa sociedade está falido? Que a lógica da exclusão e do mérito, do egoísmo e do cada um por si está destruindo o mínimo de convivência entre os mais e menos apaniguados financeiramente? Os próprios "vencedores" não estão ficando aprisionados numa sociedade cruel e violenta?
Caminhar indiferentemente em direção à naturalização da injustiça social, no limite, da barbárie é inadmissível para educadores! Quase fico propensa a entender como menos perniciosa uma educação cristã que, pelo menos, traz o exemplo de uma figura exemplar para os jovens em formação. Se mais tarde eles vão rever e acertar contas com seus conceitos religiosos, será, talvez, melhor, do que serem treinados para verem como natural a desigualdade, sem nem ao menos criarem dentro de si um sentido de generosidade, até mesmo de caridade (que não é desejável, pois vê quem dá numa posição superior à de quem recebe), mas, é a tal questão de graus, como Dorinha Dora Henrique da Costatanto nos ensina: um pouquinho que seja menos ruim já dá uma aliviada na alma.
Grande e iluminado Francisco, sei que você está com prioridades e mais prioridades para atender com seu discurso restaurador, mas, dá uma palinha para este povo que está colocando o lucro acima do Bem Comum, meu grande Mestre! Aqui pelo Brasil a situação está de se lamentar!

sexta-feira, 7 de outubro de 2016



REFLEXÃO SOBRE AS PARECENÇAS
(Escrito em 7/10/2013)

Tenho vivido um treinamento intensivo, dia sim, outro também, para pacificar meu coração, valorizar a vida, entender a felicidade como a arte de procurar estar bem em qualquer circunstância. Difícil pra burro! Tadinho do burro! Acho mesmo que é difícil para elefante (que, pelo menos, aparece aqui na minha oração por ser grande, não por qualquer possível preconceito)!.
            O abrandamento do olhar enturvado e duro é atitude a ser revivida a cada manhã, meio como mantra, meio como bússola. Aquela mansidão exemplar de algumas pessoas - meu exemplo mais contundente é o de Conceição Muniz - não faz parte naturalmente de minha personalidade. Negocio com as circunstâncias e com os meus pares, troco aconchegos e ponderações, mas sinto o quanto é penoso aceitar, de alma limpa, a diferença do outro, aquilo que dele não faz parte minimamente de minha forma de lidar com o mundo. Abandonar o olhar julgador e dar a volta para acolher outros ângulos daquela personalidade que contraria meu jeito de viver a vida é tarefa que exige exercício e teima. Mas, o amor e a admiração são a senha para se prosseguir.
            Para tecer a ponte da tolerância, o exemplo de bons amigos - que sabem melhor que eu negociar com a vida e com seus pares a eles antagônicos - tem me servido muito mais do que pensado. E não se trata de alienação, de fazer de conta que um dado "defeito" de uma pessoa querida não exista. O esforço é para estar junto apesar de. Se há carinho, se há confiança mútua, que vá às favas algum caráter dissonante do outro! Ampliar o diálogo entre as identidades e ser tolerante com os descompassos - essa é a vontade em ação. E de parte à parte.
            Nesse processo de refazer modus vivendi de amar, cortes de relações só surgem em minha vida por questões de princípios. Aí, nem o afeto dá conta de sustentar a amizade.
Há que se suportar o sofrimento da perda!
Há que se viver o luto pelo desencontro!
Há que se ir além, pela impossibilidade instalada!
            Não se nega a história que se viveu junto. Mantém-se a gratidão pelo trajeto partilhado em comunhão. Mas, encerra-se um ciclo de entrega e afetividade, tornado incompatível.
            Aí, um dia, não se sabe o motivo, a gente pensa nisso com tristeza, vê que a amizade ruiu, mas segue adiante. Princípios são - e creio que sempre serão - inegociáveis!